Mulheres disputam liderança da indústria da canábis

Em alguns segmentos da indústria, mais de 40% dos executivos são mulheres. O mercado feminino também está a subir

Frances Schauwecker pega numa elegante carteira em tons castanhos e mostra a duas potenciais clientes os diversos compartimentos para arrumar o isqueiro, a marijuana e outros acessórios de consumo de canábis. "Se você vai a uma festa e quer levar a sua erva consigo mas sem andar com o cheiro atrás, é perfeita", diz Frances. "Uso a minha todos os dias. Tem uma pasta profissional a condizer. Queremos ser mulheres glamorosas em qualquer lado."

Frances é CEO da Mary Jane University, uma empresa que organiza eventos educativos e recreativos com marijuana em casa da clientela. O alvo é o público feminino, como se nota pelos produtos que a empresa demonstra e vende: o creme de dia anti-idade Sexy Secret, da Fuller Life Remedies, os cremes de corpo da Yummy Karma, que podiam estar à venda numa perfumaria, as máscaras de argila com canábis para limpar os poros, tinturas de bem-estar, chás. Tudo isto é muito recente no mercado de canábis, que durante os primeiros anos depois da onda de legalização para uso medicinal apontou para o segmento masculino como alvo preferencial. As coisas estão a mudar rapidamente, por dois motivos: há mais mulheres a consumirem canábis e mais mulheres a liderarem negócios nesta indústria.

"Acredito que há um forte potencial para que as mulheres liderem e haja percentagens de representação mais elevadas do que noutras indústrias", afirma ao DN Gia Morón, diretora de relações públicas da Women Grow, uma organização norte-americana que ajuda empresárias e profissionais a avançarem no mercado da canábis. É, aliás, mais do que um potencial. As mulheres assumem 42% das posições de liderança nos negócios associados à canábis mas que não tocam na planta e 35% nos dispensários que vendem a marijuana e outros produtos com canábis, segundo os dados da Marijuana Business Daily. No global da indústria, a percentagem desce para 27% - mas, ainda assim, é mais elevada do que a média de outros mercados, onde o número de mulheres no poder ronda os 20%. A Women Grow foi criada há apenas três anos e é hoje a maior organização de networking ligada à indústria, com 500 membros pagantes - entre empresárias individuais e negócios já estabelecidos. Gia Morón reconhece que ainda há obstáculos para as mulheres, tal como noutras áreas da vida profissional; por exemplo, é mais difícil levantar capital e conseguir salários equivalentes. No entanto, por ser uma indústria nova e sem grande legado, é mais fácil entrar.

Foi o que sentiu Jessica Hanson, que era dona de salões de beleza em San Diego quando decidiu entrar neste mercado. "Eu não sabia nada sobre canábis", confessa. Hanson queria substituir os remédios farmacêuticos por algo mais natural e descobriu na canábis um aliado importante. Mas quando ia aos dispensários procurar produtos, não se interessava por nada. "Não me sentia confortável a entrar naqueles sítios, não gostava do que ofereciam, sentia que os produtos eram virados para homens. Queria alguma coisa que pudesse pôr no balcão da cozinha, algo com bom aspeto." Tornou-se vice presidente de desenvolvimento de marca da Sunstone, uma empresa que distribui produtos de alta qualidade a dispensários no sul da Califórnia. Fez a sua pesquisa e foi surpreendida com a facilidade com que entrou na indústria. "As barreiras à entrada são tão baixas", sublinha, "que qualquer pessoa que tenha uma ideia pode entrar. O mercado está de portas abertas."

Só na Califórnia, onde o consumo recreativo entra em vigor no próximo ano, o mercado vai valer 3,7 mil milhões de dólares (cerca de 3,3 mil milhões de euros) em 2017, segundo os dados da New Frontier Data. Esta é uma consultora pioneira neste espaço, também fundada e liderada por uma mulher, Giadha Aguirre de Carcer.

"É difícil encontrar indústrias emergentes com verdadeiro potencial e nenhuma barreira à entrada para uma mulher latina imigrante", explicou Giadha durante um painel sobre o poder feminino na conferência de negócios da canábis CWCBE, em Los Angeles. "Há aqui algo fantástico, é um fenómeno global", afirmou, falando do impacto socioeconómico da legalização e das oportunidades que estão a ser criadas por mulheres empreendedoras.

Aquilo que as mulheres trazem para a canábis, argumenta a diretora de estratégia da Neusis Global, Kate Mulder, é um certo nível de inteligência feminina que faz falta às empresas. "As mulheres gostam de colaborar e veem as coisas num plano macro", acredita. "Representamos muitas ideias que podem mudar o jogo."

Isso já se vê nesta onda de produtos estilizados e acessórios que trazem maior credibilidade ao consumo de canábis. "Antes de tudo isto acontecer, quando era charros e bongos, era apenas um bando de rapazes a ficar pedrados", resume Daniel Yi, um brasileiro radicado em Los Angeles que lidera a comunicação da MedMen. "Era uma cultura muito masculina", diz, lembrando que vários dispensários tinham empregadas vestidas com roupas mínimas ao estilo Hooters. "Agora, à medida que as mulheres entram no espaço, percebem que é muito mais conveniente ter um comestível ou um vaporizador", explica. "É uma das coisas fascinantes que está a acontecer, um marketing verdadeiramente virado para o consumidor. As mulheres estiveram fora deste espaço durante tanto tempo e agora há muita atividade, há muitas marcas com mensagens mais suaves."

A própria MedMen, que opera dispensários e também tem um braço de investimentos, quer comunicar para os alvos menos habituais. "A audiência a que queremos chegar é aquela mãe que não usa marijuana mas não vai ficar assustada porque o vizinho usa. Queremos que as pessoas falem de marijuana no contexto de algo que deve ser regulado e transparente sem problema. Não há motivo para ter vergonha."

Promover as propriedades terapêuticas em Portugal

A consciencialização de que a canábis é uma planta com diversas propriedades terapêuticas e industriais, além da recreativa, que deve ser regulada em vez de proibida, também está a ser feita em Portugal. Foi criada neste ano uma nova organização, a Cannativa - Associação de Estudos sobre a Canábis, que tem como intuito promover a discussão multidisciplinar da área. "Estamos a reunir e a organizar informação credível para fornecer à sociedade civil, baseada na imparcialidade e na evidência científica", explica a associação ao DN.

O objetivo é simples: "Quebrar o estigma em relação à canábis e demonstrar o seu potencial terapêutico, promovendo o consumo responsável e a redução de riscos." A Cannativa tem colaborado com o Bloco de Esquerda num projeto de lei que pretende regular a prescrição e o autocultivo de canábis para fins medicinais, a apresentar ainda em 2017. Isto no rescaldo da aprovação pelo Infarmed de mais dois projetos de produção de canábis em Portugal, em que 100% é exportada, por investidores canadianos e israelitas.

"Vamos desenvolver campanhas de uso responsável, numa perspetiva de redução de riscos, tendo em vista evitar a banalização e assegurar um consumo informado e consciente para adultos, em parceria com especialistas de renome na área, desde médicos a psicólogos", refere ainda a associação, que não tem fins lucrativos nem associação partidária.

Quando for aprovado o autocultivo para fins terapêuticos, a Cannativa quer ser a entidade de referência em termos de informação e formação para profissionais de saúde e sociedade civil.

A prevalência de mulheres neste espaço é escassa, porque em Portugal "existe uma participação menor das mulheres no associativismo de base política, em parte resultado dos padrões culturais típicos dos países da Europa do Sul no que diz respeito ao género", explica a organização. "No entanto, cada vez mais encontramos mulheres que se interessam pelo tema da canábis e que contactam a Cannativa pelos mais variados motivos, procurando informação sobre cânhamo industrial ou políticas de drogas, por exemplo."

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