"Esta guerra está a dividir os homens e as mulheres"

As palavras são de Joana Vasconcelos, que vê no conflito armado na Ucrânia uma diferença difícil de compreender: são elas quem foge com os filhos, enquanto eles são obrigados a ficar e a lutar na linha da frente. As mulheres "devem ter sempre liberdade de escolha".

Se o painel das "Mulheres de Portugal - Desafios para o País" deixou clara a importância de garantir à população feminina o acesso à educação e ao conhecimento, a interação com o público que assistia levantou novas questões. A guerra na Ucrânia e os seus efeitos nas cidadãs e cidadãos foi um dos temas mais debatidos durante a tertúlia com participação da assistência. A ex-ministra da Saúde Maria de Belém Roseira fez questão de intervir para alertar para a situação vivida naquele país, mas sobretudo para contrariar a ideia de que a igualdade de género seja uma questão importante para quem se encontra em situação de emergência humanitária. "Na Ucrânia há um problema de escolha entre a vida e a morte e aí não se coloca a questão dos papéis atribuídos a mulheres e a homens", sublinhou. Por outro lado, reconhece que "as mulheres e as raparigas são usadas para pressionar os homens e para os dobrar quando se quer obrigá-los a fazer qualquer coisa".

Armindo Monteiro, vice-presidente da CIP e o único homem sentado no painel de debate, diz não ver "nenhuma diferença entre homens e mulheres" no setor militar. Acredita que o papel da defesa é tradicionalmente entregue aos homens em jeito de "sacrifício" e defende que elas podem ter um papel importante noutra dimensão da guerra. "Onde sinto falta das mulheres não é no campo de batalha, é à mesa das negociações", afirma. Marco Galinha, CEO do Global Media Group, complementa que "se houvesse mais mulheres a mandar no mundo, tínhamos mais paz".

Enquanto Maria de Belém diz ser necessário "pensar naquelas pessoas que não têm os problemas resolvidos como nós temos", aludindo a países onde as mulheres dependem de autorização do marido para viajar, por exemplo, Joana Vasconcelos discorda frontalmente. "Enquanto houver mulheres privadas da sua independência e da sua liberdade, todas nós não estamos bem", garante. Sobre os efeitos do conflito militar na Ucrânia, mas também outros - como o do Afeganistão -, lembra a presença feminina nos campos de refugiados, onde estão "completamente desprotegidas" e impedidas de "continuar com as suas vidas profissionais".

"Vemos as mulheres partirem com os mais velhos, com as crianças, com os animais, e vemos os homens a ficar. Onde é que está a igualdade de género aqui?", questiona Marianela Mirpuri. "Não estou a dizer que não há mulheres a lutar, mas está a determinar-se o papel do homem e da mulher", complementa. Helena Ferro de Gouveia, investigadora sobre assuntos militares e liderança, quis também deixar a sua perspetiva sobre o tema e recusar a ideia de que as mulheres não estão na linha de combate. "Já há 36 mil mulheres a combater na Ucrânia, muito mais do que no exército da NATO ou no norte-americano", observa. Ainda assim, concorda que "as mulheres são sempre as maiores vítimas da guerra" e que é necessário que aquelas que vivem em "privilégio" continuem a apoiar quem vê os seus direitos e garantias violados.

O vice-presidente da CIP - entidade responsável, em conjunto com a Nova SBE, pelo Programa Promova, de formação para a liderança no feminino - teme ainda que o regresso do confronto bélico ao velho continente signifique um retrocesso nas conquistas pela igualdade de género. "O que me preocupa é que o mundo fique mais masculino", diz, em referência àquilo que considera ser um eventual abrandamento do investimento em políticas sociais em detrimento de um maior investimento em armamento. De regresso à plateia, maioritariamente preenchida por mulheres em altos cargos empresariais e políticos, a embaixadora de Espanha em Portugal, Marta Betanzos Roig, afirma que "a história não se pode repetir mais uma vez", lamentando as imagens que chegam do leste da Europa. "Para mim o que é francamente chamativo é que estamos a assistir a imagens em que as mulheres e as crianças são as vítimas deste conflito", apontou, visivelmente incomodada com a situação humanitária que aquele povo enfrenta.

Combater a desigualdade nas empresas

Apesar da situação de guerra vivida nas últimas duas semanas, é importante não descurar a batalha diária das mulheres nos corredores do poder empresarial, acreditam as oradoras e intervenientes. Isabel Ucha, da Euronext, aproveitou o momento para partilhar os avanços das organizações na igualdade de género que têm sido motivados, em parte, por uma alteração das prioridades dos investidores. À semelhança do que acontece com a sustentabilidade, que começa a ser uma exigência dos investidores para financiarem a atividade das empresas, o mesmo começa a verificar-se com a paridade. "Listámos este ano o primeiro fundo de investimento em que as empresas são escolhidas exclusivamente pela igualdade de género. Há um enorme progresso que está a ser feito", assegura a especialista em finanças.

A preocupação com as questões sociais - como o equilíbrio de género nos órgãos de gestão, as políticas de promoção da igualdade ou o balanço entre vida profissional e pessoal - inclui ainda a justiça salarial. Luísa Pestana, administradora da Vodafone, garante que esta é uma preocupação do player das telecomunicações, onde a política de transparência em relação aos ordenados é uma regra. "Esta análise é feita todos os anos. Hoje em dia, essa diferença [salarial entre homens e mulheres] foi estreitando e, nos últimos anos, a diferença é de menos de 5%", confirma. A líder da Luz Saúde, Isabel Vaz, recusa a ideia de que os gestores discriminem colaboradores e colaboradoras através do salário, por considerar que não faz sentido do ponto de vista da gestão. "Se uma mulher é muito boa naquilo que faz, não passa pela cabeça de uma empresa normal, que tem acionistas, prejudicá-la", defende. A verdade dos números, porém, confirma aquilo que muitas das mulheres presentes consideram ser necessário: ainda há um caminho a percorrer. De acordo com a Pordata, as trabalhadoras perdem, anualmente, a remuneração equivalente a 51 dias de trabalho, uma situação que todas as oradoras e intervenientes pedem que seja alterada com mais transparência nas políticas salariais.

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