Insultos e agressões. Quando os pais são mau exemplo fora de campo

Quando os pais dos jovens atletas perdem a cabeça quem sofre não são só árbitros e treinadores, mas os próprios filhos

É sábado. São 10.15. O árbitro apita para o início do jogo: os infantis B (dos 11 aos 13 anos) do Taboeira defrontam o Estarreja. A assistir ao confronto, em Frossos (Albergaria-a-Velha), não estão mais do que três dezenas de adeptos e quase metade são crianças. Embora exista uma bancada improvisada, a maioria dos pais prefere ficar junto à barreira de metal. Dentro das quatro linhas, o jogo está morno, mas há muita emoção do lado de fora. "Então aqueles con.. não dizem nada? Caralh.., vira o jogo." Com cinco golos pelo meio (3-2), repetem-se os palavrões e os gestos incendiados até ao final da partida.

Às 11.30, é o jogo dos Traquinas A (dos sete aos nove anos): Taboeira contra Mourisquense. Há um contacto físico, uma criança deitada no chão. "Olha o menino no chão, palhaço do caralh...! Fod...." No momento em que diz isto, a mãe da criança ultrapassa a vedação e prepara-se para entrar no terreno de jogo. O árbitro apita. Ela recua. "Fui eu que o pari. Só eu sei o que isto me custa", justifica.

Insultos ao árbitro e a treinadores, agressões nas bancadas, muitos berros e invasões de campo. Vê-se de tudo no desporto infantil. O DN falou com árbitros e treinadores que contam como os pais facilmente perdem a cabeça durante os jogos e dão um exemplo terrível aos filhos. Há cerca de três semanas, Ana Ribeiro estava a dirigir um jogo de futsal de Benjamins (entre 9 e 10 anos) em Carcavelos quando assistiu a mais um episódio de violência entre pais. "Uma equipa estava a jogar melhor do que a outra. Houve uma mãe que se exaltou e os outros pais não gostaram do tipo de linguagem que usou e do facto de estar a incentivar um jogo mais agressivo. Pediram-lhe que tivesse calma. Ela não gostou, subiu a bancada e envolveu-se num confronto físico com outra mãe", recorda. Dentro do campo, as crianças pararam o jogo e ficaram a olhar para a bancada, implorando que se acalmassem.

"Os pais não têm pudor em usar palavras agressivas", diz a árbitra. Consequentemente, "os filhos seguem o exemplo e também as usam." Por vezes, refere, são os educadores a incentivar a violência dentro do campo: "Não lhe dás hoje, dás-lhe amanhã na escola." Também se ouve muito o "parte-lhe uma perna", diz o árbitro Fernando Montenegro.

Ao fim de 16 anos de carreira, Ana Ribeiro, vice-presidente do Núcleo de Árbitros de Futebol de Lisboa, não tem dúvidas que o comportamento dos encarregados de educação está cada vez pior. "Em parte, acho que por causa do mediatismo. Há muitos pais que veem os filhos como possíveis Ronaldos e investem neles, criando expectativas elevadas. Projetam muito nos miúdos aquilo que não conseguem alcançar." A parte lúdica, que devia prevalecer na formação, "tem vindo a perder-se e a competitividade é exageradamente intensa. As crianças deixam de se divertir."

As crianças não querem ganhar acima de tudo. Querem divertir-se e jogar o máximo de tempo possível. Achar que os resultados são o mais importante é um dos erros mais comuns entre os pais dos jovens desportistas, de acordo com um artigo publicado pelos irmãos Lisa e Patrick Cohn, do blogue Youth sports psychology. Outro dos pecados mais frequentes é procurar uma equipa mais exigente e que até fique longe de casa, porque as crianças tendem a ficar exaustas. Ou alimentar superstições: a confiança deve ser colocada nas capacidades da criança e não num qualquer objeto ou peça de roupa. Também não devem lembrar os mais novos sobre o que correu mal no último jogo. Melhor será insistir no que correu bem.

Se um treinador grita e humilha uma criança, os pais devem intervir, pois a autoconfiança pode ficar afetada e levar a que desista de praticar aquele desporto. Por fim, os especialistas dizem que os pais erram ao concentrar-se nos pontos e nas vitórias, pois pressionam os filhos de forma negativa. O desporto deve ser praticado por prazer.

José Guilherme, treinador de infantis A no Beira-Mar, costuma dizer que as histórias que já viveu enquanto técnico davam para escrever um livro. Na formação, refere, "procura-se a evolução, o ganhar é colocado de lado", "trabalha-se a paixão pelo treino e pelo futebol." No entanto, "é muito complicado não desistir quando os pais desformatam as crianças." Na opinião do coordenador do futebol de sete da formação aveirense, "o facto de o futebol ser o desporto rei é aquilo que mata o futebol da formação." E porquê? "É transmitida a ideia que qualquer um pode ser um Messi, ou um Cristiano Ronaldo. Preocupo-me com as crianças. Há miúdos de seis e sete anos levados ao extremo."

Não raras vezes, os pais tentam interferir no trabalho dos treinadores: ou no próprio jogo, quando viram "treinadores de bancada", ou quando reclamam porque acham que os filhos não jogam o tempo que merecem. "E ainda há casos de pais que oferecem dinheiro por cada golo. Se um miúdo recebe 20 euros por golo, vai sempre procurá-lo, nem que isso não seja o mais adequado no momento."

Há 14 anos, quando ainda era estagiário, o árbitro Carlos Cabral assistiu a algo que o marcou. Era um derby de iniciados (dos 13 aos 15 anos) entre o Belenenses e o Oeiras. Estava o Oeiras a ganhar 1-0 quando "os pais começaram todos à porrada na bancada e foi necessário chamar reforço policial. Era algo que achava impossível num jogo de iniciados." Mas não só é possível, como é mais comum do que se possa pensar.

Há três semanas, em Loulé, um pai ultrapassou a barreira e invadiu o campo num jogo de iniciados. "Tenho uma maneira peculiar de apitar e não sanciono alguns contactos. Devo ter deixado passar uma falta sobre o filho. Ele saltou para o terreno, o que me levou a suspender a partida. A GNR tomou conta da ocorrência e o clube foi multado. Se não estivessem lá, dificilmente sairia sem um susto."

Carlos Cabral, que também é presidente do Núcleo de Árbitros de Futebol do Barlavento Algarvio, diz que sobretudo "nos jogos em que não há policiamento - infantis e benjamins - é frequente acontecerem este tipo de situações." Nas camadas jovens, os adeptos "acham que podem fazer tudo e que nada lhes acontece." Apesar de estarem a jogar, as crianças "sentem tudo o que vem das bancadas." "Os pais dizem coisas como: Ó número 10, não vales nada. Isto para crianças de 10 anos é complicado."

"Já vi um miúdo de dez anos a chorar, a dizer ao pai que era uma vergonha e a pedir-lhe que não fosse mais ver os jogos", conta Fernando Montenegro, 44 anos, do Núcleo de Árbitros de Futebol Francisco Guerra (Porto). O profissional recorda um jogo entre o Avintes e o Leixões, há quatro anos, no qual "homens e mulheres começaram à porrada na bancada, só sangue, os miúdos a chorarem no relvado."

Ana Afonso, árbitra no Porto, reforça que "os pais têm vindo a reagir cada vez pior no desporto jovem e interagem de formas que não são corretas." "As crianças choram no campo e pedem para parar o jogo."

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