Gouveia e Melo voltou ao EMGFA e já tem planos para a Marinha do futuro

O impasse na substituição do Chefe da Armada não abateu o vice-almirante, mas há receio que o atraso na nomeação e a recondução do Chefe do Exército comprometam a reforma das Forças Armadas aprovada pela maioria dos deputados no parlamento

O vice-almirante Gouveia e Melo, que o governo escolheu para ser o futuro Chefe de Estado-Maior da Armada (CEMA), voltou ao seu anterior lugar no Estado-Maior-General das Forças Armadas (EMGFA), que ocupava antes de integrar a task force da vacinação contra a Covid-19.

É adjunto para o planeamento e coordenação, uma espécie de braço direito do Chefe de Estado-Maior-General (CEMGFA), almirante Silva Ribeiro, para todas as missões centrais desta estrutura.

Apesar deste seu regresso ser apenas temporário, o DN apurou junto a fontes da Defesa, que Gouveia e Melo fez questão em voltar a empenhar-se em duas áreas que lhe são particularmente caras: a ciberdefesa e a robotização da guerra, ambas apostas do CEMGFA, conforme o DN já noticiou.

Sem data ainda para assumir a liderança da Marinha, depois de se ter visto envolvido numa guerra de poder entre o governo e o Presidente da República (PR), o vice-almirante não demonstra, de acordo ainda com as mesmas fontes, que esteja abatido com a situação.

Os planos para uma Marinha com futuro já os tem feitos há muito tempo e são públicos (basta ler a edição número 53 dos Cadernos Navais, de 2019, com 76 páginas da sua autoria em que descreve o que é necessário para "Uma Marinha útil e minimamente significativa") , como assinalou um oficial do Ramo, que pediu anonimato por ainda estar no ativo. Em síntese, essencialmente uma Marinha mais equilibrada, holística no mar, catalisadora da indústria e conhecimento nacionais, robotizada e avançada tecnologicamente.

Armadilha para o vice-almirante?

Mas Gouveia e Melo pode ter problemas quando assumir o seu novo posto, segundo sublinha outro oficial superior nas mesmas condições de anonimato. "O atual CEMA, Mendes Calado, tem feito várias promoções nos últimos tempos para colocar homens de confiança em lugares-chave e receia-se que possam vir a tornar-se armadilhas para o novo Chefe".

O DN questionou o gabinete de Mendes Calado sobre este cenário, mas não recebeu resposta. Gouveia e Melo não quis falar ao DN, invocando a reserva a que se comprometeu com a saída da task force.

Para várias fontes ligadas à Defesa, militares e civis, contactadas pelo DN, Calado não devia aceitar permanecer à frente da Marinha, principalmente depois de ter vindo a público que o governo o ia demitir, mas também, quando há cerca de um mês viu recusado pelo ministro o nome que tinha proposto para Comandante Naval, o mais importante cargo operacional. "Teria saído pela porta da frente", dizem estas fontes.

O general Carlos Chaves, ex-assessor para a defesa e segurança de Passos Coelho, dá a cara nesta polémica e fala na sua experiência: "ter um Chefe de Ramo incompatibilizado com um ministro e, neste caso ao que se sabe, com o CEMGFA, é insustentável e só prejudica tudo e todos", sublinha .

"O relacionamento entre as pessoas é fundamental. Assisti de perto ao prejuízo causado no processo de exoneração do general Garcia dos Santos, proposto pelo governo Mário Soares / Mota Pinto, que o então Presidente da República, Ramalho Eanes, recusou. Foram três meses com prejuízo para a democracia, para instituições e para o país", salienta o general.

O DN também questionou o CEMA sobre se entendia que tinha condições para continuar no cargo, mas não obteve qualquer resposta.

Um sentimento de apreensão instalou-se também no Exército com a recondução do atual Chefe de Estado-Maior do Exército, Nunes da Fonseca, que tal como Mendes Calado e o Chefe da Força Aérea, Joaquim Borrego, são contra as alterações na estrutura superior das Forças Armadas (na linha de um grupo de oficiais generais na reforma, encabeçados por Ramalho Eanes) aprovada pela maioria dos deputados no parlamento (PSD, PS e CDS), que confere maior poder de comando operacional ao CEMGFA. "Mudar mentalidades e atenuar rivalidades", assinalou Silva Ribeiro no parlamento.

Conflito de gerações

"As reconduções devem ser uma exceção em circunstâncias excecionais, como foi o caso do CEMGFA, em plena pandemia. O normal são os três anos previstos. Depois deve abrir-se espaço para o rejuvenescimento", assevera Carlos Chaves.

A mesma opinião têm as fontes da Defesa consultadas pelo DN e alertam para o "conflito de gerações" que se instalou e vai agravar. "Há uma paragem no processo de rejuvenescimento do Ramo. A saída do CEME implicava promoções de novos oficiais generais e isso teria um efeito dominó nos outros postos, valorizando os mais novos. Esta decisão, que só pode ser vista como um estado de alma, tem um impacto nefasto em toda a estrutura e receia-se agora a manutenção da visão conservadora e anti-reforma, que poderá consolidar-se com a recondução também do Chefe da Força Aérea, se tal ocorrer", afiançam.

António Costa disse há um mês que a reforma aprovada tinha de "simplesmente ser implementada com a energia, a determinação e a flexibilidade que são a imagem de marca das Forças Armadas portuguesas".

Só uma visão "muito otimista pode acreditar que tal será possível não renovando chefias", dizem os mesmos interlocutores. "Podem dizer que cumprem a lei mas toda a gente sabe que há muitas formas de a ir bloqueando. Fica-se com a ideia que quem manda realmente nas Forças Armadas é um grupo de generais reformados que pouco conhecem da atualidade realidade operacional".

O PSD, que apoiou esta reforma do governo e a considerou "inevitável", frisando até que não cedia a "pressões" do grupo de oficiais generais na reforma, pediu para ouvir João Gomes Cravinho no parlamento.

Ana Miguel Santos, coordenadora para a defesa do grupo parlamentar, remeteu o DN para as declarações que fez à RTP e que deixaram claro que os sociais-democratas não vão deixar cair a reforma, sublinhando a importância "que se reforce ou não a confiança num Chefe que está em exercício". Questionada pelo DN sobre que leitura fazia do sinal dado pela recondução do CEME e do impasse na substituição do CEMA, não quis comentar.

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