José Dinis: "Só em 2025 e 2026 é que se perceberá o que a pandemia fez às doenças oncológicas"

O diretor do Programa Nacional para as Doenças Oncológicas diz ao DN que uma das consequências da pandemia está à vista: "Foi a senhora ministra dar ordem para se pararem as cirurgias. As oncológicas também pararam, e esta ainda é a arma que mais cura." Outra é a redução no número de diagnósticos. Uma e outra vão refletir-se na mortalidade.

Neste Dia Mundial contra o Cancro, quais são os números mais atuais de que dispõe e que nos dão um retrato da doença em Portugal?
O Programa Nacional para as Doenças Oncológicas teve agora acesso aos dados preliminares do Registo Oncológico Nacional [RON], que reportam ao ano de 2018. É o primeiro retrato feito pelo RON, que foi criado pelo Governo em 2017, cujo relatório ainda não foi divulgado mas será em breve. Este primeiro retrato regista o aparecimento de 52 500 novos casos naquele ano. Destes, há a registar 7400 casos de cancro da mama, 4600 de cancro do pulmão, 7600 de cancro do cólon e do reto, 2900 de cancro do estômago, 2200 da bexiga, 6100 de cancros da próstata e cerca de 3700 de cancros do sangue, ou dos que chamamos tumores líquidos (linfomas, leucemias, mielomas). Em 2021, teremos os resultados de 2019, sempre números com um atraso de dois anos, que é o que está na lei.

Mas o que é que estes números dizem da realidade portuguesa?
Vamos analisar os dados, tendo em conta o histórico, para definirmos as nossas métricas e as nossas políticas futuras, mas o que nos parece, assim de imediato, e comparativamente com os últimos anos - por exemplo em relação a 2010 -, é que há mais registos de novos casos. O que é normal, porque em 2010 o registo que se fazia não estava tão bem organizado como está o RON.

"O número de cancros do estômago em 2018 foi quase de 2900 novos casos. É uma brutalidade".

Quer dizer que não há necessariamente mais casos então, pode ter a ver com maior notificação?
Há mais notificações agora do que nos últimos anos, mas pode ter a ver com a organização das notificações. Com estes dados é fácil perceber já algumas coisas. Por exemplo, o número de cancros do estômago, quase 2900 novos casos. É uma brutalidade. Neste tipo de cancro continuamos no topo da Europa Ocidental e ao nível dos países da Europa de Leste. Já se percebeu que é claramente uma especificidade nossa.

Porque diz que é uma especificidade nossa?
Porque temos mais incidentes do que o resto da Europa, por cem mil habitantes. Esta realidade é conhecida e têm sido apresentadas algumas razões que a podem justificar: umas ligadas à componente genética, outras aos hábitos de vida, como hábitos dietéticos que incluem enchidos e todos os produtos fumados. Este é um dos aspetos que têm sido considerados como muito importantes na explicação dos números neste tipo de cancro. Depois, é uma realidade que dentro do país tem incidências diferentes. A incidência no Norte é diferente da que se regista no Sul. No programa consideramos que a situação merece uma análise mais cuidada por forma a perceber-se o que nos dizem as diferenças regionais. E vamos tentar estudá-las.

Já têm nas mãos os dados de 2018. Perante estes, o que deve ser feito?
Em primeiro lugar, é preciso estarmos todos muito alerta e investirmos sempre no combate ao cancro, porque compensa. Em segundo, é preciso percebermos que a prevenção ainda é a melhor arma para tratar ou para impedir que uma situação oncológica apareça. Temos de apostar na prevenção primária, nos estilos de vida, hábitos dietéticos, exercício físico, e como evitar fatores de risco como o tabaco e o álcool, porque estes são claramente fatores associados ao surgimento do cancro. Depois, é importante dar atenção à prevenção secundária, uma prevenção mais ativa e que se traduz no diagnóstico precoce através de rastreios regulares.

"Dos rastreios que se fazem em Portugal o que tem maior impacto na sobrevivência dos doentes, e está provado, é o rastreio do cólon e do reto, que é o que está mais atrasado".

Os rastreios salvam vidas?
É uma questão muito importante e na qual temos um longo caminho a fazer, mas temos de o fazer. Hoje fazem-se três rastreios em Portugal - ao cancro da mama, ao do colo do útero e ao cólon e reto. Dos três, aquele que claramente tem maior impacto na sobrevivência dos doentes, e está provado, é o rastreio do cólon e do reto, que é o que está mais atrasado em Portugal.

Porquê?
Se não fosse a pandemia, dir-lhe-ia que estaríamos quase com uma cobertura de 100% neste tipo de rastreio, mas neste momento a cobertura ainda é muito assimétrica. No Norte e Centro é boa, mas insuficiente no Sul [Algarve, Alentejo e Vale do Tejo]. Como Estado, não só temos de ter a capacidade de propiciar às pessoas a oportunidade de participarem num rastreio nacional, como temos de as fazer aderir. Posso dizer-lhe que a adesão ao rastreio do cancro do cólon e do reto é de 30%. É preciso que seja muito superior.

O que é preciso fazer mais?
Há a fazer muita coisa. Por exemplo, campanhas de sensibilização, mas o que há a fazer tem de passar sobretudo por nós, Estado, para que o rastreio chegue a todos os portugueses. E isto ainda não é possível.

Falou do rastreio do cancro do cólon. E em relação ao da mama e ao do colo do útero?
A cobertura em relação ao rastreio destes dois cancros é de 100%. Aliás, o rastreio do cancro da mama é o que tem maior sucesso. As diretrizes internacionais dizem-nos que um rastreio para ser eficaz deve atingir cerca de 60% da população convidada, e no caso do cancro da mama já se ultrapassou isso. É um rastreio que chega ao Portugal mais profundo. É um papel que tem vindo a ser desenvolvido pela Liga Portuguesa contra o Cancro e pela Associação Oncológica do Algarve; digamos que é um rastreio que está concessionado e que vai ao encontro das pessoas. As carrinhas andam pelas aldeias mais remotas. É um rastreio que tem muitos anos e que está muito implementado.

E o cancro do colo do útero?
Também temos boa cobertura, mas há um problema. É que as pessoas convidadas a participar nele são as que vão ao médico de família, as que não vão porque têm o seu médico ginecologista privado ou porque não vão ao médico não entram no sistema. É um problema que temos de resolver para se conseguir captar mais pessoas, porque o que acontece é que ao longo do tempo estamos sempre a convidar as mesmas pessoas. Por outro lado, e neste tempo de pandemia, em que praticamente os centros de saúde têm a sua ação focada no acompanhamento dos doentes infetados com covid-19, o rastreio parou praticamente. Isto tem de ser uma lição para o futuro, para se afinar os rastreios.

A Holanda está a conseguir salvar por ano entre 1200 a 1300 pessoas com os rastreios, Portugal poderia salvar entre 600 a 700.

O rastreio é assim tão eficaz?
Vou dar um exemplo: a Holanda tem 16 milhões de habitantes e um programa de rastreio muito parecido com o nosso em termos de organização - aliás, foi lá que Portugal se inspirou para organizar o seu programa de rastreios. E, de acordo com as estimativas holandesas, 80% da população está a aderir aos rastreios, o que é ótimo, porque, segundo demonstram os dados deles também, estão a conseguir salvar cerca de 1200 a 1300 pessoas por ano. Isto significa, se extrapolássemos para Portugal, e tendo em conta números por baixo, que poderíamos salvar entre 600 e 700 pessoas por ano. O rastreio ao cancro do cólon e do reto realizado no ano passado diagnosticou 150 pessoas. Portanto, é importante aplicarmo-nos e fazer tudo para que os rastreios sejam realmente eficazes. Uma coisa é fazer que cheguem a toda a população, mas estou convencido de que o grande desígnio é o de conseguir-se convencer que esta adira a eles.

Este Dia Mundial contra o Cancro assinala-se com a marca da pandemia. O que é já visível?
O que se nota mais é o impacto que a pandemia teve nas pessoas, o medo, e na redução de diagnósticos. Em fevereiro e março do ano passado, tanto centros de saúde como hospitais dedicaram-se só à covid-19. Depois abriu-se um pouco e recuperou-se alguma coisa. O que sentimos agora é que a pandemia fez parar não só os centros de saúde como as unidades de diagnóstico durante a maior parte do ano, e isto reduziu o número de diagnósticos. O outro ponto é o medo que a pandemia trouxe à população. Antes, quando sentiam algo que não era normal, as pessoas dirigiam-se ao seu médico para esclarecer o que se passava. Agora, essa acessibilidade não acontece, e não é porque as portas das unidades estejam fechadas, é porque há o medo interno de irem e ficarem contaminadas. Estes são os dois fatores que poderão estar a ter mais impacto, mas para termos a certeza vamos ter de esperar até 2025 e 2026. No cancro é assim, temos de olhar para trás para termos todos os dados.

Mas é possível identificar já consequências da pandemia?
Uma das consequências foi a senhora ministra, com o avanço da infeção da covid-19 para níveis astronómicos, ter mandado parar toda a atividade cirúrgica não covid nos hospitais. E, neste momento, temos um problema: as cirurgias oncológicas também estão paradas. Estamos a tentar perceber o que se pode fazer, mas o facto é que foi dada uma ordem para parar e não sabemos quanto tempo vai durar. Só este exemplo diz tudo sobre o impacto da pandemia nas doenças oncológicas. O impacto é maior na terapêutica cirúrgica do que na terapêutica clínica, quimioterapia ou radioterapia, mas a cirurgia ainda é a arma que mais cura. Portanto, o atraso no diagnóstico diminui as probabilidades de cura dos tumores.

Cirurgias oncológicas também estão paradas e não sabemos quanto tempo é que isto vai durar.

A consequência é o agravamento da mortalidade...
Sempre que há atraso nos diagnósticos há um agravamento do estádio da doença e da mortalidade. É um facto, mas, mais uma vez, para atribuirmos a esta razão vamos ter esperar pelos números. Agora, não quer dizer que tenhamos de esperar para tomar as medidas que minimizem isto.

Que medidas?
Primeiro, e isto já está a ser feito, é dar ordem para que os centros de saúde tenham canais abertos para os doentes com suspeita de doença oncológica. Depois, é preciso que os doentes não tenham medo de ir às unidades. É preciso fazer passar esta mensagem. Por fim, é preciso encontrar medidas dentro do Serviço Nacional de Saúde [SNS] - ou melhor, dentro do sistema de saúde, porque a situação não afeta só os serviços públicos, mas também os centros privados que também estão com dificuldade em executar a sua rotina - para que se comece a fazer mais diagnósticos e a receber mais doentes. O cancro não espera. Se não aparece agora, aparecerá em breve, e o nosso receio é que, de repente, ao mesmo tempo, apareçam os cancros dessa altura e os de agora.

A pandemia vem alterar o Programa Nacional?
A nossa preocupação agora é o recomeço dos rastreios o mais rapidamente possível e a todo o vapor, porque o Programa Nacional são grandes linhas de orientação. E falo dos rastreios porque uma das medidas ambiciosas do plano é conseguirmos reduzir a mortalidade, o que será possível através dos rastreios. Mas também temos como metas o aumento da acessibilidade do doente aos serviços e dotar o SNS de mecanismos que nos permitam saber o que se está a produzir em tempo real, para observar onde estão os constrangimentos e atuarmos de uma forma célere. Para isto, penso que poderemos contar com a ajuda do Programa Europeu de Luta contra o Cancro, apresentado hoje [ontem], para investirmos mais na capacidade de investigação, para que os nossos doentes tenham acesso aos tratamentos inovadores e aos programas de medicina de precisão, que é um dos grandes desígnios a nível europeu, e investirmos mais na informação e na literacia dos doentes oncológicos.

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