"Modelo de masculinidade dominante é nocivo para os homens"

Entrevista com Nelson Marques, jornalista e autor do livro Os homens também choram, numa edição da Fundação Francisco Manuel dos Santos.

Foi para derrubar estereótipos de género e rasgar o velho guião do que é ser homem que escreveu o livro Os homens também choram - Histórias da nova masculinidade?
Acima de tudo, quis contar uma história, neste caso a de homens e projetos em Portugal que procuram refletir sobre o seu papel na sociedade, derrubar estereótipos de género e promover uma visão mais diversa e inclusiva da masculinidade. Falo, por exemplo, de projetos como as Men Talks, a associação Quebrar o Silêncio, que dá apoio a homens que são vítimas de violência sexual, os encontros O Homem Promotor da Igualdade e o movimento antimachista Não é Normal. A minha esperança é conseguir fazer chegar estas vozes a outras pessoas e, gota a gota, ajudar a construir um mundo mais justo e mais feliz para todos e para todas.

Fala da revolução mais urgente do século XXI: a revolução da masculinidade. Do que se trata e em que termos?
As mulheres carregam há demasiado tempo o fardo da mudança para uma sociedade mais justa e igualitária, mas esta mudança precisa da participação de todos. É por isso que digo que a revolução da masculinidade é, porventura, a mais urgente do século XXI. Está na hora de os homens se olharem ao espelho, refletirem sobre o seu papel e o seu lugar na sociedade, reconhecerem o privilégio de que gozam pelo simples facto de serem homens e serem ativos no combate à desigualdade. Desde logo porque devia ser do interesse de todos construir uma sociedade melhor. Isso, só por si, deveria ser motivação suficiente para nos empenharmos na luta pela igualdade. Mas o modelo de masculinidade dominante, assente em estereótipos como o homem não chora, não tem medo, não fraqueja, não pede ajuda, não prejudica apenas as mulheres; é também muito nocivo para os próprios homens. Para corresponder às expectativas irrealistas da masculinidade os homens são mais propensos a adotar comportamentos de risco (bebem mais, fumam mais e consomem mais drogas), são as principais vítimas de acidentes de viação e de crimes violentos, recorrem menos aos serviços de saúde, são menos escolarizados... Em Portugal, três quartos dos suicídios são cometidos por homens e a sua esperança média de vida é seis anos inferior à das mulheres. O silêncio emocional a que muitos homens se remetem está literalmente a matá-los.

Em Portugal, três quartos dos suicídios são cometidos por homens e a sua esperança média de vida é seis anos inferior à das mulheres. O silêncio emocional está a matá-los.

Diz que a visão estereotipada da sociedade sobre o que significa ser homem ou ser mulher pode parecer muitas vezes subtil, mas não o é. Pode dar-nos exemplos?
Vou dar um exemplo simples. Há nove anos, quando nasceu a minha afilhada, os pais dela decidiram que os brinquedos com que brincaria (e, mais tarde, da irmã) não seriam condicionados pelo género dela. E a verdade é que eu, na altura, pensava que aquilo era uma coisa um pouco sem sentido. Mas hoje sei que estava equivocado. Os brinquedos projetam as expectativas que os pais têm sobre o que é ser menino e ser menina e estabelecem desde muito cedo as bases da desigualdade de género. Quantos pais oferecem bolas de futebol aos seus filhos e não às suas filhas? Quantas embalagens de cozinhas de brincar têm imagens de raparigas e não de rapazes? Quantos nenucos há que são pensados para promover a paternidade nos rapazes? Estas expectativas não são inofensivas, elas condicionam o comportamento de homens e de mulheres (e de todas as pessoas que não se reveem nesta lógica binária) ao longo da vida.

Defende que os estereótipos de género deviam ter um aviso como o do tabaco: "Cuidado: discriminar mata." Porquê?
Desde logo, há uma linha direta entre o tipo de pensamento que coloca o homem como superior à mulher e os números trágicos da violência doméstica, cujas vítimas são, na sua grande maioria, mulheres. Já falei do risco de suicídio dos homens, que é cerca de três vezes superior ao das mulheres, e da sua esperança de vida mais reduzida, mas é também importante dizer que os homens são os que mais matam e mais morrem para provarem que são homens. Cerca de 90% dos agressores e 90% das vítimas de homicídios a nível internacional são do sexo masculino. Além disso, os óbitos nos homens entre os 15 e os 64 anos são pelo menos duas vezes superiores aos das mulheres na mesma faixa etária.

O velho ideal de masculinidade a que muitos homens aspiram - forte, conquistador, sempre pronto para a luta, etc. - eterniza as desigualdades de género e o ciclo de violência e opressão sobre as mulheres. Como devem os homens mudar então? E devem mudar?
O facto de a sociedade nos condicionar não significa que devamos encarar os estereótipos e as desigualdades de género como uma inevitabilidade. A sociedade somos todos e todas nós, o que significa que a soma dos contributos de cada um (e cada uma) pode fazer a diferença. O primeiro passo que os homens devem dar é olhar-se ao espelho, olhar para dentro de si e questionarem-se sobre as consequências deste modelo de masculinidade tradicional para si e para todas as pessoas que os rodeiam. Devem educar os seus filhos sem lhes castrar as possibilidades, devem deixá-los ser aquilo que quiserem ser. Devem partilhar as tarefas domésticas e de cuidado, porque é muitas vezes em casa que a desigualdade se começa a desenhar. Devem rejeitar o machismo, rejeitar o assédio, rejeitar a violência sobre as mulheres. Não devem ser cúmplices com o seu silêncio e a sua inação. Devem ser aliados das mulheres na luta pela igualdade de género e não devem deixar que elas continuem a carregar sozinhas o fardo da mudança. Não devem ter medo de abraçar as suas emoções, de se mostrarem vulneráveis, de procurarem ajuda quando precisem. Muitos homens já participam ativamente nesta mudança, como tento demonstrar no livro, mas são precisos muito mais para derrubar a cultura sexista em que ainda vivemos.

Muitos homens resistem à mudança porque receiam que ela lhes possa ser prejudicial. Mas é preciso dizer-lhes que o caminho, não sendo fácil, compensa, defende. Compensa como? Como pretende convencer os homens disso?

Por tudo aquilo que temos vindo a falar. Muitos homens temem que a igualdade de género seja uma conta de subtrair, mas tento demonstrar no livro que a libertação das mulheres também poderá libertá-los dessa "jaula pequena e dura" da masculinidade, como escreve Chimamanda Ngozi Adichie. Desde logo, podem ser homens melhores, mais conscientes do seu privilégio e do seu papel na sociedade, que assumem a sua responsabilidade para promover a igualdade e são mais ativos para criar um mundo melhor. Mas podem ser também homens que vivem mais anos, que cuidam melhor da sua saúde física e mental, que são mais presentes na parentalidade. Podem ser mais felizes e mais saudáveis e contribuir para que todas as pessoas à sua volta também o sejam. Podem viver sem as máscaras e as amarras que o velho guião da masculinidade lhes impõe. Podem ser, por fim, livres.

Diz que a libertação das mulheres será também a dos homens. Como fazê-los acreditar nisso?
Acredito que muitos homens sintam que têm mais a perder do que a ganhar com a igualdade de género. É natural que se sintam desconfortáveis com a ideia de que o modelo de masculinidade que conhecem não prejudica apenas as mulheres, mas também os prejudica a eles. O caminho é longo e pedregoso, mas faz-se caminhando. Acredito que podemos usar essas pedras para construir pontes e estabelecer um diálogo que, contributo a contributo, permita que a mudança aconteça. Muitos homens já começaram esse processo de autoquestionamento e já participam ativamente nessa mudança, mas precisamos que muitos mais se juntem para derrubar esta cultura sexista. É certo que haverá muitos que não estão disponíveis para abdicar dos seus privilégios e fazer parte da revolução, mas acredito que outros, com paciência, poderão abrir esse espaço de reflexão pessoal sobre o que nos faz melhores, mais ligados às nossas emoções, mais cuidadores e mais ativos na luta por uma sociedade mais justa.

Depois da revolução do feminismo, esta é a hora da revolução da masculinidade, uma mudança que precisa da ajuda de todos, a começar pelos próprios homens, refere. Devem e podem começar por onde?
Desde logo, devem começar por casa. Não poderemos ter igualdade de género enquanto as mulheres dedicarem mais de duas horas por dia a tarefas domésticas e de cuidado. Devem abraçar a parentalidade e não reproduzir os estereótipos de género na educação dos seus filhos/as. Não devem ser cúmplices da violência e da opressão sobre as mulheres. Pelo contrário, devem recusar o assédio, a violência e a opressão das mulheres. Não devem ter medo de abraçar as suas emoções, nomeadamente aquelas que, erradamente, assumem como femininas, como a ternura, a vulnerabilidade ou a tristeza. Devem recusar o machismo e ser militantes pela igualdade de género em todos os domínios da sociedade. Se a palavra lhe gera desconforto, respire fundo. Nada tem a temer. Vários homens já começaram esse processo de autoquestionamento e participam ativamente na mudança, mas são precisos muitos mais para derrubar a cultura sexista em que ainda vivemos. Só reconhecendo que alguns comportamentos masculinos conduzem à violência, à opressão das mulheres e à hegemonia dos homens na sociedade, ao mesmo tempo que os prendem em caixas que limitam o seu papel na vida pessoal, familiar e profissional, será possível a afirmação de uma versão mais empática da masculinidade. Uma versão onde os homens se sintam confortáveis para mostrarem que são sensíveis ou vulneráveis, para falarem abertamente sobre as suas emoções e serem agentes ativos na luta por uma sociedade mais justa e igualitária.

Os homens devem começar por casa, na divisão das tarefas domésticas. Abraçar a parentalidade e não serem cúmplices da violência e da opressão sobre as mulheres.

Uma vez que os "estereótipos são transmitidos, e assimilados, através do processo de socialização", diz que é fundamental diversificar o processo formativo para combater representações preconceituosas da masculinidade e da feminilidade, educando para a igualdade de género. O que sugere ao nível da educação/escolaridade?
No livro menciono o Manual de Promoção de Igualdade de Género e de Masculinidades Não Violentas, uma obra do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra que oferece várias ferramentas para ajudar jovens a desconstruir os estereótipos com que convivem no quotidiano e a refletir sobre a sua masculinidade. Isso passa, por exemplo, por dialogar com eles sobre esta temática em contexto familiar e escolar, educando-os a questionar os estereótipos com que convivem e que possam reproduzir no seu quotidiano, e, em segundo lugar, envolvendo-os em atividades que ajudem a desconstruir esses mesmos estereótipos. Desde logo, promovendo comportamentos não-violentos, mas também envolvendo-os em campanhas de sensibilização e educando-os para que possam cuidar de si e dos outros, e fazê-lo de forma partilhada. E depois tendo consciência que este trabalho exige determinação e paciência, porque estes preconceitos estão firmemente enraizados na nossa sociedade e derrubá-los é um processo longo e complexo.

É homem. Sobre a eterna guerra da partilha de tarefas domésticas e do cuidado com os filhos, ainda acredita que partilhar 50/50 vai ser possível? Que conselhos dá aos homens?
Ainda estamos longe disso. Em Portugal, as mulheres ainda dedicam por dia mais duas horas, em média, a tarefas domésticas e de cuidado do que os homens, e ainda mais ao fim de semana. Ora, estamos a falar de mais de dois dias de trabalho completos por semana. Os homens estão a participar mais nessas tarefas, o fosso vai diminuindo pouco a pouco, mas ainda estamos longe dessa partilha desejada. Os dados mostram que, quando os homens partilham essas tarefas, as mulheres são mais saudáveis e mais felizes, e isso também é (ou pelo menos devia ser) do interesse deles. Os estudos também demonstram que homens que partilham estas tarefas abusam menos de tabaco, álcool ou drogas, são menos propensos a várias doenças, tomam menos medicamentos. Dito isto, é desolador que seja necessário convencer um homem que partilhar estas tarefas também o beneficia. Dar-se ao luxo de não partilhar essa carga é, uma vez mais, um privilégio que os homens não deveriam ter e não deveria ser necessário tentar convencê-los a cumprir os seus deveres.

A igualdade é do interesse dos países, das empresas e dos homens, dos seus filhos e das suas companheiras. Como pode o governo ser mais ativo em políticas de promoção da igualdade?
A igualdade de género não se impõe por decreto. A sociedade é composta por todos e por todas nós e, por isso, todas as pessoas podem contribuir para a mudança. Obviamente, é importante que o governo promova iniciativas que combatam os estereótipos de género, como o recente Jogo das Profissões para a Igualdade, seja nas escolas, seja noutros domínios sociais, como a publicidade. Como a construção da igualdade de género começa na infância, penso que seria interessante pensar em campanhas ou mesmo legislação que ponha fim à divisão dos brinquedos por géneros. Positivo podia ser também o alargamento da licença parental, como foi recentemente proposto pelo PAN, e um aumento da fiscalização do seu cumprimento nas empresas, que continua aquém do que seria expectável.

Refere que o feminismo tornará possível, pela primeira vez, que os homens sejam livres. Os seus amigos concordam consigo ou estão contra si?
Tive ao longo destes anos muitos amigos e amigas pacientes, que me foram educando nas questões da igualdade de género. Devo-lhes este livro e o facto de ser hoje uma pessoa muito mais consciente do meu privilégio e da necessidade desta revolução. Tento agora fazer o mesmo com outros amigos, conversar com eles, derrubar as suas convicções. Estou bem rodeado, por isso acredito que vão concordando comigo.

rosalia.amorim@dn.pt

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