Lisboa não deve avançar para nova fase. "É difícil baixar incidência"

A capital passou a linha vermelha da incidência. O relatório de monitorização do INSA, a ser publicado hoje, irá esclarecer a situação. A hipótese de avançar parece remota. O mais provável é que se mantenha na 4.ª fase de desconfinamento ou que recue à 3.ª fase.

Na sexta-feira da semana passada, o relatório do Instituto Nacional de Saúde Ricardo Jorge (INSA) indicava que, a manter-se a taxa de crescimento registada, a região de Lisboa e vale do Tejo atingiria a taxa de incidência acumulada a 14 dias de 120 casos por 100 mil habitantes em 15 a 30 dias.

Mas Lisboa, enquanto concelho, já está à frente deste valor. Segundo a equipa da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa que faz a modelação da evolução da doença desde o início da pandemia, a capital está com uma incidência de 177 casos por 100 mil habitantes, podendo atingir os 240 casos a 13 ou 14 de junho.

Para alguns especialistas a situação é preocupante e Lisboa tem dez dias para tentar reduzir o R(t) - índice de transmissibilidade - e a incidência, embora, seja quase certo, que "muito dificilmente a capital conseguirá passar ao próximo nível de desconfinamento", a vigorar a 14 de junho.

Mais. A capital, com esta incidência, arrisca mesmo recuar no passo que já deu a 1 de maio. Ou seja, regressar à terceira fase de desconfinamento e a mais restrições. De acordo com as medidas apresentadas pelo governo nesta quarta-feira, uma incidência de 120 casos por 100 mil habitantes suspende o avanço de um concelho à fase seguinte, e se a incidência atingir os 240 casos o concelho recua.

Lisboa é um dos seis concelhos em alerta. E, mais uma vez, vários especialistas contactados pelo DN apelam à responsabilidade individual no cumprimento de regras, porque "a pandemia ainda não acabou", volta a reforçar a pneumologista Raquel Duarte, que tem sido convidada pelo governo para elaborar as propostas para cada uma das fases do desconfinamento.

"As pessoas têm de ter a noção de que têm de cumprir o que já sabem. Devem manter as regras de proteção individual, devem manter o conceito de bolha familiar, social e laboral. Não devem andar em festas e todos os eventos em que seja possível a aglomeração de pessoas não podem acontecer. Este é o tipo de situação que não pode mesmo acontecer", reforça.

Regras e comportamentos que comprovaram ser eficazes na redução de risco de transmissibilidade. Por isso, sublinha a médica, "o controlo da situação não pode depender só da lei, mas também da responsabilidade de cada um". Aliás, e como refere, nunca é de mais recordar que, "do ato de cada um vai depender não só a sua proteção, mas a da sua família e de toda uma comunidade". Acrescentando: "Se não queremos medidas restritivas, se queremos continuar a caminhar para uma vida normal, vamos ter de confiar cada vez mais na responsabilidade individual."

Lisboa: semana que aí vem é de risco elevado para o contágio

A semana que aí vem não ajuda Lisboa, podendo mesmo aumentar ainda mais o risco de contágio. Para o epidemiologista Tiago Correia, do Instituto de Higiene e Medicina Tropical (IHMT), é uma fase em que a capital "corre um grande risco. É a semana dos Santos e, com ou sem festejos, vai haver excessos, surpreende-me que se possa pensar que as pessoas não vão sair ou que não se juntem em casa. É notório que os mais novos já desligaram completamente dos comportamentos de proteção", sustentando: "Parece-me difícil que em dez dias o R(t) baixe o suficiente para que a incidência fique abaixo dos 120 casos."

O especialista acredita mesmo que o que vai acontecer é que "Lisboa não avançará para a nova fase do desconfinamento", mas para a situação não agravar ainda mais defende que "é preciso definir já um plano de atuação para os dias seguintes. Não podemos esperar cinco a seis dias para avançar com a testagem em massa, porque aí, se calhar, vamos assustar-nos com o número de casos, pois o risco teórico de chegar aos 240 casos por 100 mil habitantes pode acontecer".

769. Casos Este é o número de novas infeções registado ontem. O boletim diário da DGS dá conta de três óbitos e de um aumento nos casos ativos, 23 343, mais 378 do que no dia anterior.

Ricardo Mexia, epidemiologista e presidente da Associação Portuguesa dos Médicos de Saúde Pública, argumenta ao DN que "a evolução da situação em Lisboa depende muito da aposta nas medidas individuais" e que tal "é um desafio comunicacional, que não tem funcionado desde o início da pandemia. Quando as pessoas veem acontecer determinadas situações, como os adeptos ingleses no Porto ou os festejos do Sporting, depois torna-se muito difícil que cumpram as regras definidas".

A situação de Lisboa é uma preocupação, sobretudo quando os modelos matemáticos indicam uma incidência de 177 por 100 mil habitantes, podendo chegar-se aos 240 casos numa semana, o que faz Ricardo Mexia mencionar: "Provavelmente, o modelo matemático está a estimar por baixo, porque sabemos que, na semana que vai entrar, de festividades populares, haverá encontros entre as pessoas." Portanto, o que assusta "é que seja o que for que os modelos matemáticos estejam a projetar, é provável que a realidade seja um pouco mais negativa".

Questionado sobre se é possível inverter a tendência em Lisboa, Ricardo Mexia, diz: "Possível é, mas ou mudávamos hoje uma série de coisas no que diz respeito à comunicação e à testagem ou então é difícil alcançar isso neste horizonte temporal", reforçando: "Ou somos mais assertivos já agora e claros para que as pessoas percebam que, apesar desta aparente normalidade, a pandemia ainda não acabou, que não estamos nessa fase, ou então podemos ter um aumento nos internamentos e na mortalidade, como de resto está acontecer em algumas zonas do Reino Unido."

O médico alerta também para a necessidade da mensagem passada: "É preciso fazer com que as pessoas percebam que podem realizar um conjunto de atividades, que estão permitidas, desde que cumpram as regras. E há que promover ainda mais a testagem massiva nos contextos em que há maior incidência, como é o caso de Lisboa, para se identificar quais são as cadeias de transmissão e quebrá-las."

É preciso controlar situação senão haverá mais internamentos, inevitavelmente

Em relação a Lisboa, Raquel Duarte diz ser preciso perceber se o aumento que tem sido observado é o resultado do reforço do rastreio e do trabalho da saúde pública - ou seja, se estes casos estão a surgir porque se está a conseguir identificá-los precocemente com testagem em grupos vulneráveis ou em áreas geográficas e laborais de maior risco e com maior incidência - ou se está a resultar de pessoas já com sintomas e de cadeias de transmissão que não são conhecidas. De qualquer forma, é "preciso controlar a situação", refere.

385. Este é o número de infeções registadas ontem na região de Lisboa e Vale Tejo. São mais do que os registados nas restantes regiões continentais: norte (242), centro (54), Algarve (36) e Alentejo (12).

"A saúde pública está a fazer trabalho no terreno e quanto mais rápido e precoce for, melhor." Por isso, explica, "é que defendo que se deve manter o limite dos 120 casos por 100 mil habitantes, porque, a partir do momento que começa a haver muitos casos, torna-se cada vez mais difícil de fazer de forma rápida os inquéritos epidemiológicos, para depois se implementar medidas. Senão for assim, corremos o risco de voltarmos a ter o que aconteceu no ano passado, inquéritos epidemiológicos em atraso, e isso significa que podemos ter contactos positivos na comunidade que não sabem que estão infetados".

Raquel Duarte, que também é coordenadora da Unidade de Investigação da ARS Norte, defende ao DN que, neste momento, a nível nacional "estamos bem, mas estamos numa fase em que precisamos ter muito controlo na situação. E este tem de ser local e concelhio, não podemos deixar que o número de casos aumente acima dos 120 por 100 mil habitantes, porque uma coisa é ter uma incidência de 120 por 100 mil num concelho que tem 4 ou 5 mil habitantes, outra é ter 120 num concelho que tem milhares de habitantes", como é Lisboa ou até o Porto. "O denominador é muito grande, são muitos casos a poder estar a transmitir na comunidade, o que pode escalar rapidamente para valores muito elevados. E se a incidência aumentar muito, inevitavelmente voltaremos a ter internamentos, embora com outros grupos etários."

Um ano depois, já tratamos a pandemia por tu, já nos habituámos a ela, a vacinação está a ter eficácia, isso prova a redução nos internamentos e na mortalidade, mas, agora, há outra "ameaça terrível, a do excesso de confiança", argumenta Raquel Duarte.

Uma ameaça que tem sido comprovada em várias situações, mas a mensagem que deixam os especialistas é a de que é preciso testar mais, vacinar mais, porque, como diz Tiago Correia, com o nível de vacinação que temos, "não é possível mudar a matriz de risco", confessando, no entanto, que nesta quarta-feira, ao ouvir o primeiro-ministro, sentiu que ficou sem respostas, porque "é preciso explicar às pessoas porque não mudou e isso não foi feito". E alerta: "Em relação a Lisboa, agora, não houve reações, porque continua tudo como está, mas a partir de 14 de junho, se houver mais restrições, as pessoas vão reagir e acho que não houve reflexão sobre isso".

As fases de desconfinamento que o país já passou

1.ª Fase 15 de março

Começou com o regresso à escola das crianças no pré-escolar, creches e primeiro ciclo. Com a abertura de cabeleireiros e barbearias e do comércio ao postigo, mas também de livrarias, bibliotecas e arquivos. E retomou-se a atividade do comércio automóvel e da mediação imobiliária.

2.ª Fase 5 de abril

Esta fase marcou o regresso às aulas presenciais para os segundo e terceiro ciclos. Assinalou também o regresso da atividade na restauração. Abriram as esplanadas para grupos até quatro pessoas e as lojas até 200 metros quadrados com porta para a rua. Mas há mais. Os equipamentos sociais na área da deficiência começaram a funcionar. As feiras e mercados não alimentares também e o mesmo aconteceu com as modalidades desportivas de baixo risco. Ginásios reabriram, sem aulas de grupo, e voltou exercício em grupo até quatro pessoas ao ar livre.

3. ª Fase 19 de abril

Restaurantes, cafés e pastelarias abriram e foi permitida a presença de grupos de quatro pessoas no interior e seis na esplanada até às 22h30 durante a semana e 13h00 ao fim de semana e feriados. Há o regresso ao ensino presencial para alunos do secundário e ensino superior. Abriu todo o comércio, incluindo centros comerciais, mas com encerramento às 21h00 durante os dias úteis e às 13h00 aos sábados, domingos e feriados. Abrem também cinemas, teatros, auditórios e salas de espetáculo, até às 22h30 durante os dias de semana e às 13h00 aos sábados, domingos e feriados. Atendimento presencial nas lojas do cidadão, desde que com marcação prévia. Voltam as modalidades desportivas de médio risco, atividade física ao ar livre para grupos até seis pessoas, eventos exteriores com diminuição de lotação (cinco pessoas por 100 metros quadrados), festas de casamento e batizado, com limite de ocupação dos espaços de 25%.

4.ª Fase 1 de maio (atual e até 14 de junho)

Restaurantes, cafés e pastelarias funcionam mas ainda com limitação condicionada a um máximo de seis pessoas por mesa no interior e dez pessoas por mesa nas esplanadas. É permitida a prática de todas as modalidades desportivas e toda a atividade física ao ar livre. Os ginásios podem funcionar com aulas de grupo e a lotação para casamentos e batizados passa a estar limitada a 50% do espaço. E passam a funcionar todas as instalações desportivas onde ocorrem prestação de serviços até às 22h30, volta a atividade dos equipamentos itinerantes de diversão, os parques de diversão infantil, parques aquáticos. Os restaurantes e espetáculos funcionam até às 22h30 e o comércio em geral até às 21h00 nos dias de semana e até às 19h00 nos fins de semana e feriados. Os restaurantes em centros comerciais funcionam também até às 22h30 nos dias de semana e até às 19h00 nos fins de semana e feriados.

As medidas que vêm a seguir e que Lisboa arrisca a não adotar

1.ª Fase 14 de junho

Teletrabalho recomendado nas atividades que o permitam; restaurantes, cafés e pastelarias (máximo de seis pessoas no interior ou dez pessoas em esplanadas) até à meia-noite para admissão e 01h00 para encerramento; comércio com horário do respetivo licenciamento; transportes públicos com lotação de dois terços ou com a totalidade da lotação nos transportes que funcionem exclusivamente com lugares sentados; espetáculos culturais até à meia-noite; salas de espetáculos com lotação a 50%. Fora das salas de espetáculo, com lugares marcados e com regras a definir pela DGS. Escalões de formação e modalidades amadoras com lugares marcados e regras de acesso definidas pela DGS. Recintos desportivos com 33% da lotação.

2.ª Fase 28 de junho

Desporto: regressam os escalões profissionais ou equiparados com 33% da lotação (regras de acesso a definir pela DGS). Lojas de Cidadão: funcionam sem marcação prévia; Transportes públicos: sem restrição de lotação.

Concelhos em alerta

Braga

Cantanhede

Castelo de Paiva

Lisboa

Salvaterra de Magos

Vale de Cambra

Concelhos que se mantêm na 3.ª Fase

Odemira

Golegã

Concelhos que avançam

Arganil

Montalegre

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