Insuficiência Cardíaca. O Hospital de Dia que nasceu em Évora mesmo em tempos de pandemia

Histórias de quem trata e de quem sofre de IC. Nem tudo foi negativo nesta pandemia. O Hospital Espírito Santo, em Évora, até acelerou projetos para doentes não covid. E, no final de 2020, abriu portas à teleconsulta para quem sofre de insuficiência cardíaca, porque parar os projetos significaria virar as costas a doentes graves. Mas o "vírus não pode matar quem infeta e quem não infeta".

Tinha 12 anos quando começou a dar vida a móveis com as suas mãos e ganhou o título de polidor. A infância ditou-lhe o futuro, porque só décadas depois é que Eugénio Rebola, agora com 66 anos, mudaria de profissão. O que pagavam era mais, por isso, arriscou o corpo num trabalho mais pesado: ficou 17 anos no mercado do mármore até se reformar.

"De vez em quando, lá saía uma vértebra do lugar." Fora isso, ainda caminhava cerca de sete quilómetros todos os dias. Para este corpo, habituado a ser levado ao limite das suas capacidades, tudo era possível, até chegar o diagnóstico em 2017: Insuficiência Cardíaca (IC). Não ligou muito, mas hoje está a aprender a viver de novo, através de uma consulta semanal com os enfermeiros e médicos de Évora.

O inverno já gelava Estremoz, onde nasceu e ainda vive. Na sequência de um eletrocardiograma ditaram-lhe a sentença. Os batimentos estavam altos, passaram-se dois anos sem qualquer sintoma da doença, mas no final de dezembro de 2019 eles chegaram: "Comecei a andar muito cansado, com dificuldades respiratórias e com batimentos a 30". Foi enviado para o Hospital Espírito Santo em Évora, a 40 quilómetros de distância de casa - era o mais perto -, onde ficou três dias em cuidados intensivos. O diagnóstico piorava. "Os pés pesavam-me um quilo", recorda. Acabou por regressar a Évora em outubro de 2020, já numa cadeira de rodas, incapaz de fazer as tarefas mais básicas do dia-a-dia.

"Por cada reinternamento, o doente está a descer degraus que já dificilmente vai conseguir voltar a subir", explica Bruno Piçarra, cardiologista no Hospital de Évora e responsável pela implementação de uma consulta que promete salvar a vida de "corações fracos", como o de Eugénio, sobretudo agora, com os doentes mais longe dos hospitais. Por isso, afirma, mais do que uma consulta, "chamamos-lhe Hospital de Dia que, nesta fase, funciona por telefone".

O projeto estava a ser pensado há dois anos e quando estava prestes a arrancar, "eis que aparece a covid-19 e tivemos de bloquear tudo", afirma o cardiologista. Como, aliás, ocorreu com várias áreas em desenvolvimento no hospital. O alvoroço a que os hospitais ficaram sujeitos desviou atenções para um só foco e os próprios doentes "ganharam medo" e "frequentemente desmarcavam consultas, mas os doentes de IC são doentes graves que não podiam ficar desprotegidos e, na altura, disse à minha equipa: 'Ó vírus não pode matar quem infeta e quem não infeta'. Os momentos de crise são janelas de oportunidade e reinventámos o projeto."

Mais longe, mas mais perto

A teleconsulta para a Insuficiência Cardíaca arrancou em dezembro de 2020 com o primeiro doente. Um projeto que em vez de pedir aos doentes que se dirijam ao hospital, pede apenas que tenham um telemóvel à mão. "Estamos mais longe, mas mais perto", frisa o especialista. E queimar distâncias é sobretudo importante quando falamos do interior do país. O nosso distrito é grande e o hospital, além de servir Évora, é também referência para Portalegre e Beja. Por isso, eles não podem vir cá, mas com isto estamos a conseguir mais contacto com os doentes e há alguns com quem conseguimos falar todas as semanas."

Três vezes por semana uma equipa de enfermeiros e de médicos faz do telemóvel o seu estetoscópio. Eugénio Rebola entrou no programa há quase dois meses. Durante quatro semanas seguidas, recebeu o telefonema de um enfermeiro, que lhe pedia para medir a tensão, o peso e o perímetro abdominal, que o próprio teria depois de encaminhar por e-mail. "Depois, ligavam outra vez para falar dos resultados", explica-nos.

Do outro lado da linha, um enfermeiro, com supervisão médica, estuda caso a caso. Começa por fazer questões com base em escalas internacionais padronizadas para compreender o estado do doente. "Através de um inquérito, com perguntas muito simples, damos uma pontuação e, no fim, fazemos a soma que dá um resultado positivo ou negativo", explica o médico Bruno Piçarra. O objetivo é , sobretudo, "ensinar o doente a lidar com a sua doença", mais do que a serem eles a monitorizá-la: "É preciso que saibam medir os seus níveis e o que tem de fazer, por exemplo, quando o peso aumenta".

Com o conhecimento, diz o cardiologista, vem a autoconfiança, que Eugénio Rebola entretanto diz ter ganhado. Os resultados das medições têm estado "normais", por isso, a periodicidade das suas consultas já espaçou.

Desde que as iniciou deixou a cadeira de rodas e voltou a caminhar. Começou a passos de bebé, com 50 metros, mas cada passo era uma vitória para quem sentia antes o passo tão pesado. Agora, revela com entusiasmo e até com espanto que é capaz de fazer cinco mil metros todos os dias. "As consultas dão-me muita segurança, estamos mais protegidos", assegura.

Neste momento, a teleconsulta de Évora já conta com 30 doentes, sendo o mais velho um homem de 70 anos e o mais novo um de 30.

Avaliar além da doença

Quem está no terreno sabe bem que há duas certezas no que toca à Insuficiência Cardíaca: "É uma doença de degraus", que piora a cada reinternamento e a partir da qual o doente deve ser avaliado "como um todo", porque esta doença é o culminar de outras.

Por isso, a teleconsulta do Hospital Espírito Santo em Évora não conta apenas com os médicos cardiologistas. Se do coração dependem todas as funções do corpo, do tratamento da insuficiência cardíaca dependem também outras especialidades e a equipa liderada Bruno Piçarra expandiu para uma parceria com áreas como a nutrição, a psicologia e a psiquiatria. Agora, todas estão ao serviço destes doentes.

A nutrição porque, sublinha o médico, "uma parte dos doentes com IC são obesos. A própria obesidade camufla muitos dos sintomas e das queixas associadas à doença do coração". "Aqui, a correção alimentar pode ser fundamental, também para quem têm carências alimentares, para que o metabolismo funcione, como um défice de ferro, como é comum", recorda Bruno Piçarra. Já a psicologia e a psiquiatra são importantes "porque a depressão e a ansiedade também são frequentes nestes doentes".

No horizonte, têm em vista adicionar mais especialidades, como medicina física e reabilitação ou cuidados paliativos para os doentes que estão em estado avançado e que precisam de passar por tudo com dignidade. "Avaliamos o doente como um todo. Um doente com IC é quase um doente oncológico, não tem só IC."

As vitórias para o hospital e para os doentes continuam a medir-se, em larga escala, pelo número de internamentos que são evitados. O cardiologista Bruno Piçarra chama-lhe "doença de degraus", que se não for tratada precocemente tem como destino sempre o hospital. "São doentes que estão estáveis durante algum tempo, mas mais dia menos dia vão entrar numa fase descendente da sua doença e o primeiro internamento é sinal de que as coisas não estão a correr como deveriam."

O que acarreta, como lembra, um esforço vital para o doente, que a cada reinternamento desce um degrau, que não sabe se volta a subir, mas também um esforço económico, de recursos, para as unidades hospitalares. A solução passará pela criação de programas como este, nascido em plena pandemia. "Quer em Portugal quer fora, sabemos que estes programas reduzem muito o número de reinternamentos", argumenta o cardiologista.

As notícias vindas de outros países, com uma matriz de risco perigosa após um novo desconfinamento, no qual Portugal também entrou agora em março, não permitem ainda dar tréguas ao vírus SARS CoV-2. Nos hospitais, resta acautelar o futuro. E, no Hospital Espírito Santo de Évora, há lições a tirar, conta o responsável pela implementação da teleconsulta de IC.

"Este projeto deu-nos a aprendizagem de que temos de rever a forma como fazemos as coisas: atender por telefone não é a mesma coisa, mas é o possível e permite um melhor acompanhamento."


Esta é a última de 12 Histórias de Quem Sofre e de Quem Trata a Insuficiência Cardíaca no âmbito do projeto Coração de Portugal.

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