Não estava previsto, nasceu efémero, mas ficou de pedra e cal como ícone da cidade

Reza a história contada por Leitão de Barros que foi "num bocado de mataborrão e com fósforos ardidos, que faziam montes nos cinzeiros" que Cottinelli Telmo começou a esboçar o perfil do Padrão.

Erguido à beira Tejo, com uns imponentes 56 metros de altura que se destacam no horizonte, o Padrão dos Descobrimentos saltou de uma existência efémera para imagem icónica da cidade. O edifício não estava previsto no desenho inicial da Exposição do Mundo Português, nem estaria nos planos do arquiteto Cottinelli Telmo ou de Duarte Pacheco, o todo poderoso ministro das Obras Públicas. A história do Padrão seria contada pelo cineasta Leitão de Barros - cunhado de Cottinelli - já em 1960.

Conta Leitão de Barros que uma noite de 1939, acompanhando Duarte Pacheco à saída do ateliê do arquiteto, depois de terem estado a ver o plano da exposição, se queixou de que havia muitos palácios e pavilhões, mas faltava movimento, faltava "sentido de partida". Havia muito D. Duarte e pouco D. Henrique na exposição. "Volte a casa do seu cunhado. Convença-o disso", terá retorquido Duarte Pacheco. Na altura já era bem conhecida a vontade de Salazar de levantar um monumento ao Infante, embora a localização prevista fosse em Sagres.

Leitão de Barros assim fez. Mas Cottinelli Telmo não terá recebido bem a novidade. "Era uma e meia da manhã e eu entrava de novo na casa da Rua Saraiva de Carvalho. Essa noite foi uma tempestade. O Telmo começou aos berros: "literatices... palavras... sentido de partida... lérias.... Agora envenenaste-o, e eu que o ature!" Ecoaram palavrões no silêncio da rua, em frente aos austeros ciprestes do cemitério dos Ingleses.

Reza a história contada por Leitão de Barros que foi "num bocado de mataborrão e com fósforos ardidos, que faziam montes nos cinzeiros" que Cottinelli Telmo começou a esboçar o perfil do Padrão. E que ainda nessa noite foi arrancar à cama o escultor Leopoldo de Almeida, que viria a definir as figuras escultóricas

O Padrão nasceu como uma construção efémera, em materiais perecíveis, e ficou em mau estado quando, em fevereiro de 1941, Lisboa foi atingida por um ciclone. O edifício inicial seria demolido em 1958, reconstruído em betão e cantaria de pedra rosal de Leiria e inaugurado em 1960 por ocasião das comemorações dos 500 anos sobre a morte de D. Henrique. Em 1985 todo o interior foi remodelado, com a criação de salas de exposições, um auditório e o miradouro. O Padrão foi então inaugurado como Centro Cultural das Descobertas.

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