Imunoterapia. A arma que Jimmy Carter usou contra o cancro

Medicamentos educam sistema imunitário para combater células malignas

Em agosto Jimmy Carter, ex-presidente dos Estados Unidos agora com 91 anos, soube que tinha um melanoma - o tipo mais grave de cancro da pele - em fase avançada e já espalhado com pequenos tumores no cérebro. Quatro meses depois, e após ter feito radiação e imunoterapia com um novo medicamento, os médicos disseram-lhe que a doença regrediu e os exames já não detetaram tumores no cérebro. Não se tratou de um milagre. É a evolução da ciência.

A luta contra o cancro começou quando o ex-presidente norte-americano foi operado ao fígado para retirar uma lesão. Na altura os médicos diagnosticaram um melanoma e pouco depois informaram-no que o cancro estava metastizado com quatro pequenos tumores, de dois milímetros de tamanho, no cérebro, baixando a esperança de vida destes doentes a poucos meses. Jimmy Carter e a equipa médica optaram pelo tratamento tradicional, a radioterapia, em conjugação com um novo medicamento, o pembrolizumab, aprovado no ano passado pela Agência Americana do Medicamento (FDA) e que já este ano recebeu o aval da Agência Europeia do Medicamento. Quatro meses depois estava em remissão e sem sinais dos tumores no cérebro.

Os resultados de Jimmy Carter, com a aparente ausência de cancro, não são um milagre. Mas um sinal da evolução da ciência. "Os resultados são os expectáveis. Com o ipilimumab tínhamos de esperar algum tempo para os doentes começarem a responder ao tratamento. Com estes a resposta é mais rápida e conseguimos ver resultados em pouco tempo. Nunca podemos falar em cura, porque o cancro pode voltar a surgir, mas sim em remissão completa. para nós é uma resposta muito boa", diz Ana Castro, oncologista no Centro Hospitalar do Porto, lembrando que foi Jimmy Carter "que assinou o documento que permitiu a investigação com imunoterapia" nos Estados Unidos. De certo nunca terá imaginado que um dia seria ele a beneficiar destes avanços.

Poderosos aliados

A imunoterapia está a ser uma das principais armas no combate ao cancro. "O que vamos fazer com a imunoterapia é educar o sistema imunitário para reconhecer os tumores e os destruir. É feito através de recetores e moléculas que também temos nos tecidos saudáveis. A imunoterapia é uma das grandes armas, mas não posso dizer se alguma vez vamos deixar de usar a quimioterapia", refere a médica. Quanto à combinação deste medicamento com tratamentos mais antigo, "como já temos resultados da imunoterapia podemos ir mais longe e fazer combinações com a imunoterapia como pilar".

As lesões cerebrais que tinham menos opções de tratamento têm também na imunoterapia um poderoso aliado. Os efeitos secundários do pembrolizumab podem passar por colites e outras inflamações, que são facilmente tratadas. Ou seja são melhor tolerados pelos doentes, permitindo também chegar a pessoas com mais idade. "Temos um paciente de 80 anos a iniciar tratamento. Não tem sido a idade cronológica que limita fazer o tratamento", aponta, referindo que com tratamentos anteriores parecia não ser possível tratar as lesões cerebrais, o que agora parece estar ultrapassado.

No Centro Hospitalar do Porto decorrem pelo menos quatro ensaios clínicos com pembrolizumab para o tratamento de cancros do pulmão e cabeça e pescoço. Mas o medicamento está também a ser testado nos cancros do rim, bexiga e mama, a única área em que os resultados parecem não ser tão promissores. À semelhança do que têm mostrado vários ensaios internacionais, os resultados alcançados no Porto são bons. "Já temos doentes a fazer há oito meses e a resposta tem sido muito boa, com a doença a diminuir bastante", sublinhou a médica.

O acesso ao medicamento em Portugal, ainda em avaliação económica, está a ser feito através dos ensaios clínicos ou de programas de acesso precoce que permite dar o medicamento sem custos para o SNS. O tratamento é injetável e feito a cada três semanas. A duração é de dois anos se entrar em remissão completa ou até existirem sinais de toxicidade ou se houver evolução da doença.

Para o tratamento do melanoma metastizado foram precisos 40 anos até surgirem no mercado novas soluções para os doentes que não respondiam a nenhum dos tratamentos disponíveis. Em 2011 surgiu no mercado o ipilimumab, também disponível em Portugal. Os resultados do pembrolizumab são encorajadores. "No primeiro ano cerca de 70% dos doentes estão vivos. Aos dois anos [de tratamento] a percentagem de doentes é um pouco superior ao dobro do ipilimumab", adiantou Ana Castro, relembrando que ao fim de dez anos 20% dos doentes tratados com o ipilimumab mantém-se em remissão total e sem problemas.

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