Numa estrada sinuosa, com a capota para baixo

"Eu deixei ir a noção de que a minha família só podia ser feliz se incluísse o meu marido, com quem havia partilhado todos os pensamentos, sentimentos"

A chuva começou a cair enquanto eu observava o guincho do reboque a puxar o meu Alfa Romeo azul-esverdeado para cima do camião. O descapotável com 30 anos tinha-se recusado novamente a pegar e, enquanto secava os meus braços molhados da chuva, pensei que provavelmente tinha chegado a hora de me ver livre dele.

O meu marido adorava aquele Spider a que os nossos filhos chamavam o carro feliz. Mas antes de sucumbir ao melanoma aos 48 anos, ele instruiu-nos especificamente para não fazermos do carro um relicário. Eu, mesmo assim, quis ficar com ele. Era muito raro conduzi-lo. Tinha a intenção de o usar para ensinar os nossos filhos a guiar um carro com mudanças manuais, mas isso nunca aconteceu. Não conseguia suportar a ideia de os ver arranhar aquela caixa de velocidades.

A chuvada terminou no momento em que o camião de reboque arrancou. O vapor elevava-se do chão e refratava a luz do sol que tinha aparecido de repente. Era um sinal, disse para mim mesma. Tinha chegado o momento de o deixar ir. Tentei ignorar o peso que se instalou de imediato no meu peito.

O Alfa teve de ser rebocado 40 quilómetros para uma oficina especializada. Anos antes, atualizei a minha adesão ao Automóvel Clube para cobrir essa despesa recorrente. Liguei para a oficina para descrever os atuais sintomas do carro. O mecânico, que nos conhece bem, ao carro e a mim, disse-me: "Não o pode deixar sempre parado. Um carro destes precisa de andar ou então é melhor vendê-lo."

Seria de esperar que, por esta altura, eu já fosse uma perita em deixar ir as coisas.

Eu deixei ir a noção de que a minha família só podia ser feliz se incluísse o meu marido, com quem havia partilhado todos os pensamentos, sentimentos e planos durante 20 anos. Deixei ir uma configuração diferente de família feliz quando a nossa filha, e depois o nosso filho, partiram para a faculdade. Embora temesse o momento em que ambos se iriam embora, também sabia que eles estavam prontos para isso. Para eles, deixar ir uma coisa significava abrir espaço para agarrar um universo inteiro. E, mesmo afastados, continuamos próximos. Nós não nos limitámos a sobreviver, encontrámos maneiras de progredir.

Abandonei muitas outras noções preconcebidas sobre como iria ser a minha vida quando me forcei a começar a namorar novamente, poucos anos após a morte do meu marido. Quando me sentei à mesa com estranhos, cujas histórias de infelicidade no amor me deixavam sem apetite.

Todas as semanas, no ioga, eu obedeço e deixo os meus membros descontrair e ficarem pesados quando a professora diz: "Comecem a praticar a arte de deixar ir."

Então, por que razão é tão difícil para mim deixar ir este carro?

Parte da resposta veio algumas semanas depois, quando, numa tarde de setembro sem nuvens, fui buscar o carro à oficina. Fiquei chocada com a conta e comecei a compor anúncios para venda na minha cabeça. Mas, enquanto guiava, a brisa aquecia-me a face. Os girassóis do pântano apareciam em manchas amarelas que eu não tinha visto de dentro do meu sensato carro familiar. Havia ainda um leve aroma a madressilva no ar.

Baixei a mudança e o carro agarrou-se ao piso do nó de saída da autoestrada. O motor zumbia; o assento envolvia-me. As mãos, os pés, todo o meu corpo: tudo estava envolvido. Sem mexer no telemóvel ou no rádio. Só eu, o carro e a estrada.

Senti-me transportada para o dia de outono em Vermont quando o meu marido me ensinou a mexer na embraiagem e nas mudanças noutro descapotável, noutra estrada sinuosa. Eu estava a estudar para os exames da faculdade de medicina. Não tínhamos dinheiro, mas esbanjámos o pouco que tínhamos numa estalagem. Ele era assim, as dificuldades não o impediam de mergulhar nas coisas que amava.

Nos primeiros tempos, um carro pouco fiável era o nosso único meio de transporte. Acabámos por lhe adicionar um carro mais seguro, mas como a nossa filha sorria quando o pai a levava à escola no Spider! Como os meninos do segundo ano se juntavam à volta do descapotável à porta da escola! Sem airbags, sem barra estabilizadora, com um para--choques de metal, sem tejadilho - má ideia deixar ir uma criança assim.

Eu era o tipo de mãe que punha capacetes aos filhos enquanto eles aprendiam a patinar no gelo. Mas a minha filha escreveu um poema sobre a passagem da luz através das árvores quando ela e o pai voavam através desses momentos no tempo. Os meus filhos transformaram-se em pessoas que mergulham no mundo com todos os seus sentidos alerta.

O Alfa é pouco prático, caro e inconveniente. O meu cabelo fica parecido com um ninho de pássaros quando conduzo com a capota para baixo. Quando chove, a capota de tecido deixa passar pingos de chuva fria que me caem na cabeça. Já me deixou parada mais do que uma vez.

E eu adoro-o.

Eu fui educada para deixar de lado as minhas aspirações de me tornar escritora porque o caminho sinuoso de uma carreira criativa parecia conduzir ao risco e à indigência, e a minha família imigrante já tinha tido o suficiente dos dois. Era melhor abandonar o romantismo e agarrar-me às certezas tangíveis, aconselhavam os meus pais.

O meu marido, educado em circunstâncias semelhantes, com expectativas semelhantes, desrespeitava de alguma forma as noções convencionais sobre o que valia a pena agarrar ou abdicar. Ele tornou-se cientista em vez de médico e descobriu não só a realização criativa, mas também o sucesso financeiro nessa carreira menos previsível. Os seus empréstimos estudantis subsidiaram parcialmente aulas de voo e, mais tarde, levou-me a Ocracoke, na Carolina do Norte, num bimotor Cherokee Warrior, aterrando numa pista de relva ao lado da praia deslumbrante, extinguindo o medo de voar que eu tinha desenvolvido a bordo de jatos comerciais muito mais seguros.

Ele levava a segurança a sério. Atrasávamos o voo de regresso se o tempo virasse. Ele não assumia riscos tolos. Mas estimulava riscos razoáveis.

Ele incentivou-me a continuar a escrever e a trabalhar a tempo parcial como médica, mesmo que isso significasse que demoraríamos mais tempo a pagar as dívidas de estudantes. Aconselhava os alunos a levantar as questões significativas, não apenas aquelas consideradas mais propensas a obter financiamentos. Deixou cartas aos nossos filhos instando-os a não se deixarem dominar pela amargura ou pelo medo por causa do destino que teve. Mantenham-se recetivos à imensa beleza que vos rodeia, disse-lhes. Empenhem-se. E quando a vossa mãe encontrar outra pessoa, o que eu espero que aconteça, tentem ser abertos para com ele.

Eu encontrei outra pessoa há alguns anos e tive de deixar ir de uma série de maneiras inesperadas. O meu parceiro tem quatro filhos, dois mais novos do que os meus, e duas ex-mulheres. Os filhos dele não perderam um pai, mas algo potencialmente mais desestabilizador: a fé na possibilidade da existência de um amor profundo.

A mais velha tem uma posição de cinismo em relação às hipóteses de qualquer relacionamento duradouro. O seu meio-irmão de 9 anos mantém a fotografia do casamento dos pais na sua secretária e refere-se à companheira da mãe, que vive com eles, como sua tia, embora a relação lhe tenha sido explicada. Algumas crianças levam para a vida adulta o desejo ardente de que os seus pais divorciados se voltem de alguma forma a juntar, envenenando a sua capacidade para encontrar alegria nas relações reais que os cercam.

O meu parceiro reconhece as dificuldades. No início do nosso relacionamento, ele questionava-se por que motivo haveria eu de assumir a bagagem da sua vida passada, a bagagem que ele muitas vezes desejou poder abandonar. Não os filhos, claro, mas a dinâmica dolorosa dos adultos à volta deles.

O meu marido costumava dizer: "Se fosse fácil, seria feito."

Conduzir o meu Alfa Romeo lembra-me que as dificuldades, só por si, nunca me impediram de tentar alcançar algo que eu achasse que tinha verdadeiro valor. Ao conduzir, lembro-me de que também eu posso mudar de velocidade, enfrentar o risco, lidar com inconveniências - e sobreviver à tragédia. Volto a experimentar a alegria com todos os sentidos: tato, olfato, paladar, audição e não exclusivamente com a visão, como prescrito pelo nosso mundo cada vez mais virtual.

Sou obrigada a desligar: não posso responder a chamadas, almoçar e guiar até ao escritório tudo ao mesmo tempo. Sem sistema antibloqueio de travões presto uma atenção mais consciente à estrada que tenho pela frente. O carro pode parecer potente, mas qualquer mãe num Land Rover fechado, com seis cilindros e ar condicionado, consegue ultrapassar-me com facilidade.

Não é a velocidade que importa, mas a viagem, digo a mim mesma. Continuo a escrever, mesmo que o meu trabalho oficial signifique que demoro meia década para terminar um livro. E o meu parceiro e eu continuamos em frente, fazendo o nosso trabalho individualmente e em conjunto para lidar com as perdas que tivemos, para construir algo juntos que seja suficientemente forte para suportar tanto a nostalgia como a raiva.

Quando consulto várias pessoas sobre a hipótese de vender o carro, isso torna-se um teste decisivo. Os meus sogros dizem-me para simplificar: "Tu já tens tanta coisa para gerir!" Os meus filhos ficam tristes, mas aceitam: eles andam por todo o país agora, com a universidade, estágios e empregos, e embora eles adorem o carro têm algum receio de se sentar no lugar do condutor. De serem assaltados por demasiadas recordações e, talvez, de serem objeto de comparações.

O meu parceiro, com os olhos húmidos, diz: "Tu adoras esse carro. E o teu marido era um homem extraordinário."

Diz também: "Eu sinto-me com tanta sorte por estarmos juntos e tão triste por vocês os dois já não poderem estar."

E acrescenta: "Continua a repará-lo. Um destes dias, eu conduzo-o contigo."

Talvez o truque seja saber quando deixar ir, e quando segurar.

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