Mulheres adiaram a maternidade 3,7 anos desde 2000

Mulheres portuguesas são mães cada vez mais tarde. Tratamentos de fertilidade são a solução para muitos casais

Aos 50 anos, a cantora Janet Jackson deu à luz o primeiro filho. Sabe-se que o parto correu bem, mas desconhecem-se os pormenores do caso, que trouxe para discussão o tema da gravidez tardia. Em Portugal, entre 2001 e 2015, nasceram 94 bebés de mulheres com 50 ou mais anos. Um fenómeno que ainda é considerado raro mas que poderá tornar-se mais frequente, uma vez que as mulheres adiam cada vez mais a maternidade. Desde o início do século, a idade média da mãe ao nascimento do primeiro filho aumentou 3,7 anos: passou dos 26,5 anos em 2000 para os 30,2 anos em 2015.

A aposta na formação, a procura de estabilidade financeira e o investimento na carreira são algumas das razões que levam ao adiamento da maternidade. "Por força das circunstâncias pessoais e sociais, a tendência é para a idade do nascimento do primeiro filho continuar a aumentar", diz ao DN Daniel Pereira da Silva, presidente da Federação das Sociedades de Obstetrícia e Ginecologia. Para o ginecologista, há duas razões pelas quais vai aumentar o número de mulheres que têm filhos depois dos 50 anos: "A ciência dá essa possibilidade às mulheres de uma forma cada vez mais assertiva, o que não era viável há alguns anos. Por outro lado, temos de olhar para a vida da mulher contemporânea e para o seu projeto profissional, que leva à maternidade em idades mais tardias."

A partir dos 35 anos, o potencial de fertilidade de uma mulher baixa consideravelmente. "A gravidez espontânea depois dos 50 anos é mesmo marginal. É raríssima", refere Luís Graça, diretor do serviço de obstetrícia do Hospital de Santa Maria. Daí que, segundo os médicos ouvidos pelo DN, os 94 nascimentos de mães com mais de 50 anos registados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) digam respeito, maioritariamente, a gravidezes que resultaram de técnicas de procriação medicamente assistida. Estes terão sido realizados em clínicas privadas, uma vez que, no Serviço Nacional de Saúde (SNS), a idade-limite para a fertilização in vitro são os 40 anos.

A questão do limite de idade para se ser mãe divide opiniões. "Tecnicamente tudo é possível", frisa Luís Graça, que também é presidente da Sociedade Portuguesa de Obstetrícia e Medicina Materno-Fetal. A dúvida, prossegue, "é se é eticamente aceitável". Na opinião do especialista, "aos 50 anos, a mulher tem idade para ser avó e não mãe": "Quando o filho chegar aos 20 anos, a mulher terá 70." Reconhecendo que as mulheres esperam cada vez mais para ter o primeiro filho, Luís Graça diz que "não têm de esperar até aos 50 anos".

Se a mulher tiver 50 anos, a gravidez terá mais riscos associados. "Mas quem somos nós para dizer o que as pessoas devem fazer com o seu corpo?", questiona Diogo Ayres de Campos, professor na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e obstetra no Hospital de São João. Uma das questões que se põem, explica, é o preço que por vezes é pago no decorrer destas gravidezes tardias, pois, embora as mulheres sejam seguidas no setor privado, acabam nos hospitais públicos quando surgem complicações. "Há profissionais de saúde que consideram que os riscos não são justificáveis."
Numa mulher que atinge meio século, Diogo Ayres de Campos diz que existem duas possibilidades de gerar gravidez: "Uma é com ovócitos de outra pessoa, a outra é se congelou ou seus para usar mais tarde." Embora nunca tenha seguido gravidezes tão tardias, o obstetra conta que já teve de lidar com complicações na gravidez de duas mulheres com mais de 50 anos que eram acompanhadas no privado e acabaram por ficar internadas no hospital público.

Na opinião do especialista, o mais provável é que surjam cada vez mais casos de mulheres grávidas pela primeira vez aos 40 anos. "Nos anos 1990 era raríssimo surgirem casos desses nos hospitais públicos. Até era raro ter partos depois dos 35 anos." Mas o paradigma mudou. De acordo com os dados disponíveis no Pordata, na década de 1990 as mulheres tinham o primeiro filho, em média, aos 24,7 anos, o que quer dizer que houve um atraso de 5,5 anos até aos dias de hoje.

"As pessoas organizam-se economicamente mais tarde: estudam, arranjam emprego, casam-se. Quando uma mulher dá conta, está na linha dos 40 anos. A conjuntura económica não permite que seja mais cedo", destaca Marta Casal, da direção da Associação Portuguesa de Fertilidade.

Uma das batalhas da APF é precisamente o alargamento da idade dos tratamentos de procriação medicamente assistida no SNS. Tal como o DN noticiou em dezembro, o governo está a estudar o alargamento das técnicas de segunda linha - fertilização in vitro e injeção intracitoplasmática - para os 42 anos, mas a representante considera que "45 anos seria a idade razoável".

O adiamento da gravidez pode trazer riscos para a mãe e para o feto. Contudo, as complicações são detetadas cada vez mais cedo. "Os médicos vão aumentando a sua experiência em grávidas com idade avançada. Estão cada vez mais habituados a lidar com isso", sublinha Daniel Pereira da Silva.

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