Modelos de pele 3D e solventes amigos do ambiente valem bolsas milionárias

Duas investigadoras da Universidade do Minho foram distinguidas com bolsas no valor de quase dois milhões de euros cada. Há mais quatro projetos portugueses premiados. No total vão receber 11,5 milhões de euros

Alexandra Marques quer criar modelos de pele tridimensionais para serem usados no desenvolvimento de novos medicamentos para três doenças de pele raras e incuráveis. Para isso, a vice-diretora e investigadora principal do grupo de investigação 3B"s da Universidade do Minho foi contemplada com uma bolsa de consolidação do Conselho Europeu de Investigação (CEI) no valor de 1,99 milhões de euros. No total, serão distribuídos 605 milhões de euros por 314 projetos, seis dos quais portugueses e liderados por mulheres, que vão receber uma verba superior a 11,5 milhões de euros.

A equipa liderada por Alexandra Marques irá usar tecido de pacientes com as três doenças em causa - pênfigo vulgar, epidermólise bolhosa e carcinoma de células escamosas -, que por alguma razão tenha sido removido. "São excedentes", ressalva, numa conversa telefónica com o DN. A ideia é que este seja usado para produzir modelos, com recurso ao "bioprinting", uma espécie de impressora. "O objetivo é criar modelos tridimensionais de pele que sejam mais complexos do que aqueles que existem atualmente e que são muito simplistas e não têm representatividade em termos de doença." Estes vão permitir também ter "mais e melhor conhecimento" sobre as patologias.

A trabalhar há vários anos na área da engenharia de tecidos humanos, a investigadora explica que este projeto "é completamente inovador, mas tira partido da tecnologia que foi desenvolvida ao longo do tempo". Se não fosse a atribuição da bolsa, a alternativa era "avançar lentamente", como tem sido feito até aqui. "Desta forma, temos financiamento para o laboratório e a possibilidade de contratar mais pessoas para o projeto." Os resultados serão mais rápidos, o que se torna particularmente importante quando falamos de "doenças incuráveis e com elevada mortalidade".

Duas bolsas para o Minho

Da lista de projetos portugueses distinguidos consta um outro da Universidade do Minho, liderado por Ana Rita Duarte, que irá receber uma verba de 1,87 milhões de euros. Trata-se de uma investigação na área da "engenharia verde", cujo objetivo é "estudar novos solventes mais verdes" para "diminuir o seu impacto nos processos industriais". Estes são obtidos a partir de moléculas da natureza, como açúcares e aminoácidos, que, apesar de serem tipicamente sólidos à temperatura ambiente, se tornam líquidos quando combinados numa determinada proporção.

Falamos, por exemplo, do mel ou do xarope de ácer. Segundo a investigadora, estes têm aplicações farmacêuticas e podem ser usados em áreas como a biocatálise e a extração, tornando os "processos industriais mais sustentáveis". "Os solventes usados atualmente são tóxicos e requerem tratamento. Estes podem ter uma eficácia semelhante, mas são biodegradáveis e mais limpos." Para Ana Rita Duarte, de 37 anos, esta bolsa "permite consolidar uma equipa para trabalhar a 100% na área e dar respostas às questões levantadas".

69 bolsas para Portugal

Desde que foi lançado, em 2007, o CEI já financiou 69 projetos de instituições portuguesas, no valor de 107 milhões de euros. Este ano, além das investigadoras premiadas no Minho, foram distinguidos outros quatro projetos com marca portuguesa. Silvia Rodríguez Maeso, do Centro de Estudos Sociais (projeto Politics), irá receber uma bolsa para estudar a política antirracismo na Europa e na América Latina, enquanto Sara Magalhães, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, vai receber dois milhões de euros para responder à questão "Como é que a competição entre organismos molda a evolução das espécies?".

A trabalhar no estrangeiro, a portuguesa Renata Basto, do Institut Curie em França, receberá financiamento para o estudo da variação do número de cromossomas nos seres vivos. Já Susana Chuva de Sousa Lopes, do Centro Médico da Universidade de Leiden, na Holanda, vai investigar a ovogénese nos seres humanos, ou seja, o processo de formação dos ovócitos.

Sete minutos de apresentação

Segundo Alexandra Marques, o processo para a atribuição das bolsas do Conselho Europeu de Investigação é "complicado e muito trabalhoso". Depois da fase de candidatura, em que são analisados os currículos e as sinopses dos projetos científicos, os investigadores passam para a fase de entrevistas em Bruxelas, onde são avaliados por "16 experts". "Temos sete minutos para expor o projeto: objetivos, carácter inovador, metodologia, impacto na sociedade." Segue-se uma fase de perguntas que dura 20 minutos.

"Os vencedores destas bolsas receberam este financiamento competitivo porque são investigadores de excelência com ideias verdadeiramente inovadoras. Investir no seu sucesso trará benefícios a todos", destacou Carlos Moedas, comissário europeu responsável pela Investigação, Ciência e Inovação.

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