Morte atinge idosos com mais de 70 anos e vírus é transmitido por crianças e jovens

De 1 de outubro até ontem, morreram mais 304 pessoas devido ao SARS CoV-2. Destas, 205 tinham mais de 80 anos e 65 estavam entre os 70 e os 79 anos. Estes dados resultam de uma análise aos boletins diários da DGS, que revela ainda que o maior aumento percentual de novas infeções foi registado no grupo dos 0 aos 9 anos (7,5%) e que o maior número de casos ocorreu no grupo entre os 20 e os 29 anos (mais 6654). Especialistas dizem que o ritmo de crescimento é elevado.

Quem está a morrer em Portugal com covid-19? A pergunta tem sido feita por especialistas e não só. Mas os dados concretos, disponibilizados diariamente pelas autoridades de saúde, só permitem perceber em que faixas etárias é que se morre mais. O bastonário dos médicos já pediu publicamente à Direção-Geral da Saúde (DGS) que divulgue a informação com mais detalhes (por exemplo, se estas pessoas estavam ou não vacinadas e há quanto tempo ou se sofriam de outras doenças), até para apoiar a comunidade científica na análise da evolução da doença. Mas isso não tem acontecido. O problema é que a esta questão juntam-se outras, como em que idades está a ocorrer o maior número de casos, quem está a chegar aos hospitais para internamento em enfermarias e nas unidades de cuidados intensivos? Quantos dos infetados e internados estavam ou não vacinados e há quanto tempo? O DN também enviou estas perguntas à DGS , mas a resposta que chegou foi que tais dados só são atualizados mensalmente, devendo ser conhecidos na sexta-feira.

No entanto, uma consulta aos boletins diários da DGS sobre a doença permite tirar algumas conclusões, nomeadamente: quem está a morrer são pessoas da faixa etária acima dos 70 anos e quem está a transmitir a doença são, principalmente, as crianças dos 0 aos 9 anos e os jovens adultos dos 20 aos 29.

Quem está nos hospitais confirma que a mortalidade está atingir os idosos, mais vulneráveis, com comorbilidades e vacinados há muito tempo. E que a nível da transmissão são os mais novos, uns porque não estão vacinados, outros porque são jovens adultos ainda sem vacinação completa e com mais comportamentos de risco. "São resultados que já tínhamos detetado, mas é preciso termos dados mais concretos para se fazer uma avaliação", disse ao DN o matemático do Instituto Superior Técnico (IST), Henrique Oliveira, que integra a equipa que faz a modelação da doença a longo prazo juntamente com a Ordem dos Médicos.

De acordo com os mesmos dados, desde o dia 1 de outubro - data em que foram levantadas todas as medidas restritivas em vigor até essa altura, nomeadamente o uso de máscara na rua, dentro de restaurantes, bares, discotecas e em locais de trabalho - e até ontem, 17 de novembro, morreram mais 304 pessoas em Portugal com covid-19, passando o total de óbitos de 17 979 para 18 283.

A esmagadora maioria dos óbitos ocorreu acima dos 70 anos. Ou melhor, 205 pessoas tinham mais de 80 anos, 65 estavam entre os 70 e os 79 e 25 entre os 60 e os 69 anos. Houve ainda duas mortes na faixa dos 50 aos 59 anos, seis entre os 40 e os 49 anos e uma entre os 30 e os 39 anos. As outras não registaram qualquer óbito neste período. Apesar de tudo, o número de mortes demonstra que a doença nesta fase é menos grave do que nas vagas anteriores.

Recorde-se que, na edição de ontem do DN, o diretor do Serviço de Infecciologia do Hospital Curry Cabral, que integra o Centro Hospitalar Universitário Lisboa Central (CHULC), Fernando Maltez, confirmava que no dia anterior tinha apenas 15 doentes com covid na sua enfermaria, com uma média de idades que rondava os 70 anos, mas a maioria são idosos acima dos 80, havendo alguns casos extremos, de 50 e 89 anos, e já com comorbilidades, o que Também "é normal para estas idades", disse. "Muitos deles tinham vacinação completa, mas já há algum tempo". Apesar de tudo, "são doentes que não têm a gravidade que vimos nos casos das ondas anteriores. Têm predominantemente pneumonia e dificuldade respiratória, mas sem grande necessidade de cuidados intensivos", acrescentou.

Do lado dos cuidados intensivos, o relato é o mesmo, segundo afirmou ao DN Philip Fortuna da Unidade de Cuidados Intensivos do Hospital São José, que integra o CHULC: "Não têm chegado muitos doentes com covid. Neste dia, temos quatro", acrescentando que sobre a mortalidade "o que está a acontecer é que, numa altura destas, de frio, mesmo a doença que não é grave, como uma constipação, pode matar um idoso, porque são os que estão mais vulneráveis".

Transmissão cresceu mais no grupo dos 20 aos 29 anos

Os dados obtidos através dos boletins diários da DGS, nestes 48 dias, revelam ainda que a transmissão está a ocorrer maioritariamente em duas faixas etárias: dos 0 aos 9 anos, que registou neste período mais 4955 casos, um aumento percentual de 7,5%, e na dos 20 aos 29 anos, que teve mais 6654 casos, um aumento percentual de 3,8%.

Dados que fazem o matemático do IST reforçar a necessidade de informação mais detalhada para se avaliar a evolução da doença e até para a tomada de decisões. Recorde-se que o governo decidiu nesta semana, e devido ao aumento do ritmo de crescimento dos casos, agendar para amanhã uma reunião com peritos no Infarmed para avaliação da situação.

Ao DN, Henrique Oliveira explica que, no espaço de sete dias, a realidade ultrapassou as suas estimativas. "Estamos com um ritmo de crescimento, numa média a sete dias, da ordem dos 5,6%, o que é muito. Neste momento, e sempre tendo em conta uma média a sete dias, estamos com 1677 casos, mas este ritmo de crescimento vai fazer que, no dia 25 de novembro, a média já esteja nos 2600 casos", quando as anteriores previsões apontavam para números dessa grandeza só na altura do Natal.

Tendo em conta que as mortes estão a ocorrer na faixa etária acima dos 80 anos, Henrique Oliveira sublinha "a necessidade extrema em se acelerar o reforço de vacinação nos mais idosos e nos profissionais de saúde". "São quase 3 milhões de pessoas que deveriam estar vacinadas até ao dia 10 de dezembro para se conseguir travar o crescimento da doença", explicou. E, reforça ainda, "se não quisermos ter mais mortalidade em janeiro, após a época natalícia, é preciso que o governo analise a situação e, se calhar, que tome algumas medidas."

Ontem, Portugal ultrapassou de novo a barreira dos 2 mil casos diários - foram 2527 e nove óbitos -, o que não acontecia desde 2 de setembro. Ainda assim, Henrique Oliveira lembra que, em termos de mortalidade, e numa média a sete dias, estávamos piores em agosto. "Em agosto, estávamos com uma média a sete dias de 13 mortes e agora estamos abaixo das nove mortes." Ontem subiu também o número total de internamentos, para 514, mais 28 do que no dia anterior. Destes, 75 estão em cuidados intensivos, menos cinco do que na véspera. A incidência por 100 mil habitantes passou de 156,5 casos para 173,7. O ritmo de transmissibilidade R(t) passou de 1.16 para 1.17.

Se olharmos para os dados de 1 de outubro, temos noção do crescimento da doença, já que nessa altura a incidência era de 101,7 por 100 mil habitantes, e o R(t) de 0,89. Agora, os dois indicadores são bem mais elevados. E já há especialistas a defender que o reforço vacinal contra a covid deveria ser dado a mais idades, como a partir dos 50 anos, tal como está a ser feito no Reino Unido, ou que não deveria haver um intervalo de seis meses para a terceira dose, após a vacinação completa. Por exemplo, há quem considere que, nas camadas mais idosas, acima dos 70 anos, ninguém deveria aguardar pelos seis meses, devendo, pelo contrário, ser vacinados com a dose de reforço o mais rapidamente possível. A Agência Europeia de Medicamentos (EMA) decidiu nesta semana retirar os intervalos definidos para a dose de reforço para as idades mais avançadas.

O infecciologista do Curry Cabral, Fernando Maltez, defendeu mesmo ao DN que, num futuro muito próximo, prevê que "este reforço tenha de ser dado a toda a população".

Nesta semana têm-se multiplicado os apelos dos especialistas para que a população volte a cumprir com rigor as medidas profiláticas que já todos conhecemos, como o uso de máscara, a higienização das mãos e o distanciamento social.

anamafaldainacio@dn.pt

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