José Ferreira Machado: "O investimento no Campi 21 rondará os 300 milhões de euros"

A Universidade Nova de Lisboa está a dar início a um megaprojeto intitulado Nova Campi 21 e que envolve a concentração das suas faculdades em três grandes polos - Campolide, Carcavelos e Almada. Este último será uma verdadeira cidade com 400 hectares. O vice-reitor da universidade explica o projeto.

Queria que começasse por me explicar o que envolve o Nova Campi 21? Qual é a filosofia destes novos campus?
O projeto Nova Campi 21, de uma forma muito sumária, é um projeto de articulação da criação de conhecimento com a criação de lugares onde as pessoas queiram viver, lugares virados para o século XXI, lugares respeitadores do planeta. No fundo, é também um projeto de placemaking. Se me perguntar o que é que há de único no projeto Nova Campi 21, a um nível muito genérico, é a ideia de construir conhecimento ao mesmo tempo que se constrói cidades e integrar o conhecimento nas cidades.

Pode dizer-se que a Nova SBE é uma espécie de embrião desta nova Nova?
A SBE é um molde porque é um campus novo, um campus aberto, que não tem fronteiras físicas. Eu costumo dizer que uma das imagens mais ilustrativas do que é o campus da SBE é um dia em que eu estava a tomar um café e vejo passar uma menina de fato de banho com uma boia de patinho para ir para a praia por corredores da escola. Isto é, de facto, a ideia de não haver fronteiras, é espaço que é parte da cidade, parte da comunidade que o rodeia. A ideia de usar aquele espaço como uma plataforma onde os académicos e as empresas geram colaborações, um espaço aberto à inovação e à criação, é importante. Outra ideia que é muito importante é que é um espaço construído em cooperação com instituições da sociedade civil, com municípios, com as empresas, com organizações, com antigos alunos. E é um projeto que foi construído nesta ideia de ser feito para a sociedade e com a sociedade, é um projeto feito com grande parte de financiamento privado e é um projeto - e eu acho que isto é talvez a coisa mais importante - que nos mostra que somos capazes. Muitas vezes diz-se que em Portugal não há dinheiro, eu acho que há sobretudo uma escassez de boas ideias, de ideias desafiantes. É um projeto que nos mostra que se tivermos ideias muito boas e que se nos empenharmos as coisas são capazes de se realizar. É todo este espírito, este espírito de ousar fazer, que nós transplantámos para os campus. Claro que há aspetos que são muito mais complexos do que o campus da SBE. Primeiro, é que estamos a desenvolver três novas localizações - uma aqui em Campolide, outra em Carcavelos e outra no Monte da Caparica - e estão a ser desenvolvidas quase em simultâneo. É um projeto da SBEx3 ao mesmo tempo.

O que é que envolve o Campi 21, o que é que já começou a ser feito e de quanto investimento estamos a falar?
Nós queremos ter aqui em Campolide o grande polo em Lisboa da Universidade Nova, há planos de a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, que está na Avenida de Berna, vir para este campus e ser construído aqui um edifício. Isto será um campus dedicado às humanidades digitais, onde temos uma escola de ciências de informação, o IMS, e a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, que já está uma parte cá, no Colégio Almada Negreiros, e com o novo edifício que vamos construir instalar-se-á devidamente aqui. Este edifício era para já estar resolvido, envolve a possibilidade de alienação da Avenida de Berna, e com as receitas provenientes daí poder construir este edifício.

Quais são as balizas temporais do projeto Campi 21?
O Campi 21 tem componentes que tenho a certeza de que estarão realizados em cinco anos, tem componentes que tenho a certeza de que estarão realizados em dez anos, tem componentes cuja fruição total pode levar 30 anos. Por exemplo, o desenvolvimento de uma cidade como estamos a fazer na outra margem é semelhante ao desenvolvimento da zona urbana da Expo"98, que foi inaugurada em 1998 e continua a ser desenvolvida até hoje. Eu estou certo de que resolvida a situação da Avenida de Berna - que não depende de nós, depende da câmara - é algo que será feito rapidamente. Tenho esperança de que nos próximos cinco anos a coisa possa ser resolvida.

O reitor da Nova, no plano de candidatura ao segundo mandato, falava num investimento superior a 100 milhões de euros para o Campi 21.
É muito mais. O investimento no Campi 21 por parte da universidade rondará os 300 milhões de euros, só na parte que nos é própria, que vem de várias formas, vem de rotação de ativos, vem de donativos privados, de dívida, de fundos próprios. E ao longo do tempo, não são 300 milhões investidos de uma vez.

Vamos então falar de Campolide.
Uma vez resolvida a questão do que é que vai ser da Avenida de Berna é um projeto que se executa em três anos. Posso dizer que é um projeto que se executa em três anos, não sabendo qual é o momento inicial. O projeto que depende de nós é a construção do novo campus de saúde em Carcavelos, criando um grande espaço a que nós chamamos a Baía do Conhecimento, dedicada aos temas da saúde e da sociedade. Esse é um projeto que tem um horizonte previsto de instalação de 2025. O campus de saúde vai ser feito em duas fases. Uma é uma escola de pós-graduação, algo totalmente inovador, uma escola dedicada à formação ao longo da vida na área da saúde, cujas obras de escavação já estão a ser iniciadas e a primeira pedra será lançada ainda neste ano ou no princípio do próximo ano. É uma fase muito importante porque o projeto de formação ao longo da vida tem um potencial de internacionalização muito grande para o ensino da saúde, vai ter um centro de treino cirúrgico do mais moderno que existe no mundo e que vai aproveitar uma capacidade única que existe em Portugal e que é a possibilidade de treino cirúrgico em cadáveres - a Faculdade de Medicina da Universidade Nova de Lisboa tem um dos bancos de cadáveres mais ricos da Europa e isso oferece enormes possibilidades de treino cirúrgico especializado e com isso atrair cirurgiões nomeada de todo o mundo. Essa primeira fase está a ser iniciada e, se não me engano, está para ser inaugurada em 2023. A segunda fase, que é a construção da Faculdade de Medicina, seguir-se-á depois. Aí temos notícias importantes, o estabelecimento do outro polo, do polo de Carcavelos, como um grande polo da Nova, onde estão planeadas outras coisas. Está planeada a instalação da Faculdade de Direito em Carcavelos, que também sairá daqui de Campolide e irá para lá. Está planeada a construção do que nós chamamos um Welcome and Learning Center, que é um centro para alunos, alunos não só da Nova, aberto 24 horas, 365 dias por ano, onde os estudantes possam estar, trabalhar, inovar, estudar. Também na zona de Carcavelos vai haver uma Aula Magna, vai haver instalações desportivas, vai haver espaços residenciais...

E o investimento em Carcavelos é de quanto?
No campus de saúde, certamente rondará os 80 milhões de euros. Estamos a falar de equipamentos, estamos a falar de tudo, uma coisa é construir o edifício, outra coisa é equipá-lo. E isto é o que nós precisamos de investir, será totalmente financiado por fundos privados e, eventualmente, esperemos que com o PRR, no qual temos uma candidatura.

E a Faculdade de Direito?
Para a Faculdade de Direito não temos data de mudança. Há a questão da localização que tem de ser vista com a câmara, estou seguro de que a questão dos terrenos cujos direitos de superfície a câmara vai ceder à universidade ficará resolvida talvez ainda neste mês de novembro, certamente este ano civil.

Têm planos para o atual edifício da Faculdade de Ciências Médicas?
O facto de ele ser um edifício que é inadequado para o ensino da Medicina não significa que seja um edifício que seja inadequado. A universidade quer muito fazer daquilo um edifício icónico para a universidade e os nossos planos, neste momento, envolvem três coisas: a instalação da reitoria da universidade lá, a criação de um museu do ensino da Medicina e gostávamos também de fazer um clube universitário ali.

O campus de saúde vai ficar onde em Carcavelos?
Vai ser construído nas antigas instalações do Hospital Ortopédico José de Almeida que estavam em ruínas, e já foram deitadas abaixo, com exceção do forte. Na semana passada, iniciaram-se as escavações para fazer as estruturas dos novos edifícios.

Fizeram parcerias com privados para este campus?
A escola de pós-graduação é produto de uma associação entre a Universidade Nova, a CUF Saúde, a Câmara de Cascais, a Associação Nacional de Farmácias e a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, que nos pusemos todos de acordo para fazer uma escola de formação ao longo da vida. Não é só de médicos, é para todos os profissionais de saúde, não existe em Portugal e não existem muitos exemplos na Europa. Este modelo de fazer um género de PPP, que tem terrivelmente mau nome em Portugal, mas tem imensas virtualidades, é parte do molde da SBE e que nós estamos a usar em todas estas iniciativas. E num projeto tão amplo como o da Baía do Conhecimento de Carcavelos vão surgir mais ao longo do tempo. Já existem mais acordos firmados, eu não tenho ainda a liberdade de os divulgar, mas será patente que todo este projeto da Baía do Conhecimento será assente em grande medida em fund raising privado, em parcerias com empresas portuguesas internacionais.

"As escolas constroem-se uma vez na vida e eu tive a felicidade de na minha vida ter participado na construção de duas, na SBE e, agora, na Escola de Medicina."

Neste momento está numa fase mais de construtor civil?
Pode parecer, mas não é verdade. As escolas constroem-se uma vez na vida e eu tive a felicidade de na minha vida ter participado na construção de duas, na SBE e, agora, na Escola de Medicina, que é muito mais do que muitas pessoas alguma vez fizeram. E uma das coisas que é essencial é que a escola é também um instrumento pedagógico, portanto, nós quando construímos temos de pensar qual é o modelo de ensino que queremos. Isto era muito patente na SBE quando desenhámos as escolas com os anfiteatros em estilo Harvard, é muito patente na transformação profunda do ensino que nós vamos fazer em Medicina com blended learning, team based learning, que só isso envolve uma sala especializada, ensino-apoio baseado na simulação muito experimental, muito end zone, é um ensino onde a tecnologia se casa com humanismo, tudo isto exige instalações próprias. Portanto, nesta fase estou na fase de construção civil, mas frustraria o meu papel se não pensasse sempre nestes projetos na minha qualidade de educador.

Pode dizer-se que a Faculdade de Medicina não só vai ter um novo edifício como também vai ter um novo curso...
É um novo curso. Todo o currículo de Medicina está a ser redesenhado, hoje. Quando dizemos que não começou a mudança é mentira, a mudança já começou. Quando eu penso o modo de ensino, quando eu penso o currículo...

E isso vai acontecer com as outras faculdades?
Não. Acho que onde a revolução no ensino é mais patente é na saúde e que talvez o seja porque foi onde nós tivemos consciência de que existia um desfasamento maior entre as necessidades de saúde - os novos desafios, as doenças crónicas, o envelhecimento, a questão da sustentabilidade dos sistemas de saúde, todos os desafios que são colocados aos sistemas de saúde mundiais - e, por outro lado, os meios que existem para os satisfazer - as novas tecnologias, o digital - e por outro a formação dos médicos. Os inquéritos mostram que a maior parte dos médicos sentem-se não suficientemente formados para as novas tecnologias digitais, não suficientemente conscientes dos novos problemas que a globalização, que as alterações climáticas, colocam à saúde, e dos quais esta crise da covid-19 é um bom exemplo.

Vamos então falar das transformações que vão fazer em Almada e no Monte da Caparica, onde fica a Faculdade de Ciências e Tecnologia.
Em Almada há aquilo que eu costumo dizer como a maior conjugação de número de engenheiros e estudantes de Engenharia e de espaço livre que existe no país. A FCT tem 8500 estudantes de Engenharia, tem, entre professores e investigadores, outras mil pessoas, tem não sei quantos departamentos, é a maior faculdade da Nova. É uma faculdade muito ampla e, por outro lado, foi criada num tempo em que se acreditava o contrário do que se acredita hoje, em faculdades isoladas, muradas relativamente à sociedade. A universidade é proprietária de 65 hectares na zona do Monte da Caparica - uma propriedade magnífica que é limitada a sul pela via rápida e que vai até às arribas fronteiras aos Jerónimos, com uma vista deslumbrante sobre a cidade, quando estamos virados para o Jerónimos temos Porto Brandão à direita - dos quais apenas um sexto é ocupado pelas instalações da Faculdade de Ciências e Tecnologia propriamente ditas. Portanto, surgiu a ideia de criar em torno da Faculdade de Ciências e Tecnologia um enquadramento urbano e empresarial, um sítio onde empresas se pudessem estabelecer, mas onde também pessoas pudessem viver. Um sítio que nós chamávamos de uma filosofia de live, work and play, isto é, onde as pessoas pudessem morar, onde os seus filhos pudessem estudar, onde as pessoas pudessem ir às compras, onde pudessem fazer desporto, e onde pudessem trabalhar. Isto foi a génese do projeto. Em colaboração com a Câmara de Almada estendemos este projeto a um conjunto de proprietários vizinhos e também assinámos um memorando de entendimento entre os proprietários que apresentámos à câmara para um conceito de desenvolvimento de uma zona que tinha numa primeira fase uns 140 hectares a que se chamou o Innovation District de Almada. Posteriormente, esta zona foi ainda alargada com a revisão em curso do PDM e, neste momento, corresponde a uma zona de intervenção de cerca de 400 hectares. Para ter consciência, é 18% superior à área de intervenção da Expo"98.

Qual é o projeto para esses 400 hectares?
Um quarto será dedicado a espaços verdes e a um conceito de desenvolvimento - desenvolveu-se um masterplan conceptual baseado neste conceito de live, work and play, onde o respeito pela sustentabilidade, o respeito pelo ambiente, terá um papel muito importante em várias dimensões, desde a existência dos espaços verdes, envolvendo por exemplo a recuperação das vinhas de Almada, como também mobilidade sustentável, as comunidades energéticas, uma cidade do século XXI. E isto é o projeto que a universidade está a liderar, criámos uma associação para a promoção do Innovation District, que envolve a universidade, a Cooperativa Egas Moniz, que é outro proprietário importante, a Santa Casa da Misericórdia de Almada, outro proprietário importante, e outros proprietários que têm planos de desenvolvimento, não para toda esta zona de 400 hectares, mas para a zona mais contígua à universidade que, por junto terá certamente 160 hectares e que envolve cerca de nove, dez proprietários, e nós vamos ser digamos os pontas-de-lança do desenvolvimento deste distrito.

Já começaram a fazer alguns trabalhos na FCT?
Já estamos a trabalhar, sim. É um campus enormíssimo, tem 27 edifícios construídos em diferentes momentos e nós estamos a trabalhar em várias dimensões. Estamos a trabalhar primeiro na alteração do look and feel e no estilo de vida no campus, na abertura do campus à cidade, e isto vai passar pela construção de uma residência de estudantes no campus, nós cedemos o direito de superfície, alguém constrói e explora a residência, vamos ter uma grande superfície comercial que serve o campus e serve a comunidade, esse direito de superfície já está decidido, as obras de instalação - é um Lidl - vão começar em breve. E também já adjudicámos a construção de umas instalações desportivas de grande dimensão, cuja construção já começou.

Também li que havia a possibilidade de haver um hotel.
O projeto é amplo, contempla um hotel, mas não está nesta fase de desenvolvimento inicial. Com isto nós libertamos fundos - temos uma estratégia de financiamento a que chamamos rotação de ativos, isto é, ceder ativos que não são essenciais, nomeadamente direitos de superfície, para libertar fundos para poder investir em ativos essenciais -, com isto vamos investir em duas frentes: vamos investir na recuperação do campus, na recuperação de algum edificado que está a precisar de intervenções rápidas, algo muito virado para o serviço aos estudantes, e vamos começar a construção do primeiro edifício de um parque de inovação, que possa atrair empresas para as quais a proximidade da ciência e da tecnologia seja valorizada. Isto serão as primeiras fases e isto vai acontecer em um ano, dois anos. Paralelamente, temos uma grande preocupação de fazer do campus da Caparica o modelo de campus sustentável e temos um roteiro para promover a neutralidade carbónica num horizonte de 15 anos no campus da Caparica, cuja primeira fase será uma candidatura à medida 13 do PRR em duas frentes - uma para a promoção da eficiência energética do edificado, que nos vai permitir não só ter recuperação do património como também ter edifícios energeticamente mais eficientes, e outra é a criação de uma comunidade energética.

A recuperação do campus e a primeira fase do Innovation District representam que investimento?
A primeira fase do Innovation Hub é relativamente pouco, será um investimento de 7 milhões de euros, parte financiada pela CCDR, depois temos todo este projeto de regeneração, presumo que a nossa candidatura ao PRR nunca será inferior a 50 milhões de euros para fazer tudo isto.

ana.meireles@dn.pt

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