Há 24 anos no mesmo passeio a vender flores

Fernanda é florista de rua, em frente às Torres de Lisboa. Há anos que reclama para ter um resguardo e uma melhor visibilidade para quem passa de carro

Faça chuva ou faço sol, Fernanda monta a banca das flores na Rua dos Soeiros, em frente às Torres de Lisboa, em São Domingos de Benfica. A céu aberto, apenas com um chapéu-de-sol, o que lhe causa grande transtorno e já motivou cartas para a junta da freguesia. "Dois metros à frente e num abrigo tipo paragem de autocarro como há em Carnide e seria muito melhor", reclama. Mas o "negócio das flores é bonito" e "vai dando", razões para manter Guilhermina Fernanda Coelho naquele passeio, há quase 24 anos.

Festeja o aniversário em janeiro. E se fosse hoje voltava a ser florista. "Se tivesse a mesma possibilidade, vinha outra vez para o negócio. É um trabalho bonito." Justifica quem não tem preferências pelo tipo de flor, só pela cor. "Gosto de todas as flores desde que sejam cor-de-rosa. E, para início de conversa: "Não me trate por Guilhermina, não gosto e ninguém me chama assim."

Fernanda, como é conhecida em casa desde menina e entre os clientes, tem mais três irmãs e todas com Fernanda como segundo nome. Tem 65 anos, tinha 42 quando se aventurou no negócio. "Andava a trabalhar a dias e, como o dinheiro não dava, lancei-me nisto. Estou aqui todos os dias, menos aos domingos. Mas venho se alguma pessoa precisar de flores." Põe os vasos com as flores no passeio a partir das 10.00 e ali se mantém até ao fim do dia, "até quando me apetecer. Se estiver mau tempo e não estiver a dar, vou embora."

A explicação é pretexto para lamentar um negócio que teve melhores dias, não só por causa da concorrência, que aumentou, mas também porque se compram menos flores. "Isto não é uma necessidade, muitos dos moradores são idosos, o dinheiro é pouco, lá vão comprando uma flor. Tem sido bom as empresas que vieram para aqui, mas bom, bom era quando estava cá a Telecel. Tinha muita gente. Tento ter variedade e bons preços. Precisava de estar mais à vista, com as filas de carro quase não me veem. Costumava dizer que o sábado é o melhor dia, agora nem sei." Precisava de ter mais Dia dos Namorados, celebração que lhe garante a maior receita do ano.

Viu construir as Torres de Benfica. "Esses prédios e muitos outros, mas sabe que desde que fizeram as Torres que faz aqui mais vento. Faz ali um túnel e o vento vem todo por aí."

Traz as refeições de casa, beneficia da boa vontade dos moradores de um prédio, que lhe emprestam um cantinho da garagem. "Facilitou muito a minha vida. Antes deixava os molhos das flores na casa das freiras [na Estrada da Luz e a cerca de 1500 metros]. Tinha de fazer várias viagens a pé, porque não tenho carro". É que já lhe basta ir ao Mercado Abastecedor de Lisboa, em Loures, o que significa pagar três vezes mais pelo táxi do que quando o mercado era na Praça da Ribeira. Vale-lhe a ajuda de um filho e os grossistas que entregam as coisas à porta.

O seu "jardim" tem hoje margaridas, gerberas, cravinas, alstroemérias, coroas-imperiais, orquídeas, antúrios, lisandros, rosas (portuguesas e importadas) e verdura. Vende à unidade ou em raminhos que ela própria faz: uma rosa custa dois euros, um ramo cinco, valores que dependem da época do ano. Nesta altura, em que os preços começam a ser mais elevados, tem de recorrer ao produto estrangeiro.

O DN está a publicar uma série de reportagens dedicadas à sua nova vizinhança, junto às Torres de Lisboa.

Mais Notícias

Outras Notícias GMG