Mais de 42 mil idosos vivem isolados. Muitos são vítimas de violência

No Dia Mundial da Consciencialização da Violência Contra a Pessoa Idosa, assinalado ontem, um webinar trouxe ao debate uma realidade que a pandemia destapou. Ao mesmo tempo começava em Alcobaça o julgamento de um filho que agrediu o pai, de 91 anos.

"Não tenho palavras para descrever o ato que fiz, sinto muita vergonha". Foi assim que se dirigiu ao Tribunal o arguido do caso de violência contra um idoso, que começou esta semana a ser julgado em Alcobaça. Os factos remontam ao ano passado, e constam de um vídeo que correu pelas redes sociais e televisões, mostrando um homem que agredia repetidamente um idoso, seu pai, de 91 anos, com um cinto, em plena via pública. Aconteceu a 13 de junho de 2020 e trouxe de novo para a praça pública a violência contra idosos.

O arguido, de 60 anos, está agora a ser julgado pelo crime de ofensa à integridade física qualificada. Mas muitos casos não chegam sequer ao conhecimento de terceiros, tão pouco da Justiça. De resto, a pandemia veio destapar não apenas essa franja da realidade, como um drama mais vasto: isolamento social é uma realidade que atinge mais de 42 mil idosos em Portugal, tanto em meios rurais como urbanos.

Durante a tarde de ontem foi esse o mote para um debate em que participaram cerca de 200 pessoas, em formato digital. A iniciativa, da Asserbiz, aconteceu no âmbito do Dia Mundial da Consciencialização da Violência Contra a Pessoa Idosa, assinalado a 15 de junho.

A ideia de sensibilizar a sociedade para a mudança de comportamentos que ajudem a combater esta problemática e, também, para dar voz a quem já trabalha no terreno, partiu de Nuno Seleiro, responsável da Asserbiz, uma micro empresa dedicada à tecnologia para eventos. "Lembrei-me porque passamos a vida a ajudar grandes marcas e instituições a fazer este tipo de eventos. E pensámos que seria interessante despoletar esse debate, ligando pessoas de todos o país. À hora de fecho desta edição ainda decorria o webinar "Solidão e Isolamento dos Idosos - Presente e Futuro".

"Sendo Portugal um país fortemente envelhecido, marcado pelo forte isolamento social desta faixa etária da população, torna-se fundamental encontrar formas de combate a este flagelo. Este foi o ponto de partida para a Asserbiz, que com esta iniciativa pretendeu mostrar o contexto da realidade no interior e em cada zona geográfica, bem como as consequências sociais e económicas. Foi esse contributo que deram os vários oradores e organizações especializados na área social, com testemunhos de técnicos de ação social, psicólogos, entre outros profissionais que acompanham de perto casos de idosos que vivem em profunda solidão e isolamento.

Os dados da operação Censos Sénior 2020 revelam que o isolamento é uma realidade que atinge mais de 42 mil idosos em Portugal. É no distrito de Vila Real que se contra o maior número de casos.

Combater o isolamento através da música

Quando Tiago Pereira começou a percorrer o país, em 2011, à procura do povo que canta (como lhe chamou Michel Giacometti, no início dos anos 70), Portugal estava mergulhado (só) numa crise económica. Era outro o país que ele e um punhado de entusiastas foram mostrando, através do projeto "A música portuguesa a gostar dela própria", gravando sons e vozes e difundindo tudo através da rádio, da tv, e de outras plataformas digitais. Quase uma década depois, aconteceu o que alguns desses protagonistas já não testemunharam, mas muitos outros viveram - um isolamento social sem precedentes, à boleia de uma pandemia. E com isso, "outros aspetos menos explorados da "música portuguesa a gostar dela própria" vieram ao de cima: o que fazíamos, gravar pessoas dentro das suas comunidades, mais afastadas dos centros urbanos, ao ar livre, dando-lhes o espaço para poderem ser o que quiserem e ativando uma escuta social... já lá estava, o que acontece agora é que as pessoas estão mais isoladas e mais longe dos seus familiares", contou ao DN Tiago Pereira, diretor artístico do projeto, quando venceu a oitava edição do prémio Maria José Nogueira Pinto, promovido pela farmacêutica MSD.

Por todo o país têm nascido projetos de combate ao isolamento, enfatizado pela pandemia. Durante a tarde de ontem ouviram-se os testemunhos de alguns desses protagonistas: Diana Fradigano, coordenadora do projeto "Nós e (A)vós", que no âmbito do programa Portugal Inovação Social tem chegado à população do Avelar (concelho de Ansião), através da Escola Tecnológica e Profissional da Sicó. No mesmo distrito de Leiria destaca-se também o projeto do CLDS 4G "Aproximar Pedrógão". E é no Instituto Politécnico de Leiria que nasceu o projeto de inovação social "AGILidades", desenvolvendo jogos para idosos e cuidadores. Marlene Rosa, responsável pelo projeto, foi outra das oradoras convidadas, bem como Igor Rosa, responsável pelo projeto "ao lado", em Oeiras. A psicólogo Maria João Gonçalves, que a partir de Massarelos (Porto) acompanha idosos que vivem em profunda solidão, tal como Lisete Gonçalves. O webinar contou também com a participação de Afonso de Herédia, investigador na área do envelhecimento e coordenador da equipa de psicologia em vários projetos de intervenção psicossocial.

NÚMEROS

42.439 Idosos

É o número identificado pela operação da GNR Censos Senior 2020 nos 18 distritos do país, sinalizando que vivem sozinhos ou em situação de vulnerabilidade.

767 Lisboa

Apesar da dimensão, o distrito de Lisboa é aquele onde se registaram menos idosos em situação de vulnerabilidade.

857 Porto

A norte, o Porto suplanta os números da capital, em matéria de idosos isolados.

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