Mitos, verdades e alguns erros na alimentação de cães e gatos

Nem sempre os conselhos de amigos e familiares são os melhores. Quando se quer garantir a saúde e longevidade dos animais de estimação, a ciência tem uma palavra importante a dizer. Porém, os mitos nascem e, por vezes, confundem-se com o que é realmente um facto

Ração ou cozinhar em casa? Quanto tempo devem os cachorros e os gatinhos ficar com a progenitora? São muitos os mitos que se misturam com verdades no que diz respeito à nutrição dos animais de estimação. O DN foi tentar perceber quais os mitos, verdades e alguns erros que se cometem quando se escolhe a alimentação para aqueles que muitas vezes são autênticos membros da família. Thierry Correia é veterinário há 19 anos (tem 44), integra ainda o departamento de comunicação científica da Royal Canin Portugal e aceitou quebrar alguns dos mitos, que por vezes não passam de informação incorreta que acaba por se disseminar.

A ração é o melhor alimento e deve ser sempre a mesma?

"Os alimentos industriais secos de elevada digestibilidade e qualidade podem ser consumidos a vida inteira. Em termos de comportamento natural, o cão é monofílico, isto é, se gosta de uma coisa, gosta sempre de encontrar essa coisa. Contrariamente ao comportamento natural do gato, que é neofílico. Gosta de variar de aromas, de perfumes da comida, de texturas. O sabor não interessa muito para os gatos e para os cães. Nem o sabor nem a cor. O primeiro critério de escolha é o olfato, o segundo será a própria forma, textura e a densidade do alimento, a experiência dentro da boca. Só em terceiro é que vem o sabor. O aspeto, a visão, não conta para nada." O médico veterinário salientou ainda que o alimento deve ser adaptado à idade, ao estado reprodutivo, se é lactante, gestante, se está ou não esterilizado e ao modo de vida, por exemplo.

Alimentação feita em casa é a mais completa?

"À luz da ciência atual, a alimentação caseira tem duas grandes vantagens: a ligação afetiva tutor-animal de estimação - às vezes, no entender do tutor sai reforçada e eu não posso negar isso - e pode ter a vantagem de se saber exatamente o que está no alimento. O tutor compra e sabe os ingredientes que tem. Só é válido nestas premissas: a dieta, a escolha de ingredientes e quantidades têm de ser calculadas por um médico veterinário, de preferência por um médico veterinário especialista em nutrição, um pouco como a medicina humana. Há estudos que dizem que mesmo fazendo tudo em casa, com tudo direitinho, prescrito por um especialista, mesmo assim é preciso suplementar porque há muitas vitaminas e sais minerais em que não se consegue obter os teores equilibrados e necessários para os nossos animais de estimação. É preciso sempre suplementar."

Os cachorros devem ficar com a mãe até aos 40 dias?

"Não há um período específico que o animal tenha de ficar com a sua progenitora, tanto no gatinho como no cão. Claro que os animais jovens favorecem em vários aspetos o convívio com a sua progenitora e com os irmãos. Da progenitora irá receber o alimento mais adaptado a ele. Há o desmame, que é da terceira à oitava semana de vida, quando passam para o alimento sólido. Em teoria, com o alimento sólido introduzido, poderiam ir para uma nova família. Mas o convívio com os irmãos e com a progenitora - e isto é mais a parte comportamental - faz que eles também possam moldar o seu comportamento natural, de hierarquia, de socialização e outras etapas de crescimento poderão sair reforçadas desse convívio. Como médico veterinário, recomendaria no mínimo entre seis a oito semanas. Mas depende de animal para animal, de ninhada para ninhada, de tutor para tutor, da própria raça."

Os gatos são intolerantes à lactose?

"Não é que sejam intolerantes. O que acontece é que, quando os gatinhos e os cachorros nascem, nascem preparados para uma dieta líquida, o leite materno, e o açúcar que eles aproveitam do leite materno chama-se lactose e quando eles são pequeninos têm uma enzima que se chama lactasse que permite como que desdobrar em pedacinhos pequeninos e absorvê-la. Conforme vão crescendo vão tendo o fenómeno do desmame. Entre a terceira e a oitava semanas o organismo começa a produzir menos lactase porque vai passar para um alimento sólido, onde o açúcar, em vez de se chamar lactase, se chama glucose. Faz parte da biologia, estava preparado para uma dieta líquida, depois desenvolveu-se para ingerir alimento sólido. Como a lactose não é digerida, provoca diarreias. Não há intolerância, o gatinho e o cachorro só estão preparados para digerir leite até aos dois meses de vida."

E quanto ao glúten?

"Está muito em voga na medicina humana falar-se de sem glúten. As pessoas projetam essas coisas nos seus animais. Não há nenhuma evidência científica de que o gato e o cão sejam intolerantes ao glúten. Há uma linhagem familiar do setter irlandês que tem uma doença semelhante à doença de Crohn. Não há tolerância ao glúten dos cães e gatos. É mito. O glúten é apenas proteína de origem vegetal que até é de elevada digestibilidade e tem muito interesse alimentar, tanto em medicina humana como em veterinária."

Os gatos devem comer ração e não comida feita em casa?

"No gato é ainda mais importante que o alimento seja equilibrado porque tem maiores restrições alimentares do que o cão. Isto é, são mais exigentes em termos de certos nutrientes, por exemplo a taurina, um aminoácido que é essencial para o gato e mais nenhuma espécie. Ao dar uma alimentação caseira, corremos o risco de estar a subnutrir o gato em taurina, que está envolvida no poder antioxidante, no funcionamento do miocárdio e em muitíssimas coisas num gato. Por isso, recomenda-se que o gato coma um alimento completo e de elevada digestibilidade. Pode ser um alimento seco e combinar com alimento húmido, visto que o gato espontaneamente consome pouca água." Thierry Correia acrescenta que um gato gosta de comer de 12 até 18 porções de comida por dia. "Na brincadeira, costumamos dizer que o gato é um animal petiscador." Salienta ainda que há quem esteja a tornar o seu gato vegan, alertando para o facto de que tal é um perigo para a vida do felino. "O gato é um carnívoro estrito, precisa de elevados teores de proteínas."

A ração que incha na água não é aconselhável?

"Foi a maior barbárie que já ouvi na minha vida. O que é um extrusado? É um alimento desidratado. Se o meter o floco na água, ele incha porque capta esse líquido. É impossível fazer-se croquetes sem hidratos de carbono. Um bom extrusado incha em contacto com a água. 99,9% dos produtos com extrusado vão inchar."

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