Na maior algoteca do mundo à pesca de um remédio para as infeções hospitalares

Algoteca de Coimbra participa em estudo internacional inovador que procura extrair de algas novas drogas que impeçam infeções em próteses médicas. Uso das espécies e estirpes guardadas na maior algoteca mundial de água doce pode chegar a outros campos, da saúde à alimentação

"Um dia as microalgas vão mandar as infeções pelo cano abaixo." O slogan do projeto, em jeito de rima, funciona melhor em língua inglesa - microalgae one day will wash infection away. Mas a ambição de utilizar substâncias extraídas de microalgas para travar infeções associadas à colocação de implantes médicos é bem portuguesa e cresce em Coimbra, na maior algoteca mundial de água doce.

A algoteca do departamento de Ciências da Vida da Universidade de Coimbra é um dos 15 parceiros do projeto internacional NoMorFilm - Novel Marine Derived Biomolecules and Industrial Biomaterial, que aposta numa abordagem pioneira para derrotar as infeções em próteses médicas (que podem obrigar a novas hospitalizações ou mesmo à rejeição dos implantes). "Este projeto tem uma parte muito inovadora, que é procurar combater as infeções que se dão nos implantes, utilizando drogas extraídas de microalgas que possam atuar contra os organismos que causam essas infeções. É a primeira vez que se utilizam microalgas como fonte de possíveis novas moléculas, que possam ter atividade contra esses organismos, que geralmente são fungos ou bactérias resistentes e formam uma espécie de biofilme, uma membrana, à volta da zona do implante", descreve, ao DN, Lília Santos, professora, investigadora e coordenadora da Algoteca de Coimbra (ACOI).

O projeto, orçamentado em oito milhões de euros e que também conta com a participação do Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental da Universidade do Porto, está a meio do prazo de execução - começou em abril de 2015 e vai até abril de 2019. E o balanço parcial é "muito positivo". "A ideia inicial era estudar o máximo de algas possível, porque não tínhamos a certeza se iríamos encontrar ou não moléculas novas... Felizmente, temos atividade num grande número. Temos oito das nossas algas selecionadas como muito boas para a produção de compostos", descreve Lília Santos.

Como chegar à nova molécula

O processo para encontrar atividade antibacteriana ou antifúngica numa alga é moroso e complexo. "Nós [os parceiros que têm as coleções] cultivamos as algas, pomo--las a crescer, concentramos a biomassa que obtivemos, fazemos extratos utilizando solventes quími- cos e enviamos as moléculas extraídas desses compostos para os parceiros da Universidade de Oviedo e do IS Global-Barcelona Institute for Global Health. Os de Oviedo dedicam-se à aplicação dos nossos extratos sobre bactérias e fungos - veem se têm atividade antimicrobiana contra esses organismos que estão a ser testados. Em Barcelona fazem uma coisa parecida, mas com bactérias resistentes, bactérias extraídas de biofilmes e também sobre os próprios biofilmes. Ou seja, veem se as moléculas que estão presentes no nosso extrato rompem, destroem ou inibem a formação ou o desenvolvimento desses biofilmes", enuncia a coordenadora da ACOI.

"Neste momento, nós já queríamos ter uma molécula identificada", reconhece Lília Santos. Contudo, os sinais são positivos: "Há o potencial de uma das nossas algas ter uma molécula nova, desconhecida para a ciência. Estamos a tentar cultivá-la em maior escala, para poder ser utilizada nas fases seguintes, de incorporação em materiais que depois possam ser postos nos implantes." "A ideia é que a nova ou as novas moléculas sejam incorporadas naquilo que chamamos de transportadores, nanopartículas que são introduzidas no próprio implante, para quando ele for colocado no paciente já ter um mecanismo que não deixa que o biofilme ou as bactérias causem a infeção. Essa é a ambição final do projeto", conclui a investigadora.

Futuro e outros usos para as algas

Depois, até que a molécula venha a entrar, eventualmente, no sistema de saúde, ainda será necessário esperar um período de tempo difícil de calcular. "Não somos da parte médica, já não depende de nós. Colocar uma droga nova no mercado leva sempre um longo tempo. A ideia é que do projeto saia uma nova molécula que não seja tóxica para seres humanos, que combata o biofilme e os organismos que o estejam a causar e que possa ser incorporada na prótese ou no implante. Isso já daria um avanço muito significativo para qualquer empresa que quisesse depois avançar com a comercialização", refere a professora da Universidade de Coimbra.

Ao fim de mais de três décadas e meia a dedicar-se às algas (ver perfil), Lília Santos não esconde o entusiasmo por encontrar novas aplicações para o seu objeto de estudo. "Há imensos campos em que podemos utilizar as algas: muitos em que já são usadas e outros em que estamos a dar os primeiros passos. Foi isso que me levou a mudar um bocadinho o rumo dos nossos trabalhos, que anteriormente se dedicavam fundamentalmente à colheita e identificação de algas. Se temos esta coleção tão rica, vamos dar-lhe uso em campos que possam ser úteis para a sociedade, que possam ser uma mais-valia", fixa a responsável.

O potencial dos milhares de pequenos tubos de ensaio que a Algoteca de Coimbra conserva - de tom esverdeado, dourado ou até avermelhado, consoante a alga que guarda - vai da vertente farmacêutica ("estamos a testar atividade antimicrobiana; porque não procurar novas drogas para o cancro, que é um dos flagelos da nossa sociedade?") ao uso alimentar (onde "há muitos aspetos interessantes a explorar"): "As pessoas falam muito do poder antioxidante dos frutos vermelhos. Nós fizemos uma pesquisa alargada nos grupos das nossas microalgas e percebemos que algumas delas possuem uma atividade antioxidante semelhante à da framboesa ou do morango", esclarece Lília Santos, admitindo a possibilidade de serem "eventualmente inseridas na alimentação".

Um jardim botânico de algas

Tudo isso é fruto da riqueza de um autêntico jardim botânico de algas. "Costumo dizer às pessoas que é semelhante à diversidade de plantas que existe aqui ao lado [das instalações da algoteca] no Jardim Botânico da Universidade de Coimbra. A coleção tem à volta de 6000 tubinhos de ensaio: são 1200 a 1300 espécies de algas (de água doce, essencialmente), com 4000 a 4500 estirpes diferentes", descreve Lília Santos. "Tanto quanto sabemos, era a maior coleção de água doce do mundo, embora possamos ter sido ultrapassados entretanto por outra alemã", acrescenta.

A manutenção do rótulo de maior algoteca mundial de água doce "não é prioritária". Lília Santos prefere focar-se antes na conservação da atual coleção, que exige um trabalho contínuo. "De três em três meses (ou até menos, no caso de algumas mais sensíveis)", é necessário fazer a repicagem - a transplantação - de cada microalga para um novo meio, com os nutrientes (como nitratos e fosfatos) de que ela se alimenta: um trabalho de precisão e método a que uma funcionária da algoteca se dedica em permanência. E que poderá ser bastante simplificada caso entretanto a algoteca obtenha meios financeiros para que as amostras sejam criopreservadas.

No fundo, tudo isso são pormenores de uma evolução inimaginável em 1972, quando a ACOI foi fundada - e servia essencialmente para estudos de microscopia eletrónica. "Os fundadores da algoteca nunca esperariam este rumo", conclui Lília Santos. Mas é, em parte, graças a esse rumo que talvez um dia possamos final mandar as infeções pelo cano abaixo.

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