Estar dependende do conforto do médico sírio

"Sentámo-nos em silêncio, juntos, na noite escura daquela sala iluminada. Mas se houve alguma coisa que ele me ensinou, foi que o conforto reside nos rituais de cuidado, na aplicação constante do otimismo, na luz trémula da fé no facto de ainda estar bem,"

Ele levantou os óculos e deixou-os pousados na testa antes de segurar na minha perna direita. "Puxe-me para si", disse. Eu puxei.

"Empurre-me para longe."

Eu empurrei.

Aí, pensei: este é o jogo a que os amantes brincam. Puxa-me para ti, empurra-me para longe, cada uma destas ações contém a promessa de um resultado específico: Se eu te afastar, tu virás atrás de mim. Se eu te puxar para mim, tu largar-me-ás. Mas ele não era meu amante. Era o meu médico.

E então senti a minha perna ceder, uma sensação de água a correr por um declive. Voltei à realidade. À luz branca azulada da sala de consulta. Ao restolhar do papel sobre a marquesa. À sensação da mão dele na minha pele quando me disse novamente para o puxar para mim. Para o afastar. A sensação de fraqueza mais uma vez, desta vez na minha perna esquerda.

Ele não fez nenhum comentário, mas eu vi a serenidade estudada da sua expressão. Olhei para os músculos atrofiados dos meus pés, para os meus dedos paralisados. E, então, levantei os olhos e encarei-o. Ele enfiou a mão no bolso da bata, tirou o martelo de reflexos e fez pontaria ao meu joelho. A minha perna saltou com o espasmo de uma resposta demasiado rápida.

"Você está bem," disse ele, com aquela inflexão dada pelo sotaque sírio que me dava tanto conforto. "Confie em mim."

Tentei confiar nele, mas eu não estava bem e ambos sabíamos disso. Os meus neurónios motores estavam a falhar. Já vinham a falhar há duas décadas, lentamente, numa ronceira onda subterrânea. Eu sabia que tinha sorte.

A doença neurodegenerativa é incurável e a maioria das pessoas que a têm morrem dentro de um ou dois anos, talvez cinco. Mas eu ainda estava viva. Perseverantemente.

Assim, eu sabia que, quando o meu médico dizia que eu estava bem, ele queria dizer que não tinha descoberto nada de novo e alarmante durante este exame. Eu continuava firme. Não estava bem, mas também não estava a morrer.

Víamo-nos a cada três meses. A regularidade dessas consultas e o acompanhamento regular que esse calendário sugeria deveria ter-me aterrorizado. Em vez disso, fez-me sentir segura. Com o passar do tempo, percebi que não era apenas o controlo que me tranquilizava, mas também o próprio médico.

Eu gostava da forma como ele usava o cabelo curto, que me deixava ver os contornos da sua cabeça. Gostava da forma das suas mãos e do modo paciente como respondia às minhas perguntas. E se eu hesitasse, não querendo falar sobre sintomas embaraçosos, ele suavizava a voz e olhava-me gentilmente. "Conte-me," dizia, e eu contava-lhe.

Uma noite sonhei com ele, de pé no meio de um deserto, um mundo destroçado pela guerra, tinha as mangas arregaçadas e eu conseguia ver o relógio no seu pulso. O mostrador indicava que faltavam 10 minutos para as 8.00. No sonho pensei: "Oh, graças a Deus. Eu ainda tenho tempo." Mas quando acordei senti-me aterrorizada. "O tempo está a acabar", pensei.

Enviei um e-mail ao meu médico e ele respondeu imediatamente. "Não se preocupe," escreveu. "Você está bem." Eu senti a força das suas palavras, o conforto da sua certeza.

É normal dizer-se que os pacientes com doenças graves se apaixonam pelos seus médicos, vendo-os como pontos de luz num céu negro. Mas eu sabia que isto não era amor. Era desespero, um dedo agarrado a um penhasco antes da queda.

Não estava apaixonada por ele, mas estava a ficar dependente dele. Estava acostumada a tomar conta de mim e tinha-o deixado cuidar de mim. Deixei-o ver que estava com medo. E, quando o deixei ver o meu medo, tive de o ver também. A minha própria fragilidade. Aquilo que eu não podia fazer de conta que não existia.

Apesar disso, ele deu-me esperança. Era esse o combustível que alimentava a minha luta.

"Puxe-me para si", dizia ele de cada vez que nos encontrávamos. "Empurre-me para longe."

Perguntei-lhe pela sua família na Síria.

"Não vai querer ouvir falar sobre isso", disse ele, tão formal e cortês como sempre. Mas acabou por me falar dos seus sobrinhos imprudentes. O seu cunhado com cancro. A sua mãe e as suas irmãs que lá ficaram, a olhar todos os dias para o céu à procura de coisas que poderiam de lá cair: bombas, pedaços de aviões, os destroços da guerra.

Inadvertidamente, fiz uma careta e tive um movimento de recuo. Quando olhei para ele mais uma vez, ele observava-me a fugir de coisas desconhecidas.

"Você está bem", disse, e sorriu.

Não muito tempo depois, três estudantes muçulmanos foram baleados na nossa cidade, mortos quando abriam a porta em resposta a um toque da campainha do apartamento em que viviam. Em San Bernardino, na Califórnia, um casal recém-casado, que tinha deixado a sua filha pequena em casa da avó, abriu fogo numa sala cheia de funcionários da autarquia. E todas as notícias eram sobre atiradores do Estado Islâmico, sobre muçulmanos e a ameaça que eles representavam para o estilo de vida americano.

Na consulta seguinte, percebi que o meu médico estava preocupado.

"O que se passa?", perguntei baixinho.

"Não é nada", respondeu. Ele não olhava para mim.

Pensei na maneira como ele tinha vindo para a América e optado por trabalhar num grande hospital universitário do estado para poder ajudar as pessoas mais pobres. Como ele tinha vindo para cá para estar seguro e oferecer segurança. Eu nunca o tinha visto com um aspeto tão derrotado como agora.

"Diga-me o que é", instei-o.

Ele hesitou e depois disse que estava com medo pela mulher e pelos filhos. Com ele não havia problema, mas preocupava-se com eles. "As pessoas estão loucas", disse. E então começou a falar sobre deixar a América e mudar-se talvez para o Dubai.

"Vai partir-me o coração", disse eu. Achei que estava a brincar, mas um minuto depois estava a chorar.

Eu percebia por que ele queria partir. Mas também sabia que se ainda estava viva, a ele o devia. A sua coragem era importante quando a minha vacilava. O seu mantra: "Você está bem. Você está bem", acabava com as minhas dúvidas quando parecia que era tudo escuridão.

Quantos efeitos da guerra são invisíveis, revelados apenas no tremor humano, naquela tremente linguagem do medo? O músculo espasmódico a falhar. A bala no ar. A verdade é que um é equivalente à outra quando o dano que aí vem é desconhecido mas certo.

Eu queria que ele estivesse seguro. A mesma coisa que ele queria para mim. E sabia que não tinha poder para lhe garantir essa segurança, porque não há dúvida de que algumas pessoas são mesmo loucas. E ele era igualmente impotente no que respeitava a parar a marcha da minha doença. Chamei-o pelo nome e ele virou-se para me encarar. "Eu estou consigo", disse ele, como se eu lhe tivesse pedido alguma coisa, com uma voz novamente corajosa. A sua expressão era de uma imensa determinação. "Eu não vou a lado nenhum."

"Você também está bem", disse, secando os olhos, sabendo que as minhas palavras eram fúteis mas que precisava de dizer alguma coisa. "Nada vai acontecer", disse eu, mesmo sem ter hipótese de saber se ele ficaria bem. Mesmo assim, continuei. "A sua família vai ficar bem. Você vai ficar bem."

Ele sorriu suavemente e abanou a cabeça.

E então eu percebi uma coisa: Ele nunca tentou tranquilizar-me sobre o futuro dessa maneira, com falsas esperanças. Ele só tinha falado sobre o presente, dizendo-me o que sabia ser verdade. Eu ainda estava bem. Eu ainda não estava a caminho de uma morte rápida. E foi isso que me deu conforto.

"Você está bem", disse-lhe suavemente, pensando que, pelo menos neste momento, ele estava bem. Mas mal eu disse isto, ele afastou o olhar e não respondeu.

Não o condenei por fugir da conversa da forma como fugiria de um aguaceiro súbito.

Não conseguíamos ouvir nada da guerra naquele lugar calmo, onde os únicos sons vinham dos elevadores que subiam e desciam. Não havia balas a voar. Nenhuma morte audível deste neurónio ou do próximo. Estas coisas são silenciosas até estarem em cima nós, e então já é tarde de mais. Assim, sentámo-nos em silêncio, juntos, na noite escura daquela sala iluminada. Mas se houve alguma coisa que ele me ensinou, foi que o conforto reside nos rituais de cuidado, na aplicação constante do otimismo, na luz trémula da fé no facto de eu ainda estar bem.

E então pensei: o que posso oferecer quando a única coisa que tenho é esperança? E depois: tu podes ser a doente dele. Podes deixá-lo cuidar de ti.

No mesmo instante em que tive este pensamento, ele enfiou a mão no bolso da bata à procura do martelo. "Faça assim", disse ele, colocando os dedos de modo que uma das mãos se enganchasse na outra. Quando o fiz, ele disse-me para puxar. Depois bateu no meu joelho com o martelo e retomou o seu exame.

Randi Davenport vive em Chapel Hill na Carolina do Norte. O seu último romance é The End of Always

Exclusivo DN/The New York Times

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