"Estado devia divulgar e apoiar mais a arte de fazer calçado"

"Éramos excessivamente consumistas, com necessidade de demonstrar riqueza, usar marcas e ter coisas novas. A crise ensinou-nos a abrandar o ritmo"

Uma rulote no quintal de casa é o "escritório" de Ana Cabete, 42 anos, conhecida como "a sapateira de Gouveia" (assim se intitula a sua página de Facebook). Ana é sapateira e "com muito orgulho". É, aliás, das poucas mulheres dedicadas à arte de fazer e reparar sapatos no país. Vive e trabalha na aldeia de Gouveia, entre as Azenhas do Mar e o Magoito, no concelho de Sintra, um local com uma particularidade especial: todas as ruas têm um verso que lhe é dedicado na respetiva placa de azulejo. Também a opção de vida de Ana foi (e continua a ser) poética. "Eu tinha uma empresa de administração de condomínios, que trespassei em 2007. Quando fiquei desempregada, percebi que tinha de mudar de rumo porque o meu trabalho causava--me problemas de saúde, devido ao stress. abri logo uma oficina de sapateira porque sempre convivi e aprendi com mestres desta arte e sempre adorei esta profissão."

Ana diz-se "extremamente feliz" com o que faz. O "bichinho" das ferramentas também já foi herdado pela sua filha Margarida, de 7 anos. Basta espreitar a página de Facebook da artesã para perceber que "a sapateira de Gouveia" desafia cores e formas e que os seus sapatos são divertidos, confortáveis e cheios de estilo próprio. Sempre com bom cabedal e outros materiais amigos do pé e do ambiente, pois a sapateira é antiplástico made in China.

Vão dez anos desta atividade e centenas de pessoas formadas por si nos vários cursos que abriu. O suficiente para ter uma ideia para o país: "O Estado devia divulgar e apoiar mais a arte de fazer calçado. Infelizmente, este artesanato está em vias de extinção."

A "sapateira de Gouveia" começou a dar formação em fabrico e reparação de calçado para desempregados em Alcoitão, através do Ministério do Emprego e da Solidariedade Social, em 2014. Foi nessa altura que vendeu a oficina e comprou a rulote. "Não conseguia conciliar a oficina aberta com os horários da formação e então decidi arranjar uma rulote porque assim não sou obrigada a ter horário fixo e porta aberta." Simultaneamente, através de várias associações ligadas às artes e antigos ofícios, promoveu workshops em restauro de calçado e em construção artesanal de calçado. "Pus pessoas a construírem, com a minha ajuda, um par de sapatos num dia. Depois quem quiser continuar vai por tentativa e erro, como eu fui. Não tirei nenhum curso de sapateiro, fui experimentando."

Quando se certificou como formadora, em 2014, fê-lo no intuito de superar a crise económica porque "era uma forma de ganhar mais uns trocos". Mas, ao contrário do que se poderia pensar, não foi nessa altura que reparou mais calçado. "A crise não foi o melhor período para os sapateiros, porque coincidiu com os sapatos a 9,90 euros da Primark e do chinês, feitos com materiais baratíssimos. Eu não conseguia competir com os 9,90 euros. Basta pensar que cobramos 15 euros para pôr uma meia sola." Mas a mentalidade pós-crise já é outra, nota. "Foi preciso que as pessoas percebessem que o que compravam barato era mau. Hoje, a maior parte dos clientes que tenho procuram a reparação do calçado."

Em geral, Ana Cabete acredita que os portugueses estão "menos consumistas e mais adeptos da cultura antidesperdício" depois dos anos da crise económica. "O país está a crescer, a ganhar consciência e os portugueses estão a mudar a mentalidade", afirma. "Éramos excessivamente consumistas, com necessidade de demonstrar riqueza, usar marcas e ter coisas novas. A crise ensinou-nos a abrandar o ritmo. Tenho muitos clientes estrangeiros que já têm essa consciência há mais tempo. Por exemplo, os franceses e os alemães são muito menos preocupados com as ornamentações e mais com o conforto e a segurança. É uma atitude muito mais inteligente."

Trata-se de um "processo lento", reconhece a sapateira, que já cresceu numa mentalidade antidesperdício. "O primeiro par de sapatos que fiz sozinha foi com o meu ex-sogro, que era sapateiro e agora está reformado. Foi em 2013. Ainda tenho esses sapatos."

Ana Cabete já teve o retorno das suas formações da forma mais gratificante que se possa imaginar. Em Alcoitão deu formação a pessoas com deficiência motora. "Existe um sapateiro em Telheiras, Lisboa, que foi um formando meu de Alcoitão. É paraplégico mas isso não o impediu de tentar a arte pois pode usar as mãos. Depois da formação montou o seu próprio negócio e é um profissional de mão-cheia." Quem mais tem procurado os workshops da "sapateira de Gouveia" são pessoas licenciadas na área de Design de Moda e outras com o "bichinho" mas que veem nisto um hobby. Ana Cabete gostaria de "ter mais desempregados a procurarem esta via profissional". Já formou ucranianos e romenos "que são fantásticos a trabalhar nisto". Mas tem dúvidas sobre se o país devia continuar a receber mais refugiados da Síria e de outros países. "Honestamente tenho dúvidas. Não queria o ónus dessa decisão."

Ana Rita Cabete

Sapateira

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