Lisboa pode correr o risco de atingir 240 casos diários por 100 mil habitantes, mas com controlo

Carlos Antunes da equipa da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, que faz modelação da doença desde o início da pandemia, defende que a capital pode tentar controlar situação sem recuar no desconfinamento. Só é preciso testagem e vacinação.

Há uma semana, os efeitos dos festejos do Sporting não eram visíveis no aumento de casos de covid-19 em Lisboa. Agora, já são. De acordo com o professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, Carlos Antunes, que integra a equipa que faz a modelação da doença desde o início da pandemia, o aumento de casos registados até há uma semana ainda eram resultado da última fase do desconfinamento, que teve início a 4 de maio.

Na altura, o professor afirmou ao DN que o R(t) estava a aumentar desde esta altura e que o impacto dos festejos do Sporting não deveria ser significativo, pois as estimativas feitas com base numa população de 100 mil pessoas na rua indicavam entre quatro a oito casos por cada grupo de 10 mil de adeptos.

Mas, agora, argumenta ao DN que "não há eventos familiares que reúnam mais de mil pessoas que possam justificar o aumento de casos em Lisboa. O único evento desta dimensão, embora nunca se tenha chegado a saber o número de pessoas que pode ter estado presentes, foi o dos festejos da vitória do Sporting", contrariando assim as declarações de António Costa ontem à tarde sobre a s razões que poderiam ter levado Lisboa a esta situação. O primeiro-ministro referiu que os surtos identificados "estão bem localizados" e que a maior parte está relacionada com "eventos familiares" e não com o Sporting ou com o turismo.

Neste momento, "o aumento de transmissibilidade da doença já atinge todas as faixas etárias, desde as mais novas até aos 60 e 70 anos". O professor explica ainda que, na semana passada, as estimativas feitas tinham em conta o aumento de casos que só estava a ser registado nas faixas etárias mais jovens. "A transmissão era visível só nas faixas etárias entre os 20 e os 40 anos, mas, nesta semana, a transmissibilidade já é da ordem dos 3,5% em todas as faixas etárias. Só a faixa dos 80 anos, que já está com uma cobertura vacinal de mais de 90%, é que não registou novos casos".

Por isso, reforça, a única relação de causa e efeito para esta situação tem a ver com um evento de massa, como os festejos do Sporting, acrescentando que "os concelhos vizinhos já estão a ser atingidos em termos de transmissibilidade. Almada, Amadora, Cascais e Loures começam a registar mais casos, segundo nos é possível observar na informação que nos é disponibilizada. Mas em Oeiras, Sintra, Odivelas e Vila Franca de Xira tal ainda não está a acontecer."

Aumento de casos não se traduz nos internamentos

No dia de ontem, a região de Lisboa e Vale do Tejo registou 175 casos dos 375 notificados a nível nacional. E, segundo as estimativas da Faculdade de Ciências, Lisboa caminha a passos largos para atingir os 150 casos diários por 100 mil habitantes ainda esta semana. Como explica Carlos Antunes, no dia 22, sábado, Lisboa tinha 135 casos por 100 mil habitantes, três dias depois a taxa de incidência já aumentou, passando para 145 casos por 100 mil habitantes, e o R(t) também mantém "uma tendência de subida há mais de oito dias".

Na próxima semana, a capital pode atingir os 180 casos diários por 100 mil habitantes, mas Carlos Antunes diz que as autoridades até podem assumir o risco de deixar que Lisboa atinja uma taxa de incidência de 240 casos por 100 mil habitantes sem recuar no desconfinamento, porque, sublinha, o aumento de casos não está a traduzir-se num aumento de internamentos nem de óbitos.

O que quer dizer que a doença está afetar os mais novos e, se calhar, de forma mais ligeira, portanto, não há pressão nas unidades de saúde, o que o professor Carlos Antunes defender ainda que: "É um risco chegar até aos 240 casos por dia sem recuar no desconfinamento, mas é preciso perceber que tal poderá ser necessário porque Lisboa é Lisboa. Não é uma questão de regionalismo, é uma questão de dimensão. Não é a mesma coisa colocar concelhos como os de Resende ou de Odemira em confinamento ou colocar Lisboa".

No entanto, sublinha o especialista, "este risco só pode ser corrido se a testagem em massa avançar já, porque não se pode deixar descontrolar ainda mais a situação". O professor da Faculdade de Ciências, que na semana passada tinha alertado para a redução da testagem no país, argumenta que esta é a única arma que temos até agora para o controlo eficaz. Carlos Antunes acredita que o Governo já está a reagir, mas, "a meu ver, já deveria ter reagido, já se deveria estar a fazer isto".

De acordo com o boletim diário de ontem da Direção-Geral da Saúde (DGS), havia 237 doentes internados com covid-19 e 52 em cuidados intensivos. E, segundo referiu ontem à tarde, na conferência de Imprensa que decorreu no Instituto Nacional de Saúde Ricardo Jorge, o diretor do Departamento de Informações da DGS, André Peralta, Lisboa está com 143 casos por 100 mil habitantes, com um R(t) de 1.14 a 14 dias, sendo os valores mais elevados do país.

O governo já anunciou que vai antecipar a testagem em massa em vários setores da sociedade.

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