Maiores de 60 vacinados até ao início de junho. Duas semanas a um mês para ficar no limiar do risco

Reunião do Infarmed voltou esta terça-feira a juntar especialistas e responsáveis políticos. Epidemiologista Baltazar Nunes antecipa que, com o atual ritmo de contágios por covid-19 o país levará entre "duas semanas e um mês" a chegar ao limite de 120 casos por cem mil habitantes.

Henrique Gouveia e Melo, coordenador da task force da vacinação, avançou esta terça-feira que todas as pessoas com mais de 60 anos deverão estar vacinadas até à "última semana de maio, primeira de junho". Uma faixa etária particularmente relevante quando os dados mostram que "96,4% das pessoas que faleceram em resultado desta pandemia" estão neste grupo etário, sublinhou o vice-almirante.

Gouveia e Melo, que fez a última intervenção da reunião do Infarmed, onde os principais responsáveis políticos voltaram a ouvir os especialistas sobre a evolução da pandemia, avançou também o objetivo de que, até final de julho/agosto, toda a população com mais de 30 anos tenha recebido pelo menos uma dose da vacina.

O coordenador da task force diz que o processo de vacinação está numa fase de transição, e que a partir de agora 90% das vacinas serão administradas por faixa etária, enquanto os 10% restantes serão atribuídas não pela idade, mas em função de outras doenças. Com esta alteração, o processo de vacinação vai passar para uma fase de -, em que as pessoas da faixa etária abrangida pela vacinação poderão, elas próprias, fazer o agendamento. A marcação poderá ser feita através de um portal que vai ser criado para este efeito. Juntas de freguesia, PSP, GNR e bombeiros darão apoio a quem precisar de ajuda para fazer a marcação.

Segundo Gouveia e Melo nesta altura há a capacidade de administrar 97 mil vacinas diariamente. "Neste trimestre teremos uma média de administração de vacinas na ordem das 97 mil por dia. Já chegaram a território nacional cerca de 2,6 milhões de vacinas e foram administradas até domingo passado 2,1 milhões de doses: 1,5 milhões de primeira dose, ou seja, mais de 15% da população, e 600 mil de segunda dose", avançou Gouveia e Melo. Quanto à cobertura da vacinação "nos mais de 80 anos já estamos acima de 90%, entre os 50 e os 80 anos com comorbilidades tipo 1 estamos acima de 80%, nos profissionais de saúde nos 96%, nos serviços essenciais em 99% e nas escolas nos 23%".

Ao ritmo atual a linha vermelha está à distância de "duas semanas a um mês"

Baltazar Nunes, do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (INSA), antecipa que com o atual ritmo de contágios por covid-19 o país levará entre "duas semanas e um mês" a chegar ao limite dos 120 casos por cem mil habitantes, uma das linhas vermelhas que levará a travar o desconfinamento.

"Com este nível de crescimento e taxa próxima de 71 casos por 100 mil habitantes, o tempo para chegar à linha dos 120 está entre duas semanas e um mês", avançou Baltazar Nunes.

Nesta altura o Algarve já está acima desta fasquia. Já Lisboa e Vale do Tejo apresenta menor risco de atingir este valor a curto-prazo dado que tem uma "taxa de crescimento praticamente nula".

O especialista sublinha que, atualmente, "há uma inversão da tendência", que passou para uma situação de "crescimento dos novos casos por dia". Na incidência por idades, Baltazar Nunes corrobora os dados apresentados antes por André Peralta Santos, da Direção-Geral da Saúde (DGS), apontando um "aumento significativo" da incidência na faixa etária até aos 9 anos, em particular entre os cinco, seis anos. Uma tendência de subida que também já pode ser identificada entre a população ativa.

Comparando com a realidade europeia Baltazar Nunes diz que, apesar do R(t) estar agora acima de um, a incidência no país continua "muito mais baixa que na maioria dos países da Europa".

Antes, André Peralta Santos, da Direção-Geral da Saúde (DGS), que abriu esta terça-feira as intervenções na reunião do Infarmed que junta especialistas e responsáveis políticos, apontou uma situação de incidência "moderada" no país, com cerca de 71 casos casos por 100 mil habitantes.

Há, no entanto, 22 concelhos com mais de 120 casos por 100 mil habitantes, somando um total de 636 mil pessoas - 6,5% da população.

Em termos etários, o especialista da DGS aponta uma "redução muito assinalável em todos os grupos" por comparação com os números de janeiro, um decréscimo que é mais significativo na faixa etária acima dos 80 anos, situação explicada pela vacinação. Nesta altura há 121 casos ativos em lares, o "número mais baixo desde que há registos".

Os dados mostram, por outro lado, um aumento da taxa de incidência "na faixa etária dos zero aos 9 anos", que regressou às escolas a 15 de março. André Peralta Santos diz também que outras faixas etárias "já começam a mostrar alguma inversão de tendência", caso da população ativa.

André Peralta Santos fala também na testagem, apontando um aumento no número de testes realizados. Segundo o especialista a taxa de positividade mantém-se inferior a 4%, embora alguns concelhos ultrapassem este valor.

A questão do aumento da taxa de incidência entre os mais novos voltou a ser abordada por Henrique Barros, do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto, que levou à reunião os resultados de um estudo feito em dois agrupamentos escolares, em Santa Maria da Feira e Paredes, abarcando 1129 estudantes e 210 profissionais. O epidemiologista defendeu que "as escolas podem e devem ser estruturas 'sentinela' para vigilância epidemiológica" e sublinhou que a variação de risco identificada entre turmas com um contexto escolar "semelhante" indicia um papel relevante do risco de infeção no espaço exterior à escola.

Mas Henrique Barros relativizou a tendência de crescimento da infeção entre os mais jovens, dado que mesmo com uma subida de casos estamos a falar de números baixos, pelo que "o ruído acaba por ser maior do que o sinal dado". "Ao contrário do que se verifica nos funcionários, que são adultos, nas crianças a proporção de marcador de infeção é muito mais baixa", sublinhou o epidemiologista.

Variante brasileira representa 83% dos casos

No que se refere às variantes genéticas, João Paulo Gomes, do INSA, avançou que na primeira semana de março a variante predominante em Portugal era a britânica, que representava então 83% dos casos, uma percentagem que deverá aumentar.

Quanto à variante brasileira, o especialista referiu que representou 0% em janeiro, 0,4% em fevereiro e o mesmo valor em março, "níveis residuais de disseminação" que qualificou como surpreendentes, face à numerosa comunidade brasileira em Portugal e os voos para o Brasil.

Já a variante da África da Sul é motivo para "alguma preocupação", dado que regista um aumento de casos com "algum significado" - há 53 casos confirmados. Segundo este especialista, o número de casos quase triplicou em duas semanas e só estamos a ver "a ponta do iceberg".

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