No paraíso turístico do Alqueva ainda é possível escutar o som do silêncio

Espanhóis que alugam barcos casa, franceses que querem investir e viver junto à albufeira, portugueses que regressam do Algarve e ficam um fim de semana no Alqueva

O Verão azul é no Alqueva. Água plácida a perder de vista, azinheiras e sobreiros a compor o quadro alentejano, e sossego...muito sossego. Um dos pontos de chegada para os turistas nacionais e estrangeiros que procuram o maior lago artificial da Europa para descansar é a Amieira Marina, em Portel. Ali se podem alugar barcos casa com várias tipologias ou fazer um cruzeiro pela albufeira no barco coletivo "Guadiana" ou no "Alcarreche" e "Degebe".

Foi num dos barcos casa que o DN encontrou uma família espanhola, residente em Madrid, e que passou quatro dias de relaxamento na albufeira, de 24 a 27 de julho. "Escrevo para o blogue espanhol Diario del Viajero. Já conhecia esta região há um ano. O Turismo do Alentejo organizou uma viagem para jornalistas e na altura fomos conhecer Évora, Elvas, Sines, Monsaraz, Reguengos. Uma dos sítios que visitei foi a Amieira Marina, no Alqueva, mas por apenas meia hora. Como gostei muito, pensei que isto dos barcos casa podia ser muito bom para trazer a família. E assim fizemos", contou ao DN o jornalista Paco de Cerro, 52 anos, à entrada do barco, de soalho de madeira envernizada, com as cabinas para dormir e uma vista maravilhosa para o lago.

Paco viajou de férias com a mulher Mónica, e os sobrinhos Gorca, de 30 anos e as pequenas Marina, 10 anos, e Irene, 8 anos. "Gostei logo de uma coisa: para navegar estes barcos não é preciso a carta de marinheiro. Basta uma hora de formação: meia hora de teoria e outra meia hora em que dás uma voltita com um dos profissionais da empresa que te vai acompanhar. Mas é fácil, até as meninas pediram para experimentar", graceja. "Sai um bocado caro, 250 euros/dia, mas aqui cabem seis pessoas. Há umas casas barco que são para 4 pessoas, outras para 8 e também para 10. E é divertido: tens cozinha, forno, pratos, só precisas de trazer a comida, água e cerveja ou vinho", conta Paco. Na mesa da cozinha do barco, a família madrilena preparava-se para o último almoço das férias: massas, panrico e salada na mesada colorida sala de estar do barco. "O mais divertido é que cada dia dormes num sítio diferente: ontem estivemos em Monsaraz, o outro dia em Mourão, o no outro na Estrela, o primeiro na Luz. Experimentámos as praias fluviais de Monsaraz e Mourão e arranjámos uma canoa que foi o descobrimento do verão".

Entre gargalhadas, as pequenas Marina e Irene gritaram "canoa" quando lhes perguntámos o que tinham gostado mais nas férias. "Em Espanha não é permitida a navegação sem carta de marinheiro neste tipo de barcos. Além de Portugal, só em França e na Alemanha é autorizado", diz Paco. Munidos de um mapa da albufeira, a família deixou-se perder de encantos. "Faz muito bom tempo nesta zona. E curiosamente há muito pouca gente a alugar barcos. Estivemos duas noites sós, apenas numa houve um barco alugado além do nosso. Mas foi bom assim, tranquilo".

Era hora de almoço e Carla Guerreiro, 40 anos, assistente comercial a viver em Lisboa, chegava ao barco com uma filha pequena pela mão e a outra mão a segurar os sacos com gelo e mantimentos. A filha entrou primeiro e gritou logo, entusiasmada: "Mãe há aqui um esconderijo". Era a zona de baixo, onde ficam os dois quartos. "Vamos ficar apenas uma noite. Eu, o meu marido e as duas crianças. O meu marido é que vai ter a formação para conduzir o barco. Quisemos proporcionar uma experiência diferente aos miúdos, de dormirem num barco casa", contou Carla.

Habituados ao Alentejo pois têm uma casa de campo em Montemor-o-Novo, Carla e o marido quiseram, desta vez, explorar o Alqueva, zona que ainda não conhecem bem. "Temos o mapa e vamos escolher um sítio para dormir à noite. Não nos vamos perder, tenho a certeza. Afinal, isto é um laguinho calmo".

Mudar de vida pelo turismo

Do lado do concelho de Moura, em frente ao paredão da barragem do Alqueva, a agitação era um pouco maior com jovens a saltarem das plataformas de madeira para a água morna, um barco de cruzeiro a chegar cheio de gente e um casal a experimentar o banana boat. Humberto Nixon, 55 anos, dono da empresa Alqueva Tours, descreveu como pôs o seu sonho em prática: "Eu e a minha mulher começámos aqui em agosto de 2008 com um barco de seis lugares e uma tenda de jardim. Deste lado, nem havia árvores nem nada". Hoje têm dois barcos grandes para cruzeiros, o primeiro foi o Salomão. Ambos têm a inscrição "Alqueva Acessível".

"As embarcações estão preparadas para receber cadeiras de rodas e usamos aquele pontão e o cais nivelado com os barcos. Sempre tivemos essa preocupação. Ainda hoje tivemos uma pequena com cadeira de rodas e amanhã vamos ter outra", explicou. 95% da clientela é portuguesa e dos 5% de estrangeiros que os procuram, metade são espanhóis. "Começámos a ter pessoas que vêm aqui no regresso do Algarve para fazer o passeio de barco. Temos cliente s de Lisboa, Évora e cidades do norte do país", explica.

Humberto Nixon foi funcionário da Edia, a empresa que gere as infraestruturas do Alqueva, antes de se lançar na aventura aquática do turismo. "Um dia resolvi mudar de vida. A água sempre foi uma paixão. Nasci em Angola e a minha casa era mesmo na margem do rio Catumba. Passava de um lado para o outro do rio com os africanos, apesar dos crocodilos", conta, entre risos.

O balanço da opção de vida que fez há quase dez anos é positivo. Mas ainda faltam infraestruturas, na sua opinião. "Não temos eletricidade aqui. Está ali um poste a fingir, com os cabos pendurados. Foi colocado ali quando a EDP alugou a barragem e houve uma festa de inauguração com os VIP"s. Quando acabou o festival foram todos embora, desligaram o gerador e pronto". Ao seu lado, Margarida Gama, de 39 anos, da empresa Alentejo Break - que promove atividades náuticas em parceria com a Alqueva Tours - também lamentava essa falta de condições para ter ali um bar ou algo do género com bebidas frescas.

"Estamos aqui há um ano, este verão já temos um espaço só para nós. Fazemos canoagem noturna inserida no dark ski, temos aulas e passeios de stand up paddle, atividades de ski, wakeboard (é com a prancha e a pessoa vai agarrada ao barco por uma corda), a banana boat". Quem nunca fez pode praticar logo no dia em que chega, com uma lição. Os preços das aulas vão dos 15 aos 25 euros, dependendo das modalidades. "Temos holandeses, suíços e franceses com 50 e 60 anos, e portugueses com 30 e 40 anos, e com miúdos pequenos. Chegam-nos através dos hotéis e turismo rural da região", conta.

"Também abrimos um alojamento local há dois anos, o Break Holidays House, em Moura". Margarida cresceu no deserto antes de este se encher de água. "Quando encheu a barragem do Alqueva estava a trabalhar em Mourão e notou-se logo uma diferença a nível do clima. Possibilitou atividades que só fazíamos nos rios". Possibilitou também a abertura de duas praias fluviais, a de Monsaraz e a de Mourão. O DN esteve nesta, que foi a última a abrir, a 17 de julho. Ali há relva, sombreros e escorregas dentro de água para os miúdos. Havia também a carrinha de cachorros quentes de Norberto Paulino, 39 anos, que veio de Reguengos, e turistas americanas e do País de Gales com famílias portuguesas, como Graciela e Odete, jovens de vinte e poucos anos. E há a alegria da água para quem tem as praias de mar a mais de 100 quilómetros.

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