Fraco avanço nos salários e luta contra o feminicídio: os desafios para a igualdade de género

Manuela Júdice (Portugal) e Victoire Di Rosa (França) são as comissárias da Temporada Cruzada França-Portugal 2022, iniciativa acordada entre Emmanuel Macron e António Costa no âmbito da presidência da UE. O Fórum Igualdade, pela igualdade de género na Europa, que decorre na cidade francesa de Angers até amanhã, é um dos muitos eventos a realizar nos dois países entre fevereiro e outubro. Fizemos as mesmas perguntas às duas comissárias.

1 - Qual é o objetivo da Temporada Cruzada?

2 .Como surgiu a realização do Fórum?

3 - . publicação das Novas Cartas Portuguesas faz 50 anos e a obra foi homenageada no Fórum. Como é que poderemos perceber este livro à luz da atualidade?

4 - A meta da paridade entre homens e mulheres ainda está longe? Porquê?

5 - O Índice de Igualdade de Género (Instituto Europeu para a Igualdade de Género, EIGE) coloca Portugal na 15.ª posição, com 62,2 pontos em 100, já a França está nos primeiros lugares, com 73,1 em 100. O que é que Portugal pode aprender com a França?

6 - Salários, lugares de chefia, divisão de tarefas domésticas, condição, onde se avançou menos?

7 - Onde é que a mulher está mais bem posicionada?

Manuela Júdice

A comissária portuguesa, secretária-geral da Casa da América Latina, defende que há muito a fazer para a paridade e as Novas Cartas poderão ajudar a refletir.

1 - As temporadas cruzadas existem em França há 30 anos. Para Portugal é novidade porque, pela primeira vez, foi desafiado a participar. Decorrem de decisões políticas, neste caso de uma decisão do presidente da República francês, Emmanuel Macron, e do primeiro-ministro português, António Costa. Pretende-se um melhor conhecimento mútuo mas, também, responder a desafios e questões de interesse para os dois países e para a Europa. Esta temporada, em particular, tem uma forte preocupação europeia.

2 - Um dos eixos da Temporada França-Portugal 2022 é a igualdade ou a paridade entre homens e mulheres, as questões de género com as suas problemáticas e os seus desafios. A Europa está preocupada com esta questão. França organiza o Fórum da Igualdade no quadro da presidência francesa da União Europeia e Portugal foi desafiado a ser coorganizador pois é-lhe reconhecida manifesta competência na gestão deste importante tema. À Comissão para a Igualdade de Género portuguesa foi pedida uma intervenção muito ativa na organização do Fórum.

3 - Quando contactei a secretária de Estado da Igualdade, Rosa Monteiro, para iniciar o trabalho para o Fórum da Igualdade, ela disse de imediato que teria de se celebrar também os 50 anos de publicação das Novas Cartas Portuguesas e a importância que as mulheres francesas tiveram no apoio internacional às Três Marias. No Fórum em Lisboa, em outubro, a partir do referido apoio discutir-se-ão as futuras etapas que as novas gerações terão de cumprir no sentido de uma colaboração efetiva para enfrentar problemas comuns. As Novas Cartas Portuguesas foram o toque a rebate que acordou muita gente para as questões da igualdade em Portugal. Muito foi já feito mas, muito está ainda por fazer. Lembrar agora esse marco pode acordar de novo para a necessidade de nos interrogarmos sobre o rumo a seguir.

4 - Estará longe, mas já o esteve mais. Não é para baixar os braços, há domínios onde já se avançou. Há que continuar a trabalhar.

5 - É curiosa esta diferença entre a posição da França e a de Portugal. Quando começámos a preparar o Fórum, o que me era dito é que Portugal tinha feito um excelente trabalho nas questões de género, trabalho esse que deveria ser partilhado. Ambos os países têm coisas a aprender com o outro. E não só, o Fórum pretende-se europeu. Certamente que todos têm de aprender com todos.

6 - Penso que em Portugal a questão dos salários será onde menos se avançou.

7 - Nas áreas científicas a mulher portuguesa está muito bem posicionada.

Victoire Di Rosa

A comissária francesa, artista e empresária, justifica os fóruns sobre igualdade porque os dois países, e a Europa, têm muito para avançar nesta matéria.

1 - O objetivo é celebrar a amizade entre França e Portugal, dedicando nove meses a evidenciar toda a diversidade e riqueza desta relação. O programa é o resultado de um diálogo de nove meses entre parceiros franceses e portugueses, em todas as áreas artísticas, mas também científicas, gastronómicas, económicas, educativas. Outro objetivo da temporada foi falar sobre os grandes temas que interessam às sociedades e em particular aos jovens. É nesta perspetiva que escolhemos o tema "Oceano" e, através dele, as questões relacionadas com o ambiente e as alterações climáticas. É também neste contexto que escolhemos a igualdade de género, porque os dois países ainda têm muito para avançar e as nossas sociedades assim o exigem e com razão.

2- O objetivo é partilhar as melhores políticas, práticas que, ao nível de uma cidade, de uma organização, de um país, possibilitem desde cedo quebrar estereótipos, conseguir uma melhor representação das mulheres e promover o empoderamento de mulheres jovens. Dedicámo-nos particularmente às profissões na área da cultura, da ciência e dos media. Desde o início, pareceu-nos essencial envolver os outros países da UE e o Fórum entrou no programa da presidência francesa do Conselho da Europa.

3 - O livro Novas Cartas Portuguesas merece ser conhecido pelas novas gerações como um marco muito importante na história do feminismo português e europeu. Cinquenta anos depois, a luta pelos direitos das mulheres continua e as mulheres estão unidas. Qualquer progresso, por menor que seja, para permitir a educação das jovens e a sua presença em cargos de chefia é uma vitória.

4 - O caminho ainda é longo e não virá automaticamente. A razão? 6 mil anos de história patriarcal não podem ser mudados tão rapidamente, pode levar séculos.

5 - Sei que embora Portugal ocupe essa posição é um dos países europeus que avançam mais rapidamente no sentido da igualdade. Devemos procurar medidas concretas que promovam diariamente a igualdade para mulheres de todas as idades, classes sociais, em todos os nossos territórios.

6 - Em França, muitas frentes permanecem abertas: igualdade salarial, representação política, presença de mulheres em profissões científicas e nas tecnologias de informação. O mais urgente é a luta contra a violência sobre as mulheres e o feminicídio que infelizmente continua atual. Deixemo-nos inspirar pelos colegas espanhóis que, através de lutas e manifestações, fizeram enormes progressos nos direitos e na proteção das mulheres.

7 - Deve reconhecer-se que o presidente Macron trouxe muitas mulheres para a Assembleia Nacional.

ceuneves@dn.pt

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