Não tem memórias, só das palavras. Mas Susie Mckinnon diz que é feliz

Esta é a primeira situação conhecida de SDAM, ou deficiência grave da memória autobiográfica

Quando era criança, Susie Mckinnon divertia-se a ler a enciclopédia. Era uma menina excêntrica, diziam os pais, e só por isso, por ouvir dizer, é que ela o sabe. Hoje com 60 anos, esta canadiana sorridente, casada e aparentemente feliz, continua a não ter o mínimo traço de memória desse tempo - ou de qualquer outro. O que sabe sobre si própria não inclui uma única recordação de episódios da sua vida, nenhuma imagem sequer. Sabe apenas o que lhe contaram. Talvez por isso, diz ela a rir, desconheça o rancor, ou o ressentimento, porque qualquer discussão, ela esquece-a logo a seguir.

Susie Mckinnon tem um problema raro de memória chamado deficiência grave da memória autobiográfica (SDAM, na sigla de língua inglesa). Ela foi, aliás, a primeira pessoa a ser diagnosticada com SDAM, e não há muito.

Apesar de parecer estranho, só muito tarde, já com 21 anos, Susie se apercebeu de que havia algo que não estava bem consigo - e isso sucedeu por mero acaso, em 1977, quando uma amiga que estava a fazer o trabalho final de um curso de assistente de medicina lhe pediu que fizesse um teste de memória.

Susie McKinnon acedeu, mas quando a amiga lhe começou a fazer perguntas sobre as memórias de infância, ficou admirada. "Porque estás a perguntar isso? Ninguém se lembra dessas coisas". Foram estas as suas palavras, tal como contou recentemente à Wired.

Susie estava então plenamente convencida de que as pessoas inventam histórias que contavam umas às outras sobre o seu passado. Era isso, pelo menos, que ela fazia, a partir do que lhe contavam sobre si própria, e portanto achava natural que os outros fizessem a mesma coisa, como parte das relações sociais normais.

Foi aí que se apercebeu, para sua grande surpresa, de que mais ninguém estava a inventar histórias - além dela própria.

Apesar de não se recordar de nada do seu passado, aparte o que lhe contam, e que tem de ser sempre repetido, Susie Mckinnon tem a chamada memória semântica operacional, e é isso que lhe permite viver o dia-a- -dia mantendo a identidade intacta. Uma identidade que vive perpetuamente no presente, sem aflições nem rancores, como ela diz, mas também sem preocupações sobre o futuro. Não é exatamente como no filme "A minha namorada tem amnésia" ("50 First Dates", no original), do realizador Peter Segal, porque Susie, casada já há várias décadas com Eric Green, não perde a memória do marido - talvez porque ele está lá todos os dias.

Função complexa e multifacetada, a memória é essencial à manutenção da identidade e da consciência de si próprio e, embora os neurocientistas ainda desconheçam muita coisa sobre o seu funcionamento, nas últimas décadas houve grandes avanços nesta área. Um deles, foi precisamente o de se ter percebido que a memória de longo prazo se constrói sob múltiplas formas, que incluem a memória de episódios - os "filmes" que retemos de encontros, momentos, relações ou situações do nosso passado - e a memória semântica, que serve as palavras, as ideias e o discurso sobre os factos.

O psicólogo e neurocientista Endel Tulving foi quem propôs este conceito, teorizando que deveria haver pessoas que tivessem uma destas memórias (a semântica) intacta, e a outra não.

Quando Tulving propôs esta hipótese, ainda não havia ninguém diagnosticado o problema, mas Susie Mckinnon, que se pôs a procurar uma explicação para a sua situação, acabou por encontrar, há dez anos, numa pesquisa na Internet, a hipótese de Tulving, e achou que lhe servia como uma luva.

Decidiu então contactar um colaborador do neurocientista, Brian Levine, que teve curiosidade pelo caso e decidiu estudá-lo. Foi assim que apareceu o primeiro caso conhecido de SDAM, como tinha previsto anos antes Endel Tunvel, e que Brian Levine relatou no ano passado na revista Neuropsychologia, juntamente com outros dois que, entretanto, surgiram.

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