Meta dos 36% de energia renovável custa 460 mil milhões por ano

A par da melhoria da eficiência, a aposta nas energias verdes é a melhor hipótese. Investimento terá de duplicar. Mas compensa

Reforçar a aposta nas energias renováveis é uma das melhores hipóteses em cima da mesa para atingir a meta de limitar o aumento das temperaturas médias a 2 graus centígrados, até 2030, estabilizando-as depois nesse patamar. Aliás, defendeu a Agência Internacional de Energia Renovável (IRENA) num relatório apresentado na cimeira do ambiente COP 21, em Paris, que sem esta opção o fracasso é certo.

Atualmente, estima-se que mesmo que todos os compromissos constantes nos planos ambientais submetidos por mais de 180 países presentes na cimeira sejam rigorosamente cumpridos, a subida de temperatura média até ao final do século atingirá os 2,7 graus. A diferença entre o prometido e o necessário são entre 15 e 17 gigatoneladas de emissões de dióxido de carbono.

Com a aposta nas fontes de energia não nocivas, diz a IRENA, pelo menos "metade" dessa redução seria assegurada: "As renováveis e a melhoria da eficiência energética são as duas únicas tecnologias que podem ser implementadas com a rapidez necessária e a uma escala suficiente para superar esta diferença a tempo."

Mas alcançar a escala e a velocidade necessárias para superar esse desafio implica um compromisso muito mais acelerado do que a atual que, apesar dos progressos assinaláveis da última década e meia, só permitirá atingir os 21% de peso das renováveis em todo o consumo final de energia. A meta é chegar aos 36%. E as contas estão feitas: o atual investimento tem de duplicar, para mais de 460 mil milhões de euros por ano, até 2020. E terá de disparar para cerca de 827 mil milhões de euros até 2030.

Desenvolvimento sustentável

Os números são suficientemente elevados para alimentar os argumentos dos que encaram com ceticismo - ou até cinismo - a exequibilidade dos planos para travar o aquecimento global. Mas também há motivos para encará-los como perfeitamente atingíveis.

As esperanças de reduzir a curva ascendente das emissões de CO2 não passam apenas pelo grau de compromisso dos países desenvolvidos. É também necessário assegurar que os países atualmente em desenvolvimento conseguem crescer sem que isso se reflita num agravamento das condições.

E antes da COP 21, o Banco Mundial, a Alemanha,a Noruega, a Suécia e a Suíça anunciaram um plano - avaliado em 460 milhões de euros - precisamente com esse fim. O primeiro relatório da "Coligação uma gigatonelada [de CO2]" foi apresentado na COP 21, com exemplos positivos de vários países que já estão a projetar o seu crescimento com a eficiência energética em mente.

Também o setor privado se tem juntado aos esforços para assegurar um "desenvolvimento de baixo carbono". Entre os mecenas de programas com este fim está o fundador da Microsoft, Bill Gates.

Rentabilidade a crescer

Mas o grande motor do crescimento das energias renováveis, mais do que as políticas bem intencionadas e os subsídios públicos e privados, poderá ser a própria eficiência desta estratégia. Nomeadamente de uma perspetiva económica.

As energias renováveis geram empregos. Excluindo as grandes hidroelétricas, cerca de 7,7 milhões de pessoas trabalham no setor. Um número que representa um aumento de 18% no espaço de um ano. Destas, 3,4 milhões estão na China, país que - sendo ainda o maior poluidor do planeta - já lidera na produção de energias verdes. A IRENA estima que, com uma quota de 36% de energias renováveis, o setor daria emprego a mais de 24 milhões de pessoas.

Este crescimento, numa altura em que o preço do petróleo tem caído a ritmo acelerado, só foi possível porque tecnologias utilizadas nas renováveis se tornaram muito mais baratas. E, por isso, mais competitivas e atrativas. Desde 2009, o preço das turbinas eólicas baixou um terço. O custo de produção dos painéis solares residenciais baixou 80% e o preço de venda caiu 65%.

A Europa, com Portugal entre os melhores exemplos, lidera na "independência" energética: 27% da sua energia provém de renováveis e os 50% deverão ser atingidos em 2030. Ainda assim, ontem, em Paris, o comissário europeu para a Inovação, o português Carlos Moedas, defendeu que "é tempo para investir mais" e de canalizar os subsídios para as renováveis em vez da energia fóssil.

Mais Notícias

Outras Notícias GMG