Gangues. PJ tem identificados 30 grupos juvenis na zona de Lisboa

O homicídio de Rafael Vaz Lopes, de apenas 19 anos, foi resultado de uma escalada de violência que teve como primeiro campo de batalha as redes sociais, e depois passou para o mundo real. Não foi o primeiro caso a acabar com um miúdo a matar outro miúdo. Nem o primeiro a ter por detrás rivalidades entre grupos de jovens

A Polícia Judiciária (PJ) tem identificados e em monitorização pelo menos três dezenas de grupos de jovens de bairros (designados Zonas Urbanas Sensíveis) da zona da grande Lisboa, com ligações a atividades criminosas. Os conflitos entre estes grupos estão em escalada desde o desconfinamento da pandemia e têm as redes sociais como primeiro campo de batalha.

"Estes grupos funcionam pela proximidade territorial e pelas redes sociais. Pela internet difundem o seu poder, a sua imagem, as suas façanhas criminais, ostentam os objetos dos roubos ou relatam os seus ataques. Nos fins de semanas as festas abundam e há sempre muito álcool envolvido. Em geral acabam em conflitos, há incursões de grupos nos bairros inimigos, muitas vezes envolvem ajustes de contas que podem ser tão triviais como por causa de alguma boca às namoradas ou algum comentário nas redes sociais, mas também roubos e agressões", explica ao DN fonte policial que acompanha o fenómeno.

Vingança por homicídio?

Rafael Vaz Lopes, de apenas 19 anos, são-tomense, foi a última das vítimas deste crescendo e os suspeitos da sua morte, quatro detidos pela PJ que ficaram esta sexta-feira em prisão preventiva, fazem parte de um grupo rival do Casal da Mira e têm também apenas 18 e 19 anos.

Apesar de não viver na Cova da Moura há quatro anos (os pais estavam em S. Tomé e vivia com a avó noutra zona de Lisboa), Rafael integrava o grupo "200 niggers", cujos membros têm todos menos de 20 anos, protagonizando, quer no bairro, quer fora dele, casos de conflitos e crimes. Rafael, ou "Rafa", como era conhecido, estava referenciado pela polícia por tráfico e roubos. Todos os seus quatro agressores também tinham registos na PJ pelo mesmo tipo de crimes e agressões.

Foi, aliás, este registo na posse da PJ que, cruzado com as imagens de videovigilância e com os testemunhos presenciais (amigos da vítima que estavam com Rafael na altura do ataque e que reconheceram os agressores), levou à detenção em tempo recorde, na mesma madrugada, de três dos suspeitos e do quarto nesta quinta-feira.

Nesta altura, a PJ está ainda a apurar como começou esta fatal escalada de violência. Uma das hipóteses em cima da mesa, apurou o DN, será o de uma vingança do grupo do Casal da Mira contra os "200 niggers", por causa de um homicídio em dezembro do ano passado de um membro daquele gangue de apenas 19 anos de idade, cuja autoria atribuem aos rivais da Cova da Moura.

Desconfinamento potenciou

"The 700 Gang", o "Boba 503", os "300 niggers" (além dos 200 niggers, há também os 500) e o "RBL Gang", na Amadora; o "PDS Gang", o "RDM Gang" e o "PMBrutoz", em Loures; o "RDP 6225", em Vila Franca de Xira, o "Five Kapa", de Odivelas, o "FDL 2", de Sintra, e o "AKJ" de Cascais, são alguns dos grupos de criminalidade grupal juvenil que têm estado na mira da PJ.

Estes dois últimos, aliás, foram alvo de múltiplas detenções relacionadas com crimes graves que praticaram, num contexto muito para além de meras rivalidades nas redes sociais. Foram elementos do gangue "FDL 2" os autores do esfaqueamento que matou do jovem de 24 anos no Campo Grande, em 2019, filho de um inspetor da PJ. Dois deles tinham 18 anos.

Em maio passado, a PJ deteve 20 jovens com idades entre os 17 e os 22 anos por "fortes indícios da prática de crimes de roubo, sequestro, furto qualificado, burla informática e detenção de arma proibida", um grupo que, segundo o comunicado oficial, era o "gangue AKJ", que atuava essencialmente nos concelhos de Cascais e Sintra, onde a maioria deles residia.

A investigação tinha começado em 2019 e partiu do alarme que as ações destes jovens estava a provocar na comunidade escolar, sendo que os autores, disse a PJ, "divulgavam vídeos das suas ações nas plataformas do ciberespaço e nas redes sociais, vangloriando-se dos crimes que cometiam e ameaçando as vítimas, casos os denunciassem". "De igual modo, desafiavam também os grupos rivais para encontros destinados a lutar pelo controlo dos territórios".

E apesar de as mortes não serem assim tão comuns nestes conflitos, a verdade é que nos últimos tempos as notícias de esfaqueamentos mortais entre jovens deste tipo de grupos vão surgindo.

Há cerca de um ano, um miúdo de 16 anos foi morto na estação de comboio da Amadora, também por uma disputa iniciada nas redes sociais. Os dois suspeitos foram detidos pela PJ. Um deles, de 15 anos, ficou sujeito a medidas tutelares educativas, o outro, que desferiu a facada, com 18 anos, foi acusado e o julgamento está em vias de ser marcado.

A polícia regista algum recrudescimento da violência entre este género de grupos desde que começou o desconfinamento - o que contraria a tendência decrescente dos últimos anos da criminalidade grupal e juvenil verificada nos últimos anos.

"Em alguns destes bairros têm sido frequentes as festas que envolvem centenas e milhares de pessoas. Os grupos rivais fazem incursões, provocam, roubam e depois há os contra-ataques. É um caldo enorme e uma espiral difícil de conter. Para estes jovens estas demonstrações de poder são o momento mais importantes da sua vida"

"Em alguns destes bairros têm sido frequentes as festas que envolvem centenas e milhares de pessoas. Os grupos rivais fazem incursões, provocam, roubam e depois há os contra-ataques. É um caldo enorme e uma espiral difícil de conter. Para estes jovens estas demonstrações de poder são o momento mais importantes da sua vida. A maior parte deles até está na escola, os pais trabalham, mas têm um enorme espaço de ação num contexto em que há uma enorme falta de referências, onde o controlo feito é só o repressivo", assevera a mesma fonte ligada à investigação e análise do fenómeno.

Numa faixa etária um pouco mais elevada, mas dentro da mesma dinâmica, ainda esta sexta-feira a PJ anunciou a detenção de um suspeito, de 31 anos, por homicídio qualificado na forma tentada de um jovem de 24 anos, atingido com oito tiros, na sequência, precisamente, de um conflito "iniciado na via pública onde decorria uma festa" na periferia do concelho da Amadora, no passado dia 1 de agosto.

"Os factos ocorreram no interior de um bairro social, local onde se tem verificado um acréscimo considerável de ocorrências criminosas, amiúde com recurso a armas de fogo, atentatórias da integridade física, da vida e do património de várias vítimas, residentes e não residentes no bairro", escreve a PJ em comunicado.

O presidente do Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo (OSCOT), António Nunes, sublinha que "houve uma acumulação de tensões e quando se descomprimiu, um pouco pelo desconfinamento, elas escaparam do mundo virtual".

Sublinha que "a delinquência juvenil não tem tido uma política sustentada de prevenção e controlo" e que "com a pandemia os problemas acentuaram-se". "Os jovens ficaram mais juntos, fortaleceram laços e fomentaram a presença nas redes sociais. A interação que antes era física passou para as redes sociais e agravou as rivalidades", sublinha.

Para António Nunes "era por isso essencial que houvesse uma política pensada holisticamente para prevenir a delinquência juvenil, incluindo o impacto das redes sociais nos jovens com estes enquadramentos sociodemográficos. Os contratos locais de segurança, que podiam ter um papel importante nesta matéria, não têm pura e simplesmente nenhuma eficácia, não há ligação aos líderes informais, não há criação de mediadores nestes bairros".

E o valor vida?

Na comunidade onde estes miúdos vivem, como a Cova da Moura, há muitas interrogações e poucas respostas. O que leva miúdos a matarem-se uns aos outros? Qual o valor que dão às suas vidas?

Celso Lopes, da Associação Moinho da Juventude, uma das mais antigas do bairro que tenta promover atividades de apoio aos jovens do bairro, mostra apreensão. "Não entendo mesmo esta situação e todas as outras que possam ocorrer depois desta... porque o ciclo de dor e vingança só traz mais do mesmo. Pessoalmente tenho muitos amigos no Casal da Mira e várias outras pessoas da minha geração também o têm. Por isso, isto tudo é algo que eu sinceramente não consigo entender, não sei o que se passa na cabeça desta juventude e o que a leva a fazer algo desta natureza. Esta nova geração tem muito mais do que a minha teve, mas, infelizmente, não aproveita as chances e a vida doutra forma", assevera Celso Lopes, que foi um dos jovens vítimas de violência policial na esquadra de Alfragide em 2015 (crimes que levaram à condenação de oito agentes da PSP, um deles chefe).

Jakilson Pereira, da direção do Moinho, defende que "não se trata de um fenómeno geográfico local, enquanto bairro. É um fenómeno global das redes sociais. Os miúdos absorvem toda a violência dos filmes que vêm principalmente dos EUA e tentam provar o seu poder através da violência. Os pais trabalham de sol a sol na sua maior parte e não estão com os filhos, nem têm sequer noção das dinâmicas que eles vivem nas redes sociais".

"São grupos que se alimentam dos likes no Instagram e nas redes sociais todos são scarfaces, todos são fortes e temíveis. Depois há um momento em que alguém passa do risco e às vezes, quando marcam as tais batalhas na rua, nunca viram sequer as caras uns dos outros"

Este dirigente associativo da Cova da Moura acredita que a maior parte "nem são gangues, no sentido de serem um grupo que se dedica ao crime organizado, com uma estrutura hierarquizada e um líder. São grupos que se alimentam dos likes no Instagram e nas redes sociais todos são scarfaces, todos são fortes e temíveis. Depois há um momento em que alguém passa do risco e às vezes, quando marcam as tais batalhas na rua, nunca viram sequer as caras uns dos outros".

José Semedo Fernandes, um dos advogados que defendeu as vítimas do processo de Alfragide, afiança que "muito do que se diz e escreve não é a realidade dos bairros" e que "certa comunicação social alimenta muito a narrativa dos gangues, quando na realidade, na maior parte dos casos, são apenas grupos de amigos que têm as suas rivalidades mútuas" e funcionam "como uma família, de irmãos, que se defendem uns aos outros".

No seu entender, esta "narrativa tem servido bem a dinâmica da polícia e para justificar as entradas violentas nos bairros". "Não deixam de ser miúdos que por algum motivo, nas redes sociais, passam para este patamar de violência", completa.

Um magistrado que trabalha na zona da Amadora confessou ao DN ter "muita dificuldade em entender" que "o valor vida não seja tido em conta por estes miúdos".

"Há um retrocesso significativo em termos de valores. Há valores básicos intemporais, como a vida e a liberdade, que não são assimilados por estes jovens".

"Há um retrocesso significativo em termos de valores. Há valores básicos intemporais, como a vida e a liberdade, que não são assimilados por estes jovens".

Porquê? "Penso que pode ter a ver com as dinâmicas sociais da zona onde vivem, pelo ambiente que os envolve e com que convivem normalmente e que é para eles a normalidade. A violência partilhada nas redes sociais, os jogos de computadores, podem ter outro tipo de impacto em jovens que vivem nestes ambientes, boa parte das vezes sem uma presença dos pais - que têm de trabalhar o dia inteiro -, com grandes dificuldades e uma grande carência afetiva que os leva a procurar estes grupos que funcionam como uma família. Nem estão preocupados com a banalidade da violência, pois aquela que vivenciam no seu dia-a-dia, quer no mundo real, quer nas redes sociais, filmes e jogos, torna-os insensíveis a valores transversais e intemporais, como a vida".

valentina.marcelino@dn.pt

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