"Eu tenho cancro". Figuras públicas ajudam a acabar com o estigma

É possível trabalhar durante os tratamentos? Como falar com as crianças sobre a doença? Especialistas do IPO de Lisboa respondem

"Vais morrer, mãe?" Foi assim que reagiu Zac, o filho mais novo de Nicola Mendelsohn, quando a vice--presidente do Facebook para a Europa, Médio Oriente e África contou à família que tem um linfoma folicular. Foi o momento "mais difícil" da sua vida, admitiu num artigo publicado no The Times. Nicola, que entretanto criou um grupo de apoio no Facebook, decidiu tornar pública a sua luta contra a doença - um cancro nos linfócitos -, que é praticamente incurável, mais de um ano após o diagnóstico. Já adiantou que não espera deixar de trabalhar e procura aumentar a consciência sobre este cancro.

Nos últimos anos, várias figuras públicas decidiram partilhar as batalhas que travam contra o cancro, uma doença que mata cerca de 80 portugueses por dia. Uma notícia que tem chegado através das redes sociais ou da comunicação social. "O facto de as figuras públicas assumirem a doença ajuda imenso a acabar com o estigma associado ao cancro, a tornar a doença banal", diz ao DN Lúcia Monteiro, psiquiatra no IPO de Lisboa.

Quando uma figura pública fala sobre cancro, aumenta a atenção sobre a doença. Margarida Brito, oncologista do Serviço de Oncologia Médica do IPO de Lisboa, revela que "há maior busca de informação por parte do público e aumenta a discussão a nível interpessoal e nos media, o que, se for feito de forma construtiva, é positivo".

É também uma forma de apoiar quem está a passar por situações semelhantes. A atriz Sofia Ribeiro, que em 2015 revelou no Facebook que tinha cancro da mama, confessa que naquele momento não pensou no impacto que tinha nos outros, mas acabou por chegar a essa conclusão. "Fui até, de alguma forma, talvez egoísta, partilhando o que sentia vontade. À medida que o tempo foi passando e as mensagens mais variadas chegavam de todos os lados, aí sim, percebi que era uma troca", disse ao DN. Ao falar com "diferentes pessoas, de diferentes países e idades, mas que se tocavam na mesma doença", tornava "o problema pequenino perto de tantas histórias iguais ou até mais dramáticas". Mensagens como "Sofia, hoje estou bem e quero agradecer-te porque muita da minha força veio da tua" deixavam a atriz "arrepiada dos pés à cabeça".

O cancro obriga a parar?

Depois de receber o diagnóstico do linfoma folicular, um cancro de crescimento lento, Nicola manteve a sua vida profissional e anunciou que quer continuar a trabalhar. Como ela, outras figuras públicas manifestaram vontade de trabalhar depois de saber que tinham cancro. Sofia Ribeiro achou que conseguia: "Eu também não esperava abrandar ou deixar de trabalhar. Aliás, na altura foi das coisas que mais me custaram. O meu trabalho, desde muito nova, sempre foi o meu fio condutor. E, de repente, perceber que teria de arranjar outro foco, foi tenso." Como o ritmo de trabalho era muito exigente, a atriz foi aconselhada pelo médico a parar de trabalhar.

Margarida Brito diz que o facto de o doente oncológico ter ou não de abrandar "depende de vários fatores, como se tem sintomas incapacitantes relacionados com o cancro, qual é a tolerância aos tratamentos oncológicos e se os mesmos necessitam, por exemplo, de internamento no hospital, e do tipo de trabalho exercido". Mas há uma percentagem, assume, que consegue continuar a exercer a sua atividade profissional.

Destacando que "a maioria dos doentes acaba por ter de interromper devido a incapacidade", Lúcia Monteiro, diretora do Departamento de Oncologia Psicossocial do IPO de Lisboa, lamenta o facto de "muitas empresas em Portugal não facilitarem o regresso destes doentes". A lei do trabalho "não protege o doente oncológico, que, quando fica impossibilitado de fazer esforços, por exemplo, não é reintegrado em diferentes funções".

Como contar às crianças?
No artigo - "A minha sentença de vida" - Nicola diz que o mais difícil até ao momento foi contar aos quatro filhos que tem um linfoma. Nem nos seus "piores pesadelos" imaginou que teria tal conversa com a família.

Lúcia Monteiro diz que é fundamental "não mentir", até porque "as crianças percebem muito mais da realidade dos adultos do que se possa pensar". No entanto, admite, pode fazer sentido omitir alguma informação, mas "preparando sempre a criança para o que possa acontecer". "Numa situação de gravidade, em que a morte é previsível, tem de se preparar a criança. Se não se diz a realidade, ela imagina sempre o pior. A regra deve ser responder a tudo, sem, no entanto, traumatizar", diz a psiquiatra.

Já Susana Marques, psicóloga na mesma unidade, considera que os pais "não se devem inibir de expor a parte emocional". "É normal a pessoa emocionar-se ao dizer que lhe foi diagnosticado um cancro. É importante até mesmo para manter o que é normal", refere, ressalvando que, independentemente do prognóstico, é essencial transmitir segurança.

Criar grupo de apoio
Em Portugal, não existe a tradição de criar grupos de apoio a doentes como nos Estados Unidos, por exemplo. Quem o diz é Lúcia Monteiro, destacando que a criação de grupos no Facebook, como fez Nicola, "é importante para partilhar o sofrimento, mas também estratégias para lidar com as adversidades". Funcionam como "grupos de entreajuda", indica Susana.

Financiamento e prevenção
Com a partilha dos seus casos, a oncologista Margarida Brito destaca que "algumas figuras públicas têm a capacidade de atrair financiamento para investigação e apoio aos doentes", o que é benéfico. Por outro lado, "são também influenciadoras de comportamentos", o que pode ser mais ou menos interessante, consoante o caso.

Ao divulgarem a forma como descobriram a doença e como a combatem, estão também a alertar a sociedade para a necessidade de prevenção. "Mais partilha gera mais conhecimento, mais informação e consequentemente menos tabus, mitos e pânico que muitas vezes leva as pessoas a nem fazer os seus exames de rotina", sublinha a atriz Sofia Ribeiro, acrescentando que é a favor da partilha, seja ou não de figuras públicas.

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