Fascínio das crianças por armas na origem de muitos acidentes

Os dados mais recentes indicam que no período entre 2003 e 2008 foram baleadas acidentalmente 62 crianças em Portugal, quase sempre em contexto de brincadeiras

"É curiosidade, imitação. Pode ser falta de noção do perigo ou o fascínio por manipular um objeto dos adultos, que está envolvido em magia, em fantasia. É como o fascínio de pegar no volante do carro e andar um bocadinho." Para a pedopsiquiatra Ana Vasconcelos, estas são algumas das explicações para os casos de crianças que disparam sobre si próprias ou sobre outras, um assunto que voltou a estar na ordem do dia, na quarta-feira, quando um menino de 11 anos atingiu a tiro a irmã de 6 em Oliveira de Azeméis. Tudo indica que o acidente ocorreu durante uma brincadeira, como a maior parte dos casos que envolvem crianças e armas de fogo.

Atingida na zona abdominal com uma espingarda de pressão de ar modificada para 9 milímetros, a menina foi operada de urgência no Hospital de São João, no Porto, onde ainda está internada, mas livre de perigo. Ao DN, o intendente Pedro Moura, do Departamento de Armas e Explosivos da PSP, diz que uma arma de pressão de ar adaptada a 9 mm "é uma arma ilegal", pelo que o proprietário incorre no "crime de detenção de arma proibida". Quem tem armas pessoais tem de obedecer a critérios de segurança que vêm estipulados na Lei das Armas. "As armas têm de estar num cofre. Quando não há cofre, as munições têm de estar separadas da arma", explica o oficial.

Segundo a GNR, o pai das crianças foi ontem constituído arguido e o processo baixou a inquérito. Ao que o DN apurou, o indivíduo alegou que a arma tinha sido deixada na sua residência por uma familiar, que se queria desfazer da mesma. Ana Vasconcelos explica que "miúdos com 11 anos associam as armas ao perigo e ao poder. Há um fascínio em manipular o objeto". A pedopsiquiatra diz que "uma arma carregada é um objeto perigoso, tanto para os miúdos como para os adultos".

A PSP não tem um registo de acidentes com armas pessoais. Sabe apenas que "os que acontecem com crianças são escassos, uma vez por ano e nem todos os anos". A polícia faz um registo, mas dos acidentes com armas de caça e pirotecnia, que também são raros, "à média de um ou dois por ano". Um estudo feito em 2010 pelo Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra - "Violência e armas ligeiras: um retrato português" - revelou que, entre 2003 e 2008, 62 crianças até aos 14 anos foram baleadas por acidente em Portugal.

Rita Santos, investigadora e doutoranda no CES, diz que estes serão os números mais recentes e que têm como base dados da Direção-Geral da Saúde recolhidos em 20 hospitais distritais. Não são informações fáceis de obter, porque estão dispersas por várias entidades. Segundo a investigadora, "os acidentes dão-se em circunstâncias muito distintas e diversas, podendo envolver armas legais ou ilegais", por vezes "facilitados pela acessibilidade a armas de fogo que não se encontram devidamente armazenadas". Os acidentes que envolvem menores "incluem necessariamente um trauma, quer para as vítimas diretas quer para os autores do disparo e respetivos familiares". De acordo com a pedopsiquiatra Ana Vasconcelos, a partir dos 5 ou 6 anos uma criança já tem culpa, pelo que esta é "uma memória que pode ficar traumática para a vida". No entanto, ressalva, "se há alguém com culpa é quem deixa uma arma carregada em casa." A maior parte dos acidentes acontecem durante brincadeiras. Em 2013, uma menina de 10 anos morreu, em Viseu, depois de ter sido atingida a tiro numa brincadeira com o irmão e um primo. Meses antes, uma outra criança disparou um tiro na própria cabeça quando brincava com uma arma, na Gafanha do Carmo, em Ílhavo.

"Se a nossa situação ainda está, felizmente, muito longe da americana, as estatísticas mostram que o número de armas em circulação aumentou. Estima-se que nos últimos dez anos tenham morrido mais de 20 crianças e perto de 100 terão ficado com lesões definitivas devido a brincadeiras ou ao uso indevido de armas de fogo", adianta Mário Cordeiro.

Segundo o pediatra, a maioria dos acidentes ocorre "devido a brincadeiras de imitação com uma arma carregada deixada ao alcance da criança, que atinge outra criança ou um adulto, ou atinge-se a si própria". Em 40% dos casos, "os ferimentos são na face, e destes, mais de um quarto atingem o globo ocular (mesmo não matando, o acidente pode deixar sequelas definitivas)". Há mais de 20 anos, lembra o pediatra, que a Sociedade Americana de Pediatria diz "que não ter armas em casa é a medida mais eficaz e eficiente para evitar" estes acidentes. Se existirem, o conselho é que estejam descarregadas e fechadas a "sete chaves", devendo a arma estar "separada das balas e dos projéteis".

Três milhões de armas no país

Portugal tem cerca de 1,5 milhões de armas de fogo legais, tendo sido emitidas perto de cinco mil novas licenças em 2015, segundo dados do Departamento de Armas e Explosivos da PSP. No mercado negro, estima-se que existam cerca de 1,5 milhões, o que dá um total de aproximadamente três milhões de armas no país. Em 2015, foram vendidas e compradas 45 530 armas de fogo.

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