"Estou cheio de curiosidade" sobre o que o Papa vai dizer da comunhão dos divorciados

Patriarca de Lisboa pensa que possibilidade de divorciados recasados poderem voltar a comungar não está prevista

Nesta entrevista de balanço de um debate de dois anos sobre a família, D. Manuel Clemente diz que a doutrina da conceção foi mantida porque assim pensam muitos grupos de católicos e que a proposta cristã "não passa por validar" as relações homossexuais. Já sobre o processo, o patriarca considera muito positivo o aparecimento de ideias diferentes, diz que é precisa outra política de habitação e de apoio às famílias e alerta para os riscos do crescimento da xenofobia na Europa.

O Sínodo dos Bispos sobre a família terminou com um conjunto de propostas que, para muitas pessoas, sabem a pouco e, para outras, são de mais. O resultado foi o mínimo denominador comum da assembleia?

Sim, mas nesse mínimo cabe muita coisa. É um mínimo relativo, porque se trata de um texto, ainda assim, longo, de noventa e tal parágrafos. Se considerarmos isto um mínimo... Mas é uma base em que o consenso foi muito grande: todas as propostas tiveram mais de dois terços de votos. Mesmo uma ou outra em que alguns achariam que se tinha ido longe de mais, outros que se tinha ido longe de menos, mesmo essas tiveram mais de dois terços. Encontrou-se uma maneira de dizer por um lado consensual e, por outro, aberta.

Que dará para várias interpretações?

Sim, mas como digo e ouvi o Papa dizer, a doutrina não está em causa. Ele disse isso mais do que uma vez e para as pessoas terem calma. Agora temos de ver como conseguimos, para já, formar: para que as pessoas que se colocam neste caminho familiar cristão saibam onde é que se vão meter, é preciso formá-las. Depois, acompanhá-las e atender o caso de cada uma, vamos ver até onde conseguimos chegar para sermos fiéis ao mandado de Cristo sobre a família.

A ideia da descentralização das decisões, a sinodalidade de que o Papa fala, é outra consequência desta assembleia?

Julgo que sim, que não se vai recuar em relação a esse ponto.

O Papa fez um discurso muito importante quando foi da comemoração dos 50 anos do Sínodo dos Bispos (dia 17 de outubro), em que apresenta a sinodalidade não como um episódio que acontece de tempos a tempos, até nas dioceses, mas como uma realidade permanente para a vida da Igreja.

Nesse discurso, o Papa também dizia que o Sínodo significa escutar o povo de Deus. Essa escuta foi conseguida neste processo?

Em todo este processo, e a começar pelo inquérito no final de 2013, nunca se tinha feito tanta escuta. Estamos a falar de centenas de milhares de respostas. Só na diocese de Lisboa, recolheram-se dezenas de milhares. Uma escuta tão alargada nunca se tinha feito e também não era possível noutros tempos. Hoje, quem tiver um computador, entra logo na conversa.

No ano passado, veio a público que em muitas respostas de católicos que chegaram a Roma se dizia que era necessário rever a doutrina sobre a contraceção. Mas o Sínodo limitou-se a reafirmar a doutrina nesse campo.

Quando falamos da família e da visão cristã da família, há um conjunto de movimentos, organizações, associações que forçam muito toda a doutrina da [encíclica] Humanae Vitae [de 1968], dos métodos naturais. Até compaginando com o que o Papa Francisco diz sobre a ecologia integral, que se tem de respeitar os aspetos também da natureza humana e não só da que nos é exterior. Esses grupos fazem muita força e insistência neste aspeto. E eles são casados [risos]. Às vezes até já os identificamos, quando vemos famílias muito grandes... Certo é que esses movimentos e organizações da vida familiar têm hoje uma preponderância muito grande, na vida católica, junto dos seus bispos e em Roma. É um fator a que não estávamos muito habituados aqui há uns anos e dizem mesmo que temos de levar aquilo a sério, porque eles levam e assim é que é a vida da família.

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