Negacionistas. Há centenas de polícias que se recusam a ser vacinados

Tal como nas Forças Armadas, nas polícias há quem se recuse a ser vacinado, mas também não têm qualquer restrição operacional a não ser em missões internacionais. A PSP não sabe quantos agentes tem não vacinados

São 1017 na GNR, 76 na Polícia Judiciária (PJ) e a PSP não sabe sequer o número dos que não quiseram ser vacinados contra a covid-19, de acordo com as informações facultadas ao DN por fontes oficiais destas instituições. São centenas os polícias que rejeitam a vacina, tal com os militares das Forças Armadas, conforme tinha noticiado o DN.

Na GNR estes não vacinados representam cerca de 5,5%, na PJ pouco mais de 3%, percentagens ligeiramente superiores aos 2,3% estimados de recusa de vacinação na sociedade civil, mas ainda assim abaixo da taxa dos militares - 10% na Marinha, 6% no Exército (a Força Aérea não facultou dados).

"Estes dados são preocupantes, como já foram os das Forças Armadas, desde logo porque são pessoas que têm funções de responsabilidade na sociedade. Sou por princípio contra a vacinação obrigatória, mas em certas funções como estas, os militares ou os profissionais de saúde, a vacinação deve ser forte e reiteradamente recomendada", sublinha o pneumologista Filipe Froes, coordenador do gabinete de crise para a covid-19 da Ordem dos Médicos.

Este especialista sublinha que "uma taxa de não vacinados como estas pode ter impacto no estado de prontidão e no absentismo. Estas pessoas que trabalham em condições de maior risco e exposição a doenças não estão devidamente protegidas e deviam estar. O facto de trabalharem em contacto intenso com outras pessoas pode facilitar também, perante formas assintomáticas da doença, a transmissão a terceiros".

Além disso, "estes profissionais devem ser um exemplo para a sociedade, para as famílias e para a própria instituição".

Proibidos de entrar em missões internacionais

Na GNR, com um efetivo de 23.102 militares, 94,46% têm a vacinação completa. Segundo o comando-geral, dos 1281 não vacinados (5,54%), 264 invocaram razões médicas e 1017 "manifestaram não intenção de vacinação, sem apresentar justificação, não obstante as várias campanhas internas de informação e apelo a vacinação".

Ainda assim, salienta a GNR, "poderão sempre existir alguns destes militares que foram entretanto vacinados pelo SNS e que não tenham procedido ao devido carregamento da informação no portal interno, pelo que o número poderá ser inferior ao indicado".

A Guarda diz que "os militares não vacinados têm indicação para cumprir as normas base de proteção individual, principalmente o uso constante de máscara cirúrgica na interação com terceiros, bem como o auto isolamento imediato, contactando autoridade de saúde, sempre que surgirem sintomas sugestivos de infeção covid-19. Estão adicionalmente interditos à participação em missões internacionais, uma vez que não cumprem todos os pré-requisitos da preparação médico-sanitária preconizada para projeção no exterior".

Desde o início da pandemia a GNR teve 3200 militares infetados (13,8% do efetivo). Neste momento há 23.

Esta fonte oficial garante que "devido ao reduzido número de militares não vacinados e às medidas gerais de proteção, o impacto operacional é considerado como muito reduzido".

César Nogueira, presidente da Associação de Profissionais da Guarda, a mais representativa desta força de segurança, assinala que "como a vacinação não é obrigatória cabe a cada um a decisão de a tomar ou não".

No entanto, assevera, "é uma situação que a alguns preocupa, a outros não e outros não querem saber mesmo". Este dirigente associativo reconhece que a situação "pode trazer constrangimentos a nível funcional, apesar da maioria dos caso dos não vacinados não estarem no serviço operacional, mas os que estão certamente terão que seguir as determinações impostas aos demais cidadãos, com as devidas precauções."

No seu entender, "o Comando deve impor e exigir testes com frequência".

PJ exigiu vacina a novos inspetores

Na PJ a contabilização feita aos vacinados e não vacinados junta inspetores e pessoal de apoio. Segundo a direção nacional "3,15% do efetivo de recursos humanos - inclui trabalhadores da investigação criminal e apoio `investigação criminal -, num total de 76 pessoas, não está vacinado".

Apresentaram duas razões: "rejeição pessoal do processo de vacinação e impossibilidade por razões médicas (gravidez, alergias, etc)", sendo que estas últimas serão, de acordo com esta fonte oficial, "a maior parte". Ao contrário do que, aparentemente, sucede na GNR.

Desde o início da pandemia e até à presente data, existiram 297 casos de infetados na PJ (12% dos 2400 funcionários).

A direção da PJ salienta como exemplo que em relação aos "100 novos inspetores, do 43º Curso de Formação de Inspetores iniciado em 5 de julho, foi possível garantir a vacinação prévia de todos os formandos, bem como o acompanhamento semanal, por testagem de despiste, evitando-se o risco de interrupção letiva.

O presidente da Associação Sindical da Carreira de Investigação Criminal (ASFIC), que representa os inspetores, confirma que o número de não vacinados é muito baixo na PJ. "Haverá 2 ou 3 não vacinados na investigação criminal. Pessoalmente não conheço nem trabalho com nenhum. São casos tão isolados que são um não caso", afiança.

Questionada sobre se estão em vigor medidas restritivas operacionais em relação a não vacinados, a PJ diz que "a legislação não permite a discriminação entre trabalhadores vacinados e não vacinados na exata medida em que atualmente a inoculação é uma decisão pessoal, optando a PJ por aplicar" algumas medidas de "organização interna, que permitam o distanciamento social" e quando não for possível "o uso de equipamentos de proteção individual".

Quanto à "resposta investigatória e pericial cometida à PJ, nada ficou por ser feito, por causa da pandemia, de resto refletido em várias operações de maior dimensão tornadas públicas ao longo destes quase dois anos".

PSP desconhece taxa de não-vacinados

Na PSP não há informação sistematizada sobre esta matéria, conforme reconhece o porta-voz oficial: "No início do processo de vacinação da população portuguesa, 50% dos Polícias a nível nacional foram vacinados (cerca de 11 mil) por se integrarem no grupo prioritário. Para gestão desse processo, a PSP desencadeou um processo interno de registo, tendo sido verificada uma adesão maciça com uma taxa mínima de reservas (inferior a 1%). Atingida essa fasquia de vacinação, os polícias foram canalizados para o processo geral de vacinação. Nessa fase, não sendo a vacinação obrigatória, a PSP deixou de proceder à sistematização de informação neste âmbito, pelo que não nos é possível disponibilizar informação quantitativa".

Esta força de segurança garante que "desde o início do processo, tem incentivado todo o pessoal a vacinar-se como importante medida de prevenção e contenção da pandemia, ademais atendendo ao grau de risco inerente ao exercício da missão policial: contacto diário com múltiplos cidadãos; frequência de variados espaços onde decorram ocorrências a solucionar; competências de controlo de pessoas infetadas ou sob confinamento médico preventivo".

A PSP afirma que "já teve cerca de 9 centenas de pessoas em confinamento obrigatório, 1400 em isolamento profilático e quase 1600 recuperados" e assegura que tem "sido possível manter todas as esquadras e serviços em funcionamento permanente, assegurando continuamente a prestação de segurança aos cidadãos".

O porta-voz da direção nacional assinala que "todo o efetivo, polícias e pessoal sem funções policiais, executa normalmente todas as suas atribuições em cumprimento das medidas de prevenção em vigor (nomeadamente uso de máscara e frequente higiene das mãos, entre outras)".

Refere que "tem sido verificado que, mesmo após o processo de desconfinamento, a grande maioria dos polícias, mesmo em locais e circunstâncias nos quais não é obrigatório o uso de máscara, prefere usar este meio de prevenção, numa clara interiorização do nível de risco e da importância da prevenção individual.

O presidente da Associação Sindical de Profissionais de Polícia (ASSP) tem, no entanto, algumas críticas. "A ASPP considerada importante a vacinação, pois é evidente que tem evitado situações mais graves, no entanto, é uma decisão que assenta na liberdade de cada um, para já".

Paulo Jorge Santos acrescenta que "obviamente estamos preocupados com esta pandemia que nos assola enquanto comunidade, e apelamos ao sentido de responsabilidade, mas não deixamos de referir que outras variáveis neste combate foram descuradas pelo governo e pela direção nacional da PSP. Principalmente outros mecanismos de combate à pandemia e combate à infeção, em concreto a vacinação, modelos de organização de trabalho, meios e instrumentos físicos de combate e procedimentos pós deteção de infetados. Temos registo passado de situações que após polícias sinalizados a PSP não aplicou as normas da DGS".

Este dirigente sindical confirma que não foram notadas limitações operacionais a não vacinados. "Os polícias como qualquer cidadão, receiam partilhar espaços com indivíduos que sabem não estar vacinados, não somos diferentes dos demais cidadãos. Aliás, a PSP colocou vários polícias no terreno em operações de fiscalização sem estarem vacinados. Algo que na altura criticámos".

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