Lutando com a linguagem do amor

Eu era uma iniciada na língua árabe. Gostava imenso dela e estava a tentar aprendê-la. Eu sabia dizer "hospital", mas não "emergência", "amor", mas não "paixão", "guerra", mas não "guerra civil". O médico e eu queríamos ser escritores, assim, no nosso tempo livre estudávamos para atingirmos a eloquência. Por vezes perguntava-lhe: "Como é que podes amar-me quando falo um árabe tão fraco?"

Ouvimos falar muitas vezes sobre como é difícil ser-se fluente numa língua estrangeira mas, quando comecei a estudar árabe, o que me levou muito tempo a aprender não foi como falar, mas sim como ouvir.

Olhando para trás, vejo que a minha incapacidade para ouvir bem custou-me o meu primeiro amor.

O homem que eu amava era um médico iraquiano. Jovem como eu, ele tinha sido forçado a sair do seu país devido à guerra e tinha vindo para a Síria para trabalhar num campo de refugiados. Isso foi em 2008, antes da revolução.

Eu estava na Síria para estudar árabe. Conhecemo-nos nesse campo e, durante o ano que se seguiu, nós estávamos constantemente a apaixonar-nos e a desapaixonar-nos, acabando e recomeçando, abrindo os nossos corações e discutindo, principalmente por causa de tudo o que ele queria dizer-me e que eu não entendia.

Fizemos tudo isso em árabe, a língua materna dele e a minha segunda língua. O médico e eu estávamos ambos sozinhos em Damasco. Ele dizia que me amava desde que falámos pela primeira vez porque eu lhe fiz uma pergunta. Isso significava que eu era curiosa e estava pronta para aprender.

Não me lembro da minha pergunta. Do que me lembro é da poeira, que era opressiva, e do sol, que não parava de nos fustigar, e de todas as tendas brancas remendadas, que se espalhavam a partir da ambulância do médico como as pétalas de uma flor.

Entrei na ambulância para sair do sol. O médico estava a embalar um bebé que chorava e que, quando ele lhe tocou, se acalmou e adormeceu. Pensei: quero que este homem goste de mim tanto quanto eu gosto dele. Mas o meu árabe não era suficientemente bom, por isso limitei-me a ficar a olhar para o médico e ele olhou-me de volta.

Depois, ele ligou-me. Encontrámo-nos num café. Ele enviou-me um poema. Eu não entendi o poema, o que não tinha importância; estávamos destinados a amar-nos. Eu era uma iniciada na língua árabe. Gostava imenso dela e estava a tentar aprendê-la. Eu sabia dizer "hospital", mas não "emergência", "amor", mas não "paixão", "guerra", mas não "guerra civil".

O médico e eu queríamos ser escritores, assim, no nosso tempo livre estudávamos para atingirmos a eloquência. Por vezes perguntava-lhe: "Como é que podes amar-me quando falo um árabe tão fraco?"

Ele assegurava-me que conseguia ouvir a beleza contida nas minhas frases mal construídas. Nós não nos preocupávamos se eu o achava eloquente, pois o árabe era a sua língua materna. Ainda não tínhamos aprendido a lição de que os limites do vocabulário não estão apenas no bem que se fala, mas também no bem que se escuta.

A minha falta de fluência era expectável, assim como a eloquência dele. Nós adorávamos a especificidade e o pormenor, e o médico usava muitos pormenores nas suas histórias. Mas o meu vocabulário árabe era tosco e genérico, por isso eu ouvia-o de forma tosca e genérica.

Fomos a uma palestra. No meio, o médico escreveu no meu bloco de notas: "Tu ficas linda de óculos."

Eu não sabia a palavra para óculos, por isso li: "Tu és linda."

Ele escreveu: "Estou a imaginar-te num banho de pétalas de rosa."

Eu não sabia a palavra para pétalas de rosa, assim o que li foi: "Tu banho." Será que eu cheirava mal?

Aprendemos as palavras de que mais precisamos. Eu tinha crescido numa cidade pequena e protegida, por isso o meu vocabulário de guerra era limitado. Mas a guerra tinha afetado o trabalho do médico, a sua casa, o seu primeiro amor (que não eu) e o sentido da sua existência.

"Lembro-me das bombas que caíam quando estava nas urgências", disse ele, e eu compreendi que tinha havido uma bomba, mas não como tinha caído perto do hospital ou como, apesar do terror, ele tinha continuado a trabalhar com as mãos a tremer.

Os nossos problemas pioraram quando o médico ligou e me contou qualquer coisa enquanto eu estava a trabalhar, mas eu não percebi o que ele disse e, como estava no meio de uma coisa, respondi-lhe que estava ocupada e perguntei-lhe se ele poderia voltar a ligar mais tarde.

Mais tarde, quando voltámos a falar, ele disse: "Tu não tens coração. Eu disse-te que houve um incêndio no campo. Várias pessoas ficaram feridas. Duas perderam as suas casas. E tu respondeste: "Liga mais tarde, estou ocupada"?"

Senti o coração apertado. "Sinto muito", disse-lhe. "Não ouvi o que disseste."

"Alguma vez me ouves?"

Claro que existem muitas maneiras de ouvir uma pessoa; nem sempre é através da fala. Naquela noite, porém, ficámos presos nas palavras.

Depois disso continuámos a ver-nos, mas já não era a mesma coisa. Passado pouco tempo a minha bolsa terminou e eu regressei a casa.

Achei que não devia ter sido realmente amor. Como é que o médico me poderia amar quando eu não o entendia? E se eu não conseguia entendê-lo ou conhecê-lo completamente, como o poderia amar?

Acreditei nisto durante muitos anos. Ainda cheguei a ter algumas vezes notícias do médico, mas estávamos longe, com um oceano entre nós, e eu já não acreditava que nos tivéssemos realmente amado.

Então conheci o homem que viria a ser meu marido, um estudante de cabelos compridos que tinha vindo do Brasil para os Estados Unidos estudar biologia. Quando ele apareceu de bicicleta no prédio onde eu morava, o meu coração quase parou. Ele conhecia todos os termos científicos em inglês, mas não sabia palavras simples como "acreditar" ou "pente".

E, no entanto, depois de nos termos conhecido eu só queria estar com ele. Eu queria abrir o meu coração, falar e ouvir. E se calhava alguém questionar o nosso amor (porque aconteceu muito depressa, em dois meses), ou se ele questionava a minha devoção (porque não falamos a mesma língua fluentemente), isso era uma como uma lança espetada diretamente no meu coração.

Assim, dei comigo na posição do médico. E percebi que às vezes pode ser suficiente apenas dizer as palavras, independentemente de o nosso amante as compreender ou não; às vezes apenas o querer falar é suficiente.

O médico tinha dito uma vez: "Tu conheces-me como eu te conheço, e se isso ainda não for verdade, então algum dia sê-lo-á." Ele tinha tido fé no futuro.

Eu adorava a maneira como o meu marido olhava quando me ouvia. Ele inventou jogos que não exigiam falar. Ele não escrevia poesia em inglês, mas fazia desenhos em pedaços de papel e deixava-os pela casa para mim e, assim, eu sabia o que ele sentia.

O que é que eu tinha feito para mostrar ao médico o que sentia por ele?

Ao longo dos anos continuei a estudar árabe e a minha fluência aumentou. Quando comecei a traduzir para pessoas de países devastados pela guerra ganhei um vocabulário especializado.

Armada com o meu novo vocabulário voltei aos poemas do médico. Tirei-os da caixa antiga onde os guardara, um por um. Para minha alegria, descobri que o médico era eloquente; ele escrevia com precisão e convicção.

Voltei à sua história sobre o bombardeamento e compreendi então como no meio da cirurgia as suas mãos tremiam tanto que ele não sabia se conseguiria terminar. Mas tinha um paciente diante dele, por isso fez das tripas coração, continuou a cirurgia e o paciente sobreviveu. A coragem de tudo aquilo.

Fiquei a saber coisas terríveis. Sobre as formas exatas como ele havia sido torturado e espancado. Sobre a estranheza das ameaças de morte que ele havia recebido simplesmente porque era bom no seu trabalho. Aprendi que às vezes ser-se bom é uma coisa muito perigosa.

E, finalmente, depois de tantos anos, fiquei a conhecer o seu sentido da beleza. Ele escreveu um poema sobre uma flor de jasmim que floresceu encravada entre a poeira e o gelo de um deserto invernoso.

Se ele tinha pretendido que essa flor nos representasse já não era importante. O que importava era que as suas palavras durassem, tão bonitas agora como tinham sido antes. As suas palavras tinham perdurado até que eu as conseguisse ouvir e entender. Anos depois de o médico e eu termos terminado, eu conhecia-o finalmente.

Ele é agora casado e vive na Suécia, onde trabalha para a Cruz Vermelha. Pouco depois de eu ter saído da Síria, ele meteu-se em problemas devido às suas convicções políticas e foi obrigado a fugir. Como refugiado com um passaporte inseguro, fez a difícil viagem pela Turquia, atravessando o mar num barco instável - cinco anos antes de milhares de refugiados sírios, fugindo da sua própria guerra, fazerem a mesma viagem.

Ele ainda escreve poemas, que costumavam ir para o ar na rádio local e que eram tão populares que as pessoas telefonavam e pediam para ouvir O Médico do Amor. Eu ouvi o programa, usando o dicionário para ver as palavras difíceis.

Talvez, no final, os seus poemas sejam a dádiva do nosso romance, juntamente com esta lição: mesmo passados vários anos, podemos aprender com uma relação. Não há prazo para a compreensão. E, assim como se pode amar intuitivamente, sem uma língua comum, pode-se também ficar maravilhado, anos mais tarde, com o significado perfeito de uma palavra dita em tempos e mal compreendida.

É de amor que se fala nesta coluna, a mais lida do the New York Times. histórias verdadeiras, contadas pelos leitores. Leia-as no DN aos domingos

Mais Notícias

Outras Notícias GMG