Milhares de peregrinos regressam a Fátima com olhos postos na guerra da Ucrânia

A guerra na Ucrânia está a marcar as cerimónias desta peregrinação aniversária, em Fátima. Esta noite, milhares de peregrinos encheram por completo o recinto do Santuário, como não acontecia há dois anos. Na manhã de sexta-feira, 13 de maio, será benzida uma réplica da imagem de Nossa Senhora, a enviar em breve para Lviv.

Um mar de gente voltou a encher esta noite o recinto do santuário de Fátima, tal como acontecia até 2019. Nas celebrações deste 13 de maio, milhares de peregrinos vieram de todo o país, maioritariamente do norte, e a pé, num regresso emotivo.

"Foram dois anos à espera disto, mas valeu a pena", diz ao DN Célia Marques, a professora de matemática que veio de Figueira de Castelo Rodrigo juntar-se ao grupo que percorreu o caminho a pé.

Há muita emoção. Lágrimas e rosas brancas nas mãos de cada um. Quem fala por todos é o padre Ricardo Fonseca, de Pinhel, que acompanha estes 30 peregrinos. À frente, de joelhos, António Guerra paga uma promessa. "Voltar aqui é como aqueles filhos que encontram no regaço da mãe um colo ao fim do dia, daqueles dias em que não houve tempo para isso". É assim que o padre Ricardo compara este regresso. Vai no meio do grupo, de calções, não se distingue dos demais, é ainda muito jovem, e uma fonte de motivação para todos. O grupo faz esta peregrinação há mais de 20 anos. É meio da tarde, estão quase 30 graus na Cova da Iria, e chegam agora os últimos grupos. Como um do grande Porto, onde encontramos José Baptista, um peregrino que o DN encontrou ali mesmo em outubro passado. É o mais velho num grupo de 11 homens e apenas uma mulher, Ana Mendes, mas aqui há quase um clima de festa. "É gratidão. É por isso que eu venho a Fátima", diz ao DN Miguel Luís, empresário da construção civil, depois de posar para uma selfie com a mulher, Sandra Pereira, que veio de carro. "Ainda um dia vamos fazer isto juntos", prometem um ao outro.

Quando a noite cai, o recinto há de encher como há muito não se via. Até ao início da procissão das velas o Santuário hesitava revelar números oficiais, mas ao final da noite confirmou 200 mil pessoas. Esta terá sido, sem dúvida, uma das peregrinações mais participadas, tanto mais que colide com o fim de semana. Contavam-se 119 grupos organizados.

Uso da máscara recomendado

"A queda das restrições não significa da nossa parte uma menor responsabilidade. Alegramo-nos por podermos celebrar desta forma, mas continuamos a sugerir aos peregrinos o uso de máscara, sobretudo nos lugares de maior aglomeração de pessoas. Já não existe obrigação, mas a máscara não está proibida", lembrou ontem o padre Carlos Cabecinhas, reitor do Santuário de Fátima, quando anunciava aos jornalistas que, afinal, ao contrário do que esperava, os peregrinos superaram todas as expetativas. "A partir do mês de março nós fomos assistindo à chegada de grupos organizados (dioceses, paróquias e outros), que praticamente tinham desaparecido nos dois anos anteriores, tal como os grupos de peregrinos estrangeiros. E sobretudo a partir da Páscoa chegou ao Santuário um número significativo de peregrinos a pé. Devo confessar que, uma vez que eram tantos os que anteciparam a sua vinda, a nossa expetativa era eu não houvesse uma presença tão significativa nestes dias 12 e 13. E enganámo-nos", disse.

O momento alto desta peregrinação será a bênção de uma réplica da imagem de Nossa Senhora de Fátima, que o Santuário vai enviar para a Ucrânia. A cerimónia acontecerá depois da missa deste 13 de maio.

D. José Ornelas - que ainda está "a conhecer os cantos à casa", como fez questão de lembrar, no encontro com os jornalistas, vive nesta peregrinação o seu primeiro 13 de maio enquanto bispo da diocese de Leiria-Fátima. Mas Fátima não é uma casa qualquer. E o que ali aconteceu há 105 anos encontra, para ele, muitas semelhanças com a atualidade: "uma situação de pandemia - a gripe espanhola - que até vitimou dois dos pastorinhos e uma situação de guerra. Portanto, não é nada de novo. Fátima é um lugar posto no mundo, que tem a sua dimensão de beleza e de tragicidade", disse. Estava dado o mote para se falar do tema que viria a dominar o encontro com os jornalistas. "é significativo que se tenha repetido este desejo da consagração da Rússia e da Ucrânia, ao Coração Imaculado de Maria, contemporaneamente em Roma e em Fátima".

Mas quando mais tarde uma jornalista da TSF perguntava sobre a alusão da Rússia num dos Segredos de Fátima, estabelecendo um eventual paralelismo, o reitor do Santuário recusou ligações: "a questão do segredo não tem que ver com a geografia e com um povo. Tem que ver com uma ideologia que pretende excluir de forma radical Deus daquilo que é o horizonte das pessoas. E por isso quando a Mensagem de Fátima fala da necessidade de dar a Deus o lugar que lhe compete da vida dos crentes", disse o padre Carlos Cabecinhas. "Ora, a situação atual não é isso", considera. "Os tempos são outros, o horizonte mudou radicalmente. Mesmo quando o papa Francisco propõe a consagração da Rússia e da Ucrânia, falamos de uma outra realidade, que é necessidade de oração pela paz".

Papa Francisco no próximo ano

Dentro de um ano Fátima será palco de uma visita do Papa Francisco, a propósito da Jornada Mundial da juventude, que decorre em Lisboa. E por isso, D. José Ornelas projetou esse futuro (já) próximo. "Hoje a mobilidade está no coração dos jovens. Os santuários tradicionalmente têm o caráter de ser imóveis. Esta diocese será o ponto de partida. Nós somos um mundo em mobilidade. É o sentido que queremos imprimir a Fátima nestes próximos tempos, com a nossa Igreja, com os jovens que estão desafiados à participação, para as Jornadas Mundiais da Juventude em 2023. Vamos precisar mesmo deles. Vamos precisar mesmo deles. De gente que fale línguas, que saiba acolher. É importante que o bispo cá esteja... mas não querem o velhote, simplesmente, querem gente nova, que faça caminho ao mesmo passo", disse.

O bispo de Leiria-Fátima tem consciência de que "o mundo está em mudança de uma força rápida e radical", e por isso o Santuário não pode ficar alheio ao que acontece à sua volta. "Temos de nos precaver completamente contra uma visão ideológica da mensagem de Fátima como se estivéssemos em 1917 ou 1918 com um contexto que já não é o nosso. Aqui nós não estamos a pedir a conversão da Rússia", enfatizou.

A peregrinação internacional aniversária - que acontece exatamente 40 anos depois da primeira visita do papa João Paulo II a Fátima - é presidida por D. Edgar Peña Parra, substituto da Secretaria de Estado do Vaticano. Na homilia de ontem à noite, também levou o tema da guerra para o altar do mundo: "Em cima da mesa do nosso mundo, no banquete da humanidade, falta o vinho da fraternidade e da paz, enquanto os egoísmos e os rancores explodem com frequência, como, neste nosso tempo, na violência atroz e bárbara [desumana] da guerra, onde não há, nem vencedores, nem vencidos, mas apenas lágrimas como as da Mãe de Deus, que, como nos recordou o Papa Francisco, "são também sinal do pranto de Deus pelas vítimas da guerra que destrói não apenas a Ucrânia; (...) destrói todos os povos envolvidos na guerra" Todos! Pois a guerra não destrói só o povo derrotado, não, destrói também o vencedor; destrói inclusive aqueles que a observam, com notícias superficiais, para ver quem é o vencedor, quem é o vencido".

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