Nos 100 anos da insulina, chega a injeção semanal para controlar a diabetes

Presidente da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo anuncia chegada de novo tratamento, que admite uma só toma semanal de insulina. Aguarda apenas autorização do Infarmed.

Há cem anos, isolava-se pela primeira vez uma hormona que transformou uma doença letal numa, hoje em dia, condição clínica que permite uma esperança e modo de vida perfeitamente normais. A insulina foi nesse ano de 1921 administrada pela primeira vez em animais e, em janeiro de 1922, no primeiro humano. Das dolorosas múltiplas injeções por dia à toma diária atual, a evolução atinge agora um novo pico com um tratamento de administração semanal, que o Infarmed está prestes a disponibilizar em Portugal.

"Já fazemos tratamentos com esquema basal-bólus [administração ajustada fora das refeições e a seguir a estas]. Mas até aqui tinha de ser administrado uma vez por dia. Agora, este tratamento admite administração uma vez por semana. Já está em consideração no Infarmed para efeitos de comparticipação e em breve estará disponível", avança o presidente da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo (SPEDM), Davide Carvalho, sobre mais um novo passo na melhoria das condições de vida dos doentes com diabetes.

O diretor do serviço de endocrinologia, diabetes e metabolismo do Centro Hospitalar Universitário de São João, no Porto, sublinha a importância da insulinoterapia, que em cem anos fez que "diabéticos tipo 1 que morriam sem tratamento" passassem a ter "uma esperança de vida praticamente normal".

Mas a atualidade está muito marcada por uma pandemia. "Com a covid-19, corre-se o risco de diminuírem as defesas do organismo, por os glóbulos brancos estarem ocupados, digamos assim", enquadra o médico sobre os principais efeitos da pandemia nos diabéticos, que podem aumentar o risco de complicações crónicas, como a retinopatia, principal causa que pode levar à cegueira, a nefropatia diabética, principal causa de insuficiência renal, ou a neuropatia, principal causa de amputações não traumáticas.

Davide Carvalho faz uma chamada de atenção: "Num estudo que fizemos no Hospital de São João, verificámos que houve uma diminuição de urgências, embora apareçam pacientes mais descompensados e tenha havido a necessidade de internar mais doentes do que era costume, o que chama a atenção para a necessidade absoluta de controlar a glicemia." "Mas gostava de sublinhar uma nota: pelos nossos números do último ano, no Hospital de São João, realizámos mais consultas em 2020 do que em 2019", acrescentou.

Em fim de mandato na SPEDM, na qual será sucedido pelo diretor de saúde militar do Estado-Maior-General das Forças Armadas, o brigadeiro-general João Jácome de Castro, líder da única lista que concorreu às eleições por via eletrónica, o atual presidente destaca a comemoração dos 100 anos da insulinoterapia "com uma exposição itinerante iniciada ontem no Hospital Garcia de Orta e que percorrerá todos os distritos do continente e as regiões autónomas dos Açores e da Madeira, terminando em janeiro de 2022".

Entre hoje e domingo, realiza-se virtualmente, através de plataforma digital, o Congresso Português de Endocrinologia, que inclui a 72.ª Reunião Anual da SPEDM.

Cem anos de insulinoterapia

"A insulina foi isolada há cem anos e, pela primeira vez, administrada a animais em agosto de 1921. Em agosto de 1921, a insulina foi administrada de forma experimental a cães tornados diabéticos por pancreatectomia com normalização dos valores de glicemia no sangue. Banting e Best, autores desta notável experiência, receberam o Prémio Nobel da Medicina por esta descoberta em 1923. Em todo o mundo, 2021 será o ano destas comemorações", resume o clínico e também professor da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto.

"Em humanos, a insulina foi administrada pela primeira vez em janeiro de 1922", avança Davide Carvalho, referindo-se àquele que foi considerado o primeiro paciente tratado com sucesso com insulina. Leonard Thompson, um jovem de 14 anos com diabetes, recebeu um extrato pancreático produzido por Banting e Best que incorporou algumas das melhorias sugeridas pelo bioquímico canadiano James Collip, a 11 de janeiro de 1922 no Hospital Geral de Toronto (Canadá).

No final desse mês, Collip descobriu um método para produzir um extrato cuja pureza excedia em muito a das tentativas anteriores, permitindo a administração por via subcutânea do extrato nas nádegas de Leonard, que posteriormente injetava diariamente uma média de 85 unidades de insulina.

A hormona de insulina era extraída de pâncreas bovinos e porcinos e assim continuou até à década de 70 do século passado, quando a engenharia genética conseguiu começar a sintetizá-la em laboratório.

Ao longo de cem anos foram múltiplas as formas de administração de insulina, criando um estigma nos diabéticos devido à dor e ao desconforto provocados pelas seringas e respetivas agulhas.

Neste momento, a forma mais popular de administração de insulina são as canetas, algumas já pré-cheias, existindo outros dispositivos que podem controlar não só as doses exigidas pelo metabolismo como os níveis de açúcar.

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