Mudar tutela dos animais dificulta deteção de raiva, covid e outras doenças

Parlamento chumbou passagem dos animais de rua e de companhia da DGAV para o ICNF, que contraria também as práticas europeias, mas governo quer avançar com mudança. Veterinários alertam para riscos.

Nem o chumbo no Parlamento com o voto contra de todos os partidos representados na Assembleia exceto PAN e PS demoveu o governo da intenção de transferir a tutela dos animais de companhia e dos animais errantes, até aqui competência do Ministério da Agricultura, para a alçada do Ambiente.

O tema, que já motivou também uma carta aberta ao Presidente da República e ao primeiro-ministro, assinada por mais de 40 entidades, leva hoje ao Parlamento a ministra Maria do Céu Antunes, para uma audição requerida pelo grupo parlamentar do PCP "sobre o processo em curso de desmantelamento do Ministério da Agricultura". Mas sendo matéria da competência do governo - e um bombom ao PAN que ajudou a viabilizar o OE 2021 - dificilmente será deixada cair. Mesmo com todas as preocupações levantadas pelos técnicos e especialistas da área, já que essa alteração "contraria as orientações de instituições europeias e internacionais sobre a matéria, que encaram a organização dos serviços oficiais de veterinária como um fator de absoluta importância para a gestão e o controlo de crises sanitárias".

O próprio ex-diretor-geral da Organização Mundial da Saúde Animal, Bernard Vallat, declarou tratar-se de uma transferência "muito perigosa", alertando para "o crescente risco de zoonoses, como a covid", cuja rápida deteção e resposta só são possíveis envolvendo técnicos com experiência. "Portugal ficará debilitado nas negociações internacionais" se houver duas entidades a tratar destes temas, sublinhou mesmo o responsável, em declarações ao Expresso.

Alertas repetidos na carta enviada a Marcelo e a António Costa, assinada por instituições que vão de associações agrícolas e animais à Ordem dos Veterinários e à academia, incluindo o Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, da Universidade do Porto, e as universidades de Évora e de Trás-os-Montes e Alto Douro.

Desta alteração de tutela poderá resultar o "ressurgimento em Portugal de doenças já aqui erradicadas, como a raiva, que mata 60 mil crianças por ano em todo o mundo", tornando ainda mais complicada "a gestão e o controlo de crises sanitárias", avisam os subscritores daquela mensagem e especialistas no tema.

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