Raquel Varela, a Universidade Nova e o autoplágio académico: "fraude", "conduta imprópria" ou "normal"?

Raquel Varela foi acusada de empolar o currículo citando várias vezes o mesmo artigo. Mas a questão vai para além disso: tem no CV artigos de título diferente, e até autoria diferente, porém conteúdo igual. Prática conhecida como autoplágio, na qual há quem veja fraude. Nem Varela nem a Nova responderam às perguntas do DN.

"Em Portugal, grosso modo, porque teve até há pouco tempo um dos melhores sistemas de saúde do mundo e durante muitos anos um excelente serviço educativo público (temos hoje mais doutorados do que tínhamos licenciados em 1970), a segurança social diz respeito a duas grandes áreas: as reformas/pensões, fruto do desconto dos trabalhadores ou da transferência do Orçamento do Estado (no caso das pensões não contributivas), o que só foi possível por um aumento histórico na massa salarial; e as políticas chamadas "de ação social", que visariam colmatar a pobreza e o desemprego involuntário."

Este parágrafo encontra-se, ipsis verbis, ou com mudanças de uma ou outra palavra, em pelo menos cinco textos publicados pela historiadora Raquel Varela entre 2015 e 2017, com títulos diferentes e, por vezes, autorias diferentes (alguns são assinados com outras pessoas). Está longe de constituir uma exceção, porém - reproduzir todos os excertos iguais que o DN encontrou em artigos, livros e outros trabalhos académicos publicados por Varela ocuparia muitas edições do jornal.

Há aliás textos, dados à estampa sob títulos diferentes por esta historiadora do trabalho e elencados no seu currículo em entradas separadas, nos quais o conteúdo absolutamente idêntico - não se trata dos mesmos argumentos ou de paráfrases, mas de cópia pura - anda perto dos 100%.

"A verificarem-se as suspeitas, elas não comprometem apenas Raquel Varela, mas também - e sobretudo - quem a avaliou ao longo de anos, quem lhe deu bolsas, posições e lugares na academia. Ou, melhor, quem não a avaliou, quem não fez sequer o esforço mínimo de ler o que ela foi escrevendo; se o tivessem feito, as fraudes seriam facilmente e rapidamente detetáveis, como parece resultar desta revelação do DN." (António Araújo, historiador)

Nesse caso está por exemplo o artigo O "Direito ao Trabalho", Saúde, Educação e o Nascimento do Estado Social (publicado no número de janeiro/abril de 2016 da revista Trabalho, Educação e Saúde, editada pela Escola Politécnica de Saúde João Venâncio, no Rio de Janeiro), assinado em coautoria por Raquel Varela e Luísa Barbosa Pereira, e o texto O Direito ao Trabalho e o Nascimento do Estado Social, assinado unicamente por Raquel Varela. Este último foi publicado em 2015 como capítulo do livro Trabalho, Educação e Conflitos Sociais: Diálogos Brasil e Portugal, Edições Verona (Brasil), do qual Varela foi coeditora (o livro está igualmente elencado no seu CV).

O conteúdo dos mesmos dois textos está quase integralmente replicado no artigo Estado Social, Assistência Social e Precariedade Laboral em Portugal (1974/2015), publicado na revista brasileira Ser Social em 2016 e assinado só por Varela.

Veja aqui as sobreposições (assinaladas) entre o artigo Estado Social, Assistência Social e Precariedade Laboral em Portugal (1974/2015) e o texto O "Direito ao Trabalho", Saúde, Educação e o Nascimento do Estado Social.

"Penso que não tenho, em 70 artigos, nenhum integralmente repetido"

Nem Raquel Varela, atualmente afeta à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH) da Universidade Nova de Lisboa, onde fez em fevereiro provas de agregação nas quais foi aprovada por unanimidade, nem Luísa Barbosa Pereira, investigadora brasileira que de acordo com a informação constante no site da Universidade Nova está vinculada ao Instituto de História Contemporânea (do qual Varela se desvinculou em setembro, num processo relacionado com dúvidas manifestadas pelo instituto sobre o seu CV - voltaremos ao assunto), responderam às tentativas de contacto do DN, que as confrontou, por escrito, esta quinta-feira, com os factos relatados, solicitando uma explicação.

Ao invés, Raquel Varela optou por publicar, no dia seguinte, um post no seu blogue pessoal, reproduzido na sua página de Facebook, sob o título "o país chocado com uma campanha difamatória", no qual reage às perguntas do DN.

"Escrevo este texto porque uma jornalista contactou-me a propósito de "milhares de caracteres" de artigos "publicados por mim em capítulos de livros, ou livros. (...) Ter um artigo científico publicado também em capítulos de livros não só é prática comum, legal, ética corretamente, como útil cientificamente. Qualquer autor com uma obra publicada tem dezenas de trechos de textos republicados em capítulos de livro ou em livros seus. Ou artigos inteiros publicados em livro. É legal. Os autores são donos dos seus textos, publicam-nos onde querem. Isto é banal - nos mais destacados cientistas nacionais e internacionais da minha área é generalizado. Ninguém recebe por republicações direitos de autor."

Note-se que o DN não confrontou Raquel Varela com o facto de reproduzir artigos seus em livros, mas com o facto de reproduzir artigos noutros artigos e em livros, tudo sem referenciar publicações anteriores e em alguns casos, como vimos, chegando até a repetir em coautoria (e vice-versa) textos que publicou noutro local só em nome próprio. Houve aliás o cuidado de referir vários dos textos em questão - o jornal não se limitou a falar de "milhares de caracteres repetidos" - com o propósito de não só ser leal na abordagem mas de permitir que a interlocutora verificasse as informações de que dispomos, de modo a, se fosse o caso, corrigi-las ou enquadrá-las especificamente. Como se constata, Varela valeu-se da lisura do jornal para se adiantar à nossa publicação, sem no entanto esclarecer os factos concretos.

"Há muitos dos autores, sobretudo os mais velhos, que têm mesmo em revistas científicas, até 3 e 4 vezes o mesmo artigo. O que não constitui crime. Penso que não tenho, em 70 artigos, nenhum integralmente repetido, e se tiver partes é em menos de 20% dos artigos." (Raquel Varela, historiadora)

Por outro lado, não é correto o que a historiadora diz sobre os autores serem "donos dos seus textos"; a partir do momento em que aceitam publicá-los numa revista, esta normalmente passa a deter o copyright ou parte dele, o que significa que, de facto, além de uma questão de escrúpulo e transparência, há a da legalidade. Como aliás reconhece de seguida: "Recentemente estas revistas começaram a impor que o texto não deve ser publicado noutras, e, portanto, na geração mais nova é mais raro haver republicações em revistas. (...) É altamente questionável, também, que estejamos a ceder os nossos textos e direitos a revistas que depois proíbem a sua cópia noutra revista e vendem os nossos direitos sem nos pagar, ganhando milhões - isso, sim, é generalizado. É o problema do produtivismo, 'publique ou pereça'. Contra tudo isto tem havido uma política de open access cada vez maior, a que aderi com entusiasmo. Por isso a jornalista pode ler "milhares de caracteres repetidos" meus em acesso livre."

A seguir Varela usa o argumento de que, a repetir textos, não será a única - "Há muitos dos autores, sobretudo os mais velhos, que têm mesmo em revistas científicas, até 3 e 4 vezes o mesmo artigo. O que não constitui crime" - para admitir que afinal pode ter até textos integralmente repetidos; não sabe. "Penso que não tenho, em 70 artigos, nenhum integralmente repetido, e se tiver partes é em menos de 20% dos artigos. Por exemplo, caracterizamos a população de Portugal e repetimos essa parte em dois artigos distintos; o contexto do 25 de Abril, etc. Se eu quero falar de comissões de trabalhadores, introduzo o mesmo contexto para falar de educação no 25 de Abril. É legal, normal, não há notícia alguma." E. por fim, assevera que "já ninguém anda a debater o meu CV, nunca foi assunto - aliás o mesmo só pode ser debatido entre especialistas, porque os outros não fazem a mais pequena ideia do que estão a falar."

Algumas notas sobre o que Varela alega: em primeiro lugar, nunca esteve em causa acusá-la de crime. Sobre ser legal a repetição de textos, já a própria demonstrou que é duvidosa; quando a ser "normal", é uma questão do que se considera "normal": é o que, como sustenta, muitos farão, ou o que é exigível e curial? Eis uma resposta que a historiadora não dá, já que pergunta "será ético?" mas não só acaba por não responder como proclama que ninguém, além de "especialistas", pode questioná-la sobre o seu CV. E, presume-se, sobre a sua ética académica.

Por fim: não é verdade que todos os excertos repetidos/copiados que o DN identificou se refiram apenas a explicações técnicas ou citações (que de resto repete muito abundantemente, chegando até a suceder mesmo texto); como o exemplo que o DN deu no início deste artigo, são de todo o género, porque se trata de blocos de texto, por vezes com dezenas de milhares de caracteres, incluindo argumentos, opiniões (muito do que a historiadora publica é opinião) e conclusões.

"Fazer um trabalho antigo passar por novo é eticamente errado"

"Está-se claramente perante autoplágio quando um(a) autor(a) reutiliza porções de texto já publicado previamente sob o seu nome, fora de casos em que isso se justifique (quando se usa aquilo a que em inglês se chama 'boilerplate language', porções de texto que são usados repetidamente de forma rotineira, por exemplo linguagem jurídica, ou se recicla de um texto para outro linguagem técnica e metodológica que descreve procedimentos metodológicos de recolha de informação), sem seguir as convenções académicas estabelecidas", afirma o investigador em ciência política Pedro Magalhães, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. "Essas convenções exigem citação e menção da fonte ou, em alternativa, a indicação clara ao leitor numa nota de que o "novo' texto reaproveita excertos de outro já publicado."

Quanto à pergunta "é ético?", responde-lhe assim: "Fazer um nosso trabalho antigo passar por novo sem que isso fique claro começa por ser eticamente errado: está-se a enganar o leitor, criando a perceção de que o material é novo e que existe mais conhecimento sobre um tema do que aquele que realmente existe. Mas pode ser até ilegal, infringindo direitos autorais. Isso sucede nomeadamente nos casos em que o(a) autor(a) tenha cedido os direitos da publicação original à revista que os publicou, coisa que sucede muitas vezes quando se publica."

""há até disciplinas que têm regras sobre isto. Em Psicologia, por exemplo, limita-se expressamente o número de palavras que pode ser reproduzida de outros textos, mesmo com citação, para não haver equívocos." (Pedro Magalhães, insvestigador em Ciência Política)

A reprovação ética e a possível ilegalidade não impedem, aponta investigador, que "pessoas bastante brilhantes, como o economista suíço Bruno Frey, tenham sido apanhadas em autoplágio". Sucedeu em 2011, quando Frey, então com 70 anos, publicou o mesmo artigo em quatro revistas diferentes. Um dos editores reparou (depois descobriu-se que Frey tinha feito o mesmo outras vezes) e denunciou o facto, tendo o economista acabado a pedir desculpas públicas.

Mas, lembra Nuno Garoupa, professor catedrático de Direito na George Mason University, (EUA), "houve quem defendesse Frey, dizendo que se há revistas que aceitam o autoplágio, que fecham os olhos, este é legítimo. A verdade porém é que houve revistas que retiraram os textos dele."

Garante que no seu caso leva o escrúpulo ao ponto de, se tem "um paper em inglês e depois sai em português ou espanhol, conta [no CV] como sendo o mesmo, não papers distintos." Já sobre o autoplágio ou "reciclagem" de texto, não tendo dúvidas de que é uma prática "muito malvista", admite que "está numa zona cinzenta, porque não é taxativamente negada pelas ciências sociais, embora seja criticada por muita gente. Cada instituição, cada júri, tem práticas distintas. Já estive em júris em que isso foi detetado e avaliado negativamente. O problema é que os júris raramente dão conta, a não ser que saibam de antemão. A Fundação para a Ciência e Tecnologia, por exemplo, mede a quantidade e não diz que tem de se excluir papers repetidos - devia tornar claro que os reciclados não contam."

Pedro Magalhães admite que "há zonas cinzentas", mas vê-as de forma diferente da argumentada por Nuno Garoupa: "Nalguns casos, pode considerar-se que o uso limitado de texto duplicado em publicações diferentes sem citação pode ser admissível, quando parafrasear a linguagem anterior pode torná-la menos precisa e, ao mesmo tempo, se quer evitar autocitações excessivas (que também são malvistas). Isto é "cinzento' porque conceitos como "limitado' e "excessivo" podem ser interpretados de maneiras diferentes por pessoas diferentes."

Por esse motivo, informa, "há até disciplinas que têm regras sobre isto. Em Psicologia, por exemplo, limita-se expressamente o número de palavras que pode ser reproduzida de outros textos, mesmo com citação, para não haver equívocos. A Psicologia é muito referida nestes casos porque não creio que haja regras tão claras como "número de palavras" noutras disciplinas. É possível que haja mas eu não conheço."

Revista da qual Varela é editora condena autoplágio: "É conduta imprópria"

Naturalmente, o DN não escrutinou toda a produção científica elencada no CV desta historiadora, não só porque são várias dezenas de textos os ali enumerados, mas porque muitos artigos e capítulos de livros não estão em acesso livre, ou disponíveis na net, pelo que o jornal não lhes conseguiu aceder. Mas há pelo menos outros três textos em língua portuguesa assinados por Raquel Varela nos quais se encontram vastos excertos em comum com os três já mencionados.

Trata-se de Segurança Social, Trabalho e Estado em Portugal, assinado por Varela e por Luísa Barbosa Duarte, publicado na Revista Temporalis (Brasil) em 2016, e de Ruptura e Pacto Social em Portugal. Um Olhar sobre as Crises Económicas, Conflitos Políticos e Direitos Sociais em Portugal (1973-1975, 1981-1986), capítulo de um livro editado pela Bertrand em 2012 e do qual Varela é coordenadora, por sua vez praticamente igual a um texto publicado na revista brasileira Uberlândia/História e Perspectivas em 2013, assinado também pela historiadora, com o título Ruptura e Pacto Social Em Portugal (1974-2012).

No CV de Varela encontra-se ainda outro texto com o nome Ruptura e Pacto Social em Portugal (1974/2012), este como capítulo de um livro editado em 2013 no Brasil, mas o DN não conseguiu perceber se se trata de um erro de catalogação no CV ou de facto de outro texto (foi pedido à autora que o disponibilizasse, sem sucesso).

Estas republicações de conteúdo não ocorrem apenas em língua portuguesa: situação semelhante verifica-se por exemplo com o capítulo 4 do livro A People"s History of Europe/From World War I to Today, publicado em 2021 na Pluto Press (trata-se, como está certificado na edição inglesa, da tradução, com financiamento da Fundação para a Ciência e Tecnologia, do livro Breve História da Europa - da Grande Guerra aos nossos dias, Bertrand, 2018). O capítulo inicia-se na página 83 do livro e até à 103 é igual ao artigo The 1945 European Social Pact, publicado em 2019 no número 1 do volume 47 da revista britânica Critique, na qual Raquel Varela é subeditora. Sucede que nem no livro publicado em 2021 em inglês se vislumbra referência ao artigo da Critique nem neste artigo se encontra referência ao livro português publicado no mesmo ano - embora a Critique tenha publicado, noutro número, uma recensão crítica a esse mesmo livro, assinada por João Moreira.

Como já vimos, a referência, em textos académicos, a eventuais publicações anteriores de um determinado conteúdo não é apenas uma questão de boas maneiras: a maioria das revistas que se identificam como científicas impõem que os trabalhos entregues para publicação sejam originais, reservando-se até o direito de os "despublicar" caso constatem não ser o caso. Nesta situação estão pelo menos duas das revistas brasileiras em que Varela publicou textos praticamente iguais (o DN contactou uma delas por mail, expondo a situação, mas não houve reação). E há aquelas, como a própria Critique - na qual, repita-se, Varela é editora, além de ali publicar - muito claras na recusa da prática de "reciclagem de texto" ou "autoplágio".

O autoplágio, lê-se no site da casa editora da Critique, "consiste na publicação do que é essencialmente o mesmo paper/trabalho académico em mais do que uma revista", "incluindo texto traduzido noutra língua", mas "sem indicação de que foi previamente publicado noutro lugar". Qualificando como "misconduct" - "má conduta", ou "comportamento impróprio" - o que descreve como "o uso de largos excertos de trabalhos anteriores", "publicação redundante ou duplicada" e "sem citação" ( exatamente aquilo que o DN detetou no caso de Raquel Varela), a casa editora estabelece que "quaisquer alegações de plágio ou autoplágio serão investigadas pelo editor da revista e pela casa editora, seguindo as regras da COPE [Committee on Publication Ethics, uma organização que apoia os editores de publicações académicas no sentido de aperfeiçoar a ética envolvida]." Se as alegações parecerem fundamentadas, anuncia-se, "contactaremos todos os autores do texto requerendo uma explicação sobre o conteúdo igual. Poderemos também solicitar aos membros do conselho editorial e à instituição de acolhimento do autor ou autores que nos assistam na análise do texto e das alegações."

Advertindo que "quando não for evitável o uso de algumas partes de textos anteriores os autores devem ser transparentes em relação à existência do trabalho anteriormente publicado e inserir citação apropriada", a casa editora da Critique explica porque condena a prática do autoplágio: não apenas cria repetição na literatura académica como perverte as meta-análises.

"É uma fraude que o mesmo texto surja várias vezes no CV"

O historiador António Araújo vê outra perversão. "Trata-se de um expediente para inflacionar a produção académica, científica e eticamente reprovável." E explica: "O autoplágio não é "crime", só o é na medida em que se apresentem como inéditos textos que o não são; por outro lado, mesmo não sendo "crime", é uma fraude que o mesmo texto surja várias vezes no CV: no limite, alguém poderia escrever apenas um artigo na vida inteira e depois ir multiplicando a sua publicação por 10, 20, 40 vezes... Por isso - e para se defenderem desse procedimento - as revistas impõem o ineditismo, o qual, neste caso, não parece ter sido cumprido."

Este caso é o de Raquel Varela: o DN enviou a Araújo vários dos textos em que foram encontradas extensas repetições, mas sem as assinalar, para que o historiador fizesse o seu próprio juízo. E esse juízo é de que os dois textos cujo título começa por Ruptura Social, um publicado como artigo numa revista e o outro como capítulo de livro, "são o mesmo texto". E que um dos artigos que Varela assina com Luísa Barbosa Pereira -"Direito ao Trabalho", Saúde, Educação e o Nascimento do Estado Social - é muito idêntico a Estado Social, Assistência Social e Precariedade Laboral em Portugal (1974/2015) , do qual se apresenta como única autora.

Assim, conclui Araújo, quanto aos textos Ruptura Social: "Raquel Varela publicou duas vezes o mesmo texto; uma dessas vezes numa revista que exigia textos inéditos; na outra, num livro em que surge como coordenadora - sendo, para mais, o único texto que publicou nesse livro. Independentemente de este expediente ser admitido ou não do ponto de vista da FCT e dos índices de produtividade, é científica e eticamente reprovável (e a prova é que na revista brasileira não se identifica que o texto já havia saído em Portugal, nem no livro português se refere que o texto fora apresentado para publicação no Brasil)".

O também historiador Fernando Rosas concorre com António Araújo na apreciação sobre o autoplágio: "Pode ser uma fraude curricular. Do ponto de vista da avaliação curricular é uma fraude ao sistema."

"O sistema de avaliação neste momento é quantitativo. E os avaliadores não aprofundam - como é que leem 50 artigos? Não se leem. A perversão principal está no sistema: se escrever um livro não lhe serve de nada, mas se publicar três artigos em revistas com árbitro é muito melhor. Então a pessoas reutilizam textos - mudam uma frase no início, outra no meio e outra no fim, arranjam-se uns alunos que assinam com o autor sem saber que ele já escreveu aquilo noutro lado, e dizem que é diferente." (Fernando Rosas, historiador)

Mas este catedrático da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova, que fez parte do júri que aprovou, por unanimidade, a agregação de Raquel Varela naquela escola - em provas nas quais o CV foi um dos parâmetros da avaliação - põe alguma água na fervura. "O sistema académico pressupõe que as pessoas escrevam artigos originais. Mas o sistema de avaliação neste momento é quantitativo. E os avaliadores não aprofundam - como é que leem 50 artigos? Não se leem. A perversão principal está no sistema: se escrever um livro não lhe serve de nada, mas se publicar três artigos em revistas com árbitro é muito melhor. Então a pessoas reutilizam textos - mudam uma frase no início, outra no meio e outra no fim, arranjam-se uns alunos que assinam com o autor sem saber que ele já escreveu aquilo noutro lado, e dizem que é diferente."

Em relação a Raquel Varela, Rosas não quer tecer qualquer consideração. Mas adianta, genericamente: "O CV de um investigador deve ser avaliado por várias instâncias - os júris dos concursos da Fundação para a Ciência e Tecnologia, por exemplo, devem avaliar os CV. Quanto a qualquer queixa que seja apresentada, na FCSH deve ser o Conselho Científico a apreciá-la."

Os "erros no CV" detetados pelo Instituto de História Contemporânea

Todos os textos referidos pelo DN (com a possível exceção do publicado na revista História e Perspectivas em 2013, que pode ou não estar estar erradamente "catalogado" como capítulo de livro) estão elencados no chamado "CV público" de Varela constante no Ciência Vitae, assim como na versão desse CV que apresentou no âmbito de um concurso recente da Fundação para a Ciência e Tecnologia, e cujo "resumo", com a contabilidade que faz dos textos académicos que publicou, está no centro da polémica surgida em a 20 de setembro a partir de uma notícia do Público.

De acordo com essa notícia, várias queixas relativas ao CV da historiadora foram chegando, ao longo do tempo, à FCT, à FCSH e ao Instituto de História Contemporânea (ao qual Varela estava vinculada há cerca de uma década), mas nenhuma terá merecido sequência por estas instituições. Até que em julho o Público as inquiriu sobre o mesmo assunto; perante a insistência do jornal, o IHC examinou o currículo e deu-se conta daquilo que apelida de "erros". Acabaria, por esse motivo, por decidir deixar de ser a "entidade de acolhimento científico" da candidatura que a investigadora apresentara à FCT.

A 21 de setembro, o IHC fez um comunicado a clarificar a situação: Varela apresentara na candidatura à FCT um currículo em cujo resumo afirma ter publicado "67 artigos em revistas indexadas na ISI Thompson, Scopus, CAPES Qualis A [sistemas de indexação de produção científica]: 38 destes como autora única e nos últimos cinco anos". Sendo que, segundo o instituto, "o número de artigos publicados pela candidata em revistas indexadas na ISI Thompson, Scopus, CAPES Qualis A é, aproximadamente, metade do que é referido. O número de artigos publicados como autora individual nos últimos cinco anos em revistas indexadas na ISI Thompson, Scopus, CAPES Qualis A é, aproximadamente, um terço do indicado pela candidata." O IHC garante que pediu várias vezes a Varela que revisse o CV "que apresentou a concurso" e esclarecesse o instituto "a respeito de erros constantes no mesmo." Como ela o não fizesse, o instituto comunicou à FCT a desvinculação.

No seu Direito de Resposta ao Público, Raquel Varela parece desmentir-se a si própria: aponta 18 artigos publicados como autora única nos sistemas indexados, quando no resumo do seu CV entregue para concurso na FCT e no qual o Instituto de História Contemporânea lhe aponta "erros" diz que são 38 nessa categoria.

Raquel Varela tem uma versão diferente: foi ela que decidiu sair, juntamente com o Grupo de Estudos da História Global do Trabalho, que coordena, e não há erros no seu CV. Mas no direito de resposta que envia ao Público a própria parece desmentir o resumo que enviou para o concurso da FCT: "Podem ler-se coisas no Público, com base na nota [do IHC], como "tem pouco mais de uma dezena" de artigos indexados em três índices nos últimos cinco anos, como autor. São 18, só nessa categoria." 18 são menos 20 que os 38 citados pelo IHC como tendo sido indicados por Varela no resumo do CV apresentado a concurso nessa categoria (publicados, como única autora, em três sistemas de indexação nos últimos cinco anos). Um desencontro que a historiadora não explica.

A 2 de outubro, o Público deu a notícia de que a FCSH nomeou dois membros do seu Conselho Científico para "proceder à avaliação" dos problemas detectados pelo IHC no CV de Varela - o que tanto pode ser interpretado como um escrutínio da historiadora como do instituto.

É com base nesta decisão que a FCSH - acusada pelo catedrático de História daquela faculdade Diogo Ramada Curto, em declarações ao Observador, de ter lançado um concurso para professor "com a fotografia de Raquel Varela", ou seja, tratar-se-á de um falso concurso público, desenhado para a contratar (Ramada Curto disse ao DN que pondera apresentar queixa ao Ministério Público) - recusou, aparentemente, tomar conhecimento dos factos que o DN lhe reportou, relativos à matéria deste artigo, ou seja, ao autoplágio detetado pelo jornal em vários textos da historiadora.

Faculdade recusa dizer o que acha de "reciclagem de textos"

Não respondendo a qualquer das 15 perguntas que foram enviadas esta quarta-feira de manhã pelo jornal ao seu diretor, Luís Baptista, a FCSH trata os erros apontados pelo IHC e a informação nova que o jornal lhe apresenta como se fosse tudo a mesma coisa.

"A NOVA FCSH, através dos seus órgãos internos, nomeadamente do que tem competências para o efeito, está a analisar os alegados erros, indicados pelo Instituto de História Contemporânea, no CV da investigadora Raquel Varela", lê-se na resposta enviada ao DN. "Estando esse processo em curso, a direção da NOVA FCSH não tem, de momento, nada a acrescentar às informações já fornecidas aos órgãos de comunicação social."

Repare-se que, estando os artigos e capítulos de livros nos quais o DN encontrou autoplágio no CV que a FCSH se propõe analisar, o problema deixa de ser de mera contabilidade: é necessário apreciar os textos em si ou colocá-los nos programas que todas as universidades têm para detetar plágios e que "apanham" repetições.

Isto se a ideia for de facto avaliar o CV de Raquel Varela. Mas a FCSH, além de não anunciar qualquer intenção de fazer o escrutínio das situações que o DN lhe apresentou, recusa sequer responder a perguntas genéricas como: qual a política da FCSH no que respeita à publicação de textos académicos idênticos ou com muitas sobreposições de conteúdo sem que essa identidade seja assumida/referenciada? Como a qualifica? A quem cabe verificar os CV apresentados a concurso (apenas à FCT ou também às chamadas "instituições de acolhimento)? Que consequências considera o diretor da FCSH serem as adequadas para prática reiterada de autoplágio em publicações académicas apresentadas em CV para concurso?

Sendo vários os embaraços em causa nesta trapalhada, o mais pequeno não será aquele no qual a própria Raquel Varela mais tem insistido - o seu CV foi submetido a várias avaliações formais, na academia, ao longo do tempo e nunca lhe foram apontados "erros", muito menos autoplágio.

Releva isso no post em que "responde" ao DN: "Uma jornalista achar que se pode substituir a um júri nomeado pelo conselho científico [referir-se-á ao júri das provas de agregação] é um gravíssimo problema ético - querer fazer de justiceiro e substituir-se aos órgãos científicos é grave. Andar a contar caracteres do meu CV que foi defendido com 7 catedráticos especializados, é grave, e lamentável. É como a jornalista pegar na bula de um medicamento e ir para os jornais dar lições de medicina. Se não fosse trágico, era cómico. Por exemplo, terá escapado à jornalista que o meu CV com "milhares de caracteres repetidos" foi selecionado pela direção do IHC entre os 15 melhores, entre 400, para a avaliação do próprio IHC junto da FCT?"

"Uma jornalista achar que se pode substituir a um júri nomeado pelo conselho científico [aqui refere-se ao júri das provas de agregação] é um gravíssimo problema ético - querer fazer de justiceiro e substituir-se aos órgãos científicos é grave. Andar a contar caracteres do meu CV que foi defendido com 7 catedráticos especializados, é grave, e lamentável." (Raquel Varela)

O mesmíssimo IHC que agora viu erros no seu CV. E que sobre a matéria em causa neste artigo responde assim: "Os aspetos da produção científica da investigadora que são alegados pelo Diário de Notícias não foram objeto de escrutínio pela direção do IHC no momento em que procedemos à verificação do currículo que a candidata apresentou ao concurso [da FCT] em questão. Por isso, a direção do IHC não está neste momento em condições de se pronunciar sobre esses aspetos."

Justifica assim essa incapacidade: "A investigadora Raquel Cardeira Varela pediu a sua desvinculação do IHC no dia 10 de setembro, informando-nos que, de então em diante, no quadro do contrato de Investigadora Auxiliar (Programa Investigador FCT) de que beneficia, passaria a responder apenas à FCSH e à NOVA, instituições contratantes, e à própria FCT. A partir desse momento, o IHC interagiu com a investigadora em questão apenas na medida em que esta permaneceu como candidata a um concurso público internacional promovido pela FCT no qual o IHC era instituição de acolhimento científico. A investigadora em questão, ainda que se tenha desvinculado do IHC, não terá retirado a sua candidatura ao concurso em causa."

Por responder ficam mais uma vez várias perguntas, incluindo a mais óbvia e básica de todas: a quem cabe verificar se os CV apresentados a concurso por investigadores vinculados ao instituto ou à Nova estão corretos? Por outras palavras: quem na Universidade Nova (ou noutra qualquer instituição académica, em situações similares) é responsável por essa validação? Quem, além da historiadora, deve ser responsabilizado se se vier a concluir que, retiradas as repetições detetadas pelo IHC e os autoplágios indiciados pelo DN, a real produção académica de Varela é muito inferior àquela que tem exibido e usado como argumento em sucessivos concursos para atribuição de dinheiros públicos?

António Araújo responde: "A confirmar-se o que diz o IHC, o que disse o historiador Diogo Ramada Curto e o que agora diz o DN, trata-se de uma situação grave, que deveria obrigar a repensar o atual sistema de avaliação académica no domínio das ciências sociais, o qual assenta numa ideia cega de "internacionalização" e se fixa obsessivamente nas "métricas" quantitativas de produção científica, sem sequer indagar do conteúdo e da qualidade do que se vai publicando (e até, o que é mais grave, sem verificar se existem plágios, autoplágios e fraudes académicas no que se vai publicando). A verificarem-se as suspeitas, elas não comprometem apenas Raquel Varela, mas também - e sobretudo - quem a avaliou ao longo de anos, quem lhe deu bolsas, posições e lugares na academia. Ou, melhor, quem não a avaliou, quem não fez sequer o esforço mínimo de ler o que ela foi escrevendo; se o tivessem feito, as fraudes seriam facilmente e rapidamente detetáveis, como parece resultar desta revelação do DN."

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