João Varandas Fernandes: "Esta é uma oportunidade para repensar o SNS"

Médico e professor universitário defende a necessidade de mobilização da comunidade educativa, na resposta à crise, mas também a médio e a longo prazo. Pede investimento na mudança de comportamentos, passando pela especialização dos profissionais e a investigação.

O que quer dizer quando defende a necessidade de mobilização da comunidade educativa, na resposta à crise, e a médio e a longo prazo?
A prova de sobrevivência em que estamos, que não é uma competição de popularidade, obriga, pela sua gravidade, a uma mobilização de todos os setores da sociedade. A comunidade educativa não está a ser chamada a participar pelos órgãos de tutela. As universidades dão um importante contributo na partilha de conhecimento e é, sobretudo, a médio e a longo prazo que o seu papel se revelará estratégico, quer na especialização de profissionais quer no campo da investigação e reflexão crítica. E refiro-me ao ensino público e privado. Por exemplo, na Cooperativa de Ensino Universitário (CEU), que detém a Universidade Autónoma, estamos a apostar fortemente nas ciências da saúde, nomeadamente através da oferta de formação e especialização de enfermeiros na recém-integrada Escola Superior de Enfermagem São Francisco das Misericórdias.

Antecipando-se que esta não será a última pandemia que iremos enfrentar, o futuro passa pela vigilância, o controlo e a prevenção. Como se pode fazer melhor? E dessas práticas que defende algumas ainda poderão ir a tempo de ser aplicadas já?
O futuro passa por vigilância, controlo e prevenção. Mas também por investimento na rede de saúde pública, nos cuidados de saúde primários, em hospitais vocacionados para doentes com patologias respiratórias e infeções. No imediato, há que robustecer a hospitalização domiciliária e reforçar as equipas de saúde pública, com elementos de intervenção rápida junto da comunidade, capazes de detetar e conter as cadeias de transmissão. A situação é muito grave, os hospitais, os serviços de saúde e os profissionais estão exaustos. É muito importante um pensamento estratégico a curto e a médio prazo, para que, de forma coordenada, se dê resposta a todas as pessoas que apresentam outras doenças que não covid-19. Defendo um serviço único de saúde, com profissionais em exclusividade. Esta é uma oportunidade para repensar o SNS.

Defende investimento na mudança de comportamentos, que passa pela especialização de profissionais capazes de implementar políticas de qualidade em saúde, que poderá exigir menos recursos financeiros ao SNS. Como assim, menos recursos, pode explicar?
A formação, a especialização e a valorização dos profissionais contribuem para a implementação de políticas de qualidade nas instituições de saúde e consequente mudança de comportamentos, com a concretização de boas práticas e uma gestão sustentada na evidência, não no desconhecimento. O investimento na mudança de comportamentos tem menos custos, se comparado com os custos associados ao tratamento e à cura em saúde. Olhemos o exemplo do combate às infeções associadas a cuidados de saúde [IACS]. Portugal regista uma das mais elevadas taxas da Europa. A especialização de profissionais e a criação de equipas dedicadas às IACS são uma mais-valia, com impacto comprovado para a segurança do doente.

"No imediato, há que robustecer a hospitalização domiciliária e reforçar as equipas de saúde pública, com elementos de intervenção rápida"

Apostar na investigação - como e com que instituições nacionais? Fundos nacionais ou europeus?
Este é um momento sem precedentes que gera uma enorme motivação na comunidade científica. A investigação deve ser coordenada, com apoio institucional, e recorrendo a fundos nacionais e internacionais. As instituições têm de se organizar com essa finalidade. As universidades e os politécnicos devem participar, mantendo a autonomia, mas com uma exigência de solidariedade e entrosamento. A questão poderá não estar no financiamento, mas na capacidade de organização. Um maior equilíbrio da prestação letiva do corpo docente pode ser aproveitado em benefício do conhecimento e da comunidade. Este é um exemplo.

Qual a importância da decisão na gestão de uma crise sanitária? Pode concretizar um conselho aos decisores governamentais?
A liderança no terreno, a micro-organização, tem resultados muito positivos em situações de crise, comparado com a organização centralizada e piramidal. A pandemia veio mostrar isso mesmo: a forma como os serviços se conseguiram reorganizar para dar resposta. Outro aspeto muito relevante: solidariedade e cooperação.

Nas decisões está a faltar na sua base o respeito ao conhecimento e porquê? Que consequências isso terá para Portugal?
Combate-se a pandemia com informação científica e estatística credível, pensamento estratégico de curto e médio prazo. Autoridades com convicção e firmeza sobre o caminho a seguir e, não menos relevante, cidadãos responsáveis. Não se tem dado a devida importância a dados estatísticos na tomada de decisão.

Como vê a atitude da Pfizer ao falhar os prazos de entrega de vacina na Europa?
Vejo com preocupação que o processo não esteja a ser mais rápido no combate à crise pandémica. A atitude da Pfizer está certamente a ser analisada, sendo uma questão política e financeira. Mas é evidente que, quanto mais atrasos houver na chegada das vacinas, mais tempo levaremos a ter a população vacinada, como se pretende.

Como comenta o plano de vacinação dos titulares de órgãos de soberania, cujo alvo afinal compreendia numa primeira fase mil pessoas?
As instituições do Estado não podem suspender as suas responsabilidades e comprometer o funcionamento da sociedade. Nos órgãos de soberania há cargos com funções essenciais, particularmente numa situação de estado de emergência. O importante é, segundo critérios fundamentados em questões de política de saúde, identificar quem deve ser vacinado.

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