Melanoma. O cancro de pele mais agressivo tem cura, mas é preciso detetá-lo

Pelo segundo ano consecutivo a pandemia cancelou os rastreios. Associação Portuguesa do Cancro de Pele alerta para a importância redobrada de vigilância. Porque o mais grave de todos pode esconder-se onde nem imagina.

"Agradeço sempre à Isabel, a minha esteticista, que (sem saber) me salvou". Helena Vieira fala ao DN com réstia de sotaque algarvio, embora viva na região de Lisboa há muitos anos. Em novembro passado, a professora aposentada, de 76 anos, experimentava os serviços de pedicure "para se distrair da pandemia", quando a esteticista detetou um sinal estranho, num local pouco vulgar: "Estava encostado ao dedo pequenino, na parte de trás, junto à planta do pé." "Ela nunca o tinha visto, eu não tinha maneira de o conseguir ver", relata Helena, que é hoje uma sobrevivente do melanoma, o mais agressivo dos cancros de pele, cujo dia europeu se assinalou esta semana.

Helena Vieira faz parte dos casos de sucesso à conta de um diagnóstico precoce. Ao todo, estima-se que apareçam em Portugal 90.000 novos casos a cada 5 anos. Em conjunto, os vários tipos de cancro de pele conduzem a mais de 400 mortes por ano, a maioria causadas pelo melanoma, que representa cerca de 10% dos novos casos anuais.

"Além da mortalidade inerente, o cancro de pele condiciona relevantes gastos económicos, com um custo anual estimado de 3,8 milhões de euros relacionados com o melanoma e de 16,2 milhões de euros com outros tipos de cancro de pele", sublinha a Associação Portuguesa do Cancro de Pele (APCC), cujo presidente, João Nuno Maia, tem acompanhado de perto o caso de Helena. Com ela, foi tudo muito rápido. Nesse mesmo dia, depois de sair do gabinete de estética, marcou uma consulta no primeiro dermatologista que conseguiu. Uma vida já longa e preenchida por diversas maleitas ensinou-lhe que é preciso agir rapidamente, mesmo sem imaginar que era de melanoma que se tratava.

"O sinal era pequeno, nem sequer era escuro, nem rugoso. Mas o médico olhou para ele e disse-me: "Isto tem que ser tirado imediatamente". Menos de duas semanas depois tinha o resultado: o meu sinal irregular e assimétrico era um melanoma." Depois da pequena cirurgia para biópsia, seguiram-se meses de cuidados, a começar por três TAC (tomografia axial computorizada) e uma ressonância magnética. Era preciso acautelar que não havia células malignas que tivessem migrado para o resto do corpo, antes de fazer a cirurgia "para alargamento das margens, com enxertos de tecido retirados das coxa". Afinal, apenas o gânglio sentinela (junto à virilha) tinha sido "visitado". No caso de Helena, a medicina salvou-a a tempo. Nem sempre acontece. Por isso, a professora decidiu juntar-se à APCC para ajudar a sensibilizar. Passa a vida a aconselhar os outros que examinem as plantas dos pés uns dos outros, debaixo das unhas, atrás das orelhas, e estejam atentos, porque o melanoma pode surgir até nas mucosas. "Prevenir, é a única forma. Eu tive muita sorte", conclui.

Rastreios suspensos, vigilância mais precisa

João Nuno Maia sabe que sim. O médico e professor universitário conta sempre este caso, especialmente quando na associação "deixámos de fazer as campanhas de rua e de rastreio que habitualmente fazíamos", na sequência da pandemia. "Este ano e no ano passado não conseguimos fazer os rastreios, mas mantemos tudo o resto, na área da sensibilização, até nos serviços hospitalares. E tudo o que é formações paralelas direcionadas a profissões de risco, pessoas que estão mais expostas ao sol - agricultores, pescadores, trabalhadores da construção civil, nadadores salvadores. E também a profissões influenciadoras de comportamentos, como professores, educadores, enfermeiros, etc".

Também nas praias a presença da APCC volta a ser reduzida, mas acontecerá, ainda assim. "Não é assustar as pessoas, mas é informá-las, o que fazemos", adianta ao DN, sublinhando sempre como é importante passar a mensagem para que "não se exponham ao sol em determinadas horas, que usem sombras, protetor solar". Não é por acaso que João Nuno Maia coloca os cuidados por esta ordem de importância. Pois "o protetor não deve ser entendido pelas pessoas como uma proteção suficiente, só por si. Há estudos que mostram que quem põe mais protetor solar acaba por se sentir mais protegido e ficar mais horas exposto ao sol. E depois deve ser reaplicado ao fim de três ou quatro horas".

O presidente da APCC enfatiza a componente "muito comportamental desta esta relação com o sol". Afinal, é esse comportamento que vai determinar "o acumular de lesão na pele, que tem memória, e com o passar dos anos e acumular de lesões leva aos cancros". João Nuno Maia alerta para a importância da "auto vigilância, de não negar uma evidência, quando ela aparece". É que esse primeiro passo é determinante: "O chegar cedo ou tarde, perceber se conseguimos ter uma cura simples e rapidamente com a cirurgia, ou se a lesão está metastizada e aí é mais complicado."

É sempre importante sublinhar que o cancro de pele "é dos que tem índice de cura mais elevado", se detetado precocemente. "Se um melanoma tiver 0,4 mm a probabilidade da pessoa falecer por causa disso ao fim de 20 anos, é muito reduzida (1%), se tiver um espessura de 4 mm, a probabilidade é de 60%, ao fim do mesmo período". A espessura é determinada pela rapidez de crescimento da lesão, mas depende muito do tempo que demora entre o aparecimento e a procura do médico.

E à medida que se aproxima o verão, fica outro alerta da APCC: o perigo do uso de solários. "São reconhecidos como carcinogénicos pela Organização Mundial de Saúde sendo o seu uso totalmente desaconselhado", frisa João Nuno Maia.

dnot@dn.pt

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