Maria Odete Isabel: "Ainda há muitas mulheres que não sabem defender a causa feminina"

Aos 80 anos, Maria Odete Isabel continua a reclamar o título de primeira mulher eleita presidente de Câmara. Foi na Mealhada, nas eleições de 1976, com as cores do PS, partido que a expulsou, mais tarde, e depois lhe pediu desculpa e a homenageou.

Nas eleições de 1976 foi eleita presidente da Câmara da Mealhada, sendo muitas vezes apontada como a primeira mulher a ocupar o cargo. Na verdade foram cinco, nessas eleições. Porque é que a consideram a primeira?
Eu fui sempre considerada a primeira mulher eleita porque eu era candidata pelo PS, que foi o partido que ganhou essas eleições, as primeiras livres em Portugal. Além disso, eu, que era do distrito de Aveiro, fui a primeira a aparecer nos resultados. A Maria de Lurdes Breu dizia sempre "tu não foste a primeira, fui eu. Porque no distrito de Aveiro quem ganhou foi o PPD". Só que Portugal é muito maior do que Aveiro! Por isso eu continuo a ser a primeira mulher eleita. Com muita honra.

E como é que isso aconteceu? Quem foi que a desafiou para esse feito inédito, à época, que era uma mulher encabeçar uma lista autárquica?
Foi um grande amigo - que infelizmente a covid-19 me roubou, a mim e a muitos outros. Era o capitão de Abril Manuel Bastos de Matos, que percebeu cedo como eu gostava de política.

Quando é que começou a gostar de política?
Foi muito nova. Mas mais importante foi quem me ensinou a gostar de política: a Maria de Lourdes Pintassilgo, chamando-me à responsabilidade da participação ativa na política pelo facto de ser mulher. Ainda hoje gosto de escrever MULHER com letra grande, porque começou por aí. E a minha mãe. Um dia estava a jantar com os meus pais, ainda antes de me envolver ativamente na política, e perguntei em quem iam votar. O meu pai disse logo que ia votar no Sá Carneiro, porque lhe diziam que "era o único que não nos vinha roubar o nosso dinheiro". E a minha mãe responde que ia votar no Mário Soares. Porque não lhe interessava nada o dinheiro, e ele era contra o Salazar, como ela sempre fora. Porque "não me ensinou a ler", dizia ela. É claro que quando eu fui eleita, o Mário Soares soube da história e veio à Mealhada trazer-me um ramo de cravos. A primeira coisa que me disse foi que queria conhecer a minha mãe.

Conheceu Maria de Lurdes Pintassilgo na Juventude Universitária Católica. Como é que se aproximaram?
Eu quando fui estudar para o Porto fui viver com as freiras. E dei nas vistas porque com esta voz que Deus me deu, eu cantava tudo. Fazia parte do coral, do orfeão universitário, das danças do Minho. Na verdade Deus deu-me as oportunidades todas e deu-me também a força para as poder apanhar. O meu pai nem sequer queria que eu fosse estudar (porque precisava de braços para trabalhar)... foi preciso convencê-lo, um trabalho da minha professora primária. Quando chegou a altura e fazer as provas e aptidão para a universidade, eu vim a Coimbra, convicta de que ia para Medicina. Queria ser cirurgiã.

E porque é que acabou em Farmácia?
Por ser mulher! Havia um médico nosso vizinho - que era uma espécie de consultor espiritual para a educação das filhas, eu e a minha irmã - e que conseguiu demover-me. "Tu como cirurgiã vais ser uma desgraça. As mulheres não têm mãos para serem cirurgiãs", disse-me. E assim fui para Farmácia, com a promessa de que os meus pais comprariam uma farmácia na Mealhada (havia duas), cujo proprietário estava para se aposentar. Só que a minha vida não foi isso.

Mas acedeu...
​​​​​​​Eu vi tanta alegria na cara da minha mãe, que acabei por aceitar essa ideia. Mas quando cheguei a Coimbra, percebi que se quisesse a licenciatura, tinha mesmo que ir para o Porto. E fui. A Faculdade de Farmácia era uma coisa maravilhosa.

E nunca se arrependeu de não ter insistido com a medicina?
Nunca. Penso que descobri aí parte da minha vocação, que daria bem para qualquer ramo da Saúde.

Por tratar dos outros?
​​​​​​​Porque eu gosto dos outros. E a arma que tinha em Farmácia, também arranjaria noutra área qualquer.

E como é que se conheceu, afinal, Maria de Lourdes Pintasilgo?
Numa reunião da Juventude Universitária. Quando ela começa a falar da força das mulheres, dos direitos das mulheres e dos direitos humanos que em Portugal não se respeitavam... percebi o quanto me identificava com ela. Ela sempre me deu força, a vida toda.

Enquanto estudante tornou-se ativista, nesse tempo de ditadura?
Eu vivi muito bem os meus cinco anos de faculdade. Era lá que havia a única associação de estudantes, que organizava torneios de pingue-pongue entre todas as faculdades, aquilo era mesmo para mim. Fui logo tesoureira!

Mas nessa altura não era ativista política?
​​​​​​​Não. Era contra o Salazar, mas não ativista.

Quando acontece a Revolução de 25 de Abril já estava a trabalhar, no Centro Hospitalar de Coimbra. Como é que tomou consciência da importância de passar à ação?
Foi ainda antes, quando trabalhei no Hospital de São José, em Lisboa (só vim trabalhar para Coimbra em março de 1974). Tive muita sorte. Comecei a sair com colegas e a cantar fado com a Celeste Rodrigues (nunca ninguém a respeitou como ela merecia...), que era uma mulher maravilhosa. Tinha dias para os jovens que gostassem de fado puderem cantar, lá em Alfama. Não me lembro de qual foi o fado.

"Quem me ensinou a gostar de política foi a Maria de Lourdes Pintassilgo, chamando-me à responsabilidade da participação ativa na política pela facto de ser mulher. Ainda hoje gosto de escrever MULHER com letra grande".

Tem algum preferido?
Não. Recordo-me é de uma vez cantar "Uma Casa Portuguesa", da Amália, e os colegas me alertarem que era "a canção do fascismo". Nunca mais a cantei.

Ainda gosta de cantar?
Se há um dia em que os meus vizinhos não me ouvem cantar, vêm logo perguntar se está tudo bem comigo. Quando comprei esta casa, há 40 e tal anos, o prédio era quase todo de pessoal do Hospital dos Covões. E como eu sempre gostei muito de cozinhar - não para mim, que chateia-me, mas para muitos - tinha sempre a casa cheia. Sempre foi uma casa para os amigos.

Acredita que teve sorte, naturalmente, ou deu-lhe muito trabalho consegui-la?
Eu acho que a sorte é como o rio Mondego. Se aproveitarmos uma coisinha que vá ali e a conseguirmos apanhar, é nossa, se não...passa a ponte do açude e já ninguém a apanha.

Mas como é que aceita o desafio de se candidatar à Câmara da sua terra?
​​​​​​​Eu vim em 1974 para cá. Entretanto acontece o 25 de abril e a seguir o PREC. E toda a gente, animada, andou envolvida. No Hospital dos Covões havia um grupo grande ligado ao PCP - que era o único partido que estava organizado. Um jovem médico convidou-me também. Mas eu, ou por influência religiosa, ou outra qualquer, não gostava do Partido Comunista. E fiquei perturbadíssima com aquilo. Liguei ao meu amigo capitão de abril. Diz-me ele ao telefone: "Menina, tens que rapidamente escolher um partido político". A minha preocupação era conhecer os programas. Nessa noite ele veio jantar a minha casa e trouxe-mos. Todos. E escolhi o Partido Socialista.

O que é que a fez escolher o PS?
Uma razão que me é intrínseca: o combate às desigualdades. Se ler, percebe que é uma conduta de ética, não é ideologia nenhuma: os homens são todos iguais, com direito à sua dignidade, e os que governam têm - ou teriam - a obrigação de preparar as coisas para esse efeito. Não foi sempre assim, mas foi durante muito tempo. Entretanto, há eleições no Centro Hospitalar e eu concorri, claro. Fui eleita para o Conselho de Gerência, então presidido pelo Dr. Santana Maia. Então eu disse-lhe que me queria candidatar à Câmara da Mealhada. Ele disse-me: "oh menina, tenha juízo, deixe a política para os homens, que nós precisamos muito de si aqui".

E aí sentiu que ser mulher a estava a impedir, outra vez, de avançar?
Claro! Ora se eu já não tinha ido para cirurgiã por causa disso, agora não ia deixar que acontecesse o mesmo. Nessa noite fui à Mealhada, falar com os meus pais, saber a opinião deles. O meu pai pôs logo as mãos à cabeça, que eu só ia arranjar problemas e má fama. Até me disse que se eu fosse, não me reconheceria como filha enquanto estivesse na câmara. A minha mãe vinha a entrar. Sentámo-nos no rebate da porta. E diz-me ela: "qual é a dúvida? Não há nada que não se vença com o trabalho". E tomei a decisão nesse dia mesmo. No dia seguinte, chego ao hospital e o dr. Santana Maia chama-me: "Estive a pensar, tu não és menina para andar contrariada, mas só vais se me prometeres que só ficas um mandato, no caso de ganhares".

Foi por isso que só fez um mandato?
Claro. Foi a minha palavra.

E pensava ganhar?
Claro! Fiz a campanha toda entusiasmada. Tinha 36 anos.

Quando chega à Câmara, percebe que tinha que fazer tudo o que pudesse rapidamente, uma vez que só tinha um mandato?
​​​​​​​Eu não sou de engonhar. Não sabia ao que ia, não fazia ideia do que aquilo era. Mas gostei muito da campanha eleitoral... ainda hoje gosto.

A sua passagem pela autarquia fica marcada por uma grande preocupação com o apoio às crianças, através da criação de uma rede de jardins de infância. A Odete Isabel não tinha filhos. Como é que percebeu essa importância?
Porque já tinha sobrinhos. E quando comecei a andar pelo concelho percebi as diferenças. Na altura, quem se preocupava com o apoio à infância era Bissaya Barreto (com as casas da criança) e Calouste Gulbenkian, com os infantários. Próximo da casa da minha irmã, em Aveiro, havia um desses últimos, onde os meus três sobrinhos andaram. O rapaz, ainda pequenito, um dia chega a casa muito contente porque já sabia "a casa dos 2", da tabuada. Passado um tempo, percebi no terreno como é que eles eram uns privilegiados, em relação às crianças da mesma idade. Fui um dia a Barcouço - que tinha uma grande cooperativa - e numa ida à fonte ouço crianças a chorar; junto a uma vinha, onde as mães andavam a vindimar, estavam as crianças dentro de canastras e cestos, sozinhas. Nessa altura, lembrei-me do meu sobrinho. Como é que ele não havia de estar tão à frente daquelas crianças...

"Eu faço com a religião o mesmo que faço com o PS: deixei de ser católica praticante, acredito em Deus, continuo a acreditar nos seus princípios, mas não vou à missa".

E o que fez, a seguir?
Liguei a uma amiga que trabalhava na Segurança Social, em Aveiro, para que me dissesse como havia de fazer infantários, para que aquelas crianças não ficassem entregues à sua sorte, enquanto os pais trabalhavam. Logo a seguir fiz um levantamento de todas as crianças, entre os 3 e os 6 anos. Nas localidades onde tinham 35 ou mais, fez-se infantário.

E as mais pequenas?
Foi o que eu perguntei! Ela disse-me que haveria maneira, através de amas, e ajudou-me muito nisso. Aliás, eu só fiz o que fiz, porque tive ajuda de muita gente. E a força das pessoas. Nesse processo, zanguei-me com o padre - ele era um PPD, e não gostava nada de ver ali uma mulher socialista na Câmara. A verdade é que conseguimos chegar a todo o lado e criar uma rede de infantários em todas as freguesias.

Essa foi a sua grande obra na Mealhada?
​​​​​​​Foi. E sabia que não tinha tempo para fazer muito mais, porque tinha o compromisso de voltar ao hospital. Um deles tem o meu nome. Mais tarde quiseram tirá-lo, mas a população não deixou.

Já disse algumas vezes que ser mulher, naquela altura, era uma grande desvantagem. Já não é? Ou só é menos?
É menos. Mas ainda é. Primeiro porque ainda há muitas mulheres que vão para determinados lugares e não sabem defender e honrar a causa feminina. Durante toda a minha vida foi percebendo que a humanidade é uma ave, com duas asas: uma delas é constituída pelos homens, a outra pelas mulheres. O equilíbrio das compatibilidades sempre fez parte da minha vida, até como farmacêutica. Se não houver equilíbrio no desenvolvimento das duas asas a ave não pode voar.

Apesar de crente, não deixa de responsabilizar as religiões pelo atraso na emancipação da mulher, nomeadamente o cristianismo, por invocar o pecado. Disse-o nos 20 anos da maçonaria feminina [de que faz parte] em Portugal. Quando é que tomou essa consciência?
Eu nunca gostei muito que me dissessem "não podes ir por aí". E depois do que aprendi com a Maria de Lourdes Pintassilgo, sempre tive um grande orgulho em ser mulher, acima de tudo. Não se esqueça que eu nasci, cresci e fiz-me adulta durante o fascismo. E tive a sorte, como uma árvore que está a florir, de viver o 25 de Abril. Foi a minha primavera de vida, que me tornou uma mulher livre. Veja por exemplo, no casamento, aquela jura de ser fiel até à morte. Isso não é liberdade. Mas eu sei que estou fora dos cânones, sempre estive. E ainda bem. Eu faço com a religião o mesmo que fiz com o PS: deixei de ser católica praticante, acredito em Deus, continuo a acreditar nos seus princípios, mas não vou à missa.

Chegou a ser expulsa do PS, quando fundou um movimento independente para concorrer à Câmara da Mealhada.
Sim, fui. Entreguei o cartão e disse: fiquem com ele, porque a marca não me tiram. Serei socialista até morrer. Depois disso o PS pediu-me desculpa, e homenageou-me.

Qual é atualmente a sua intervenção cívica? O MOI (Movimento Odete Isabel, um dos primeiros movimentos independentes em Portugal a concorrer a uma câmara, em 2001, na Mealhada) ainda existe?
Para o que me chamam. O MOI passou a ser associação cultural.

Depois de aposentada continua a ser uma vida atarefa?
​​​​​​​Sempre, quanto mais não seja limpar os livros e os discos.

O que é que ainda lhe falta fazer?
​​​​​​​Gostaria que a Mealhada dedicasse à terceira idade o mesmo apoio que dedica à infância. Se tivesse oportunidade, era isso que eu faria.

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