Esperança de vida aumentou? Sim, mas já diminui

Desde a segunda guerra mundial que a esperança de vida não sofria uma queda tão grande. A pandemia abalou uma trajetória que pode demorar anos a repor

Na semana em que o Instituto Nacional de Estatística (INE) divulgou os dados que apontam para o aumento da esperança de vida (à nascença) em Portugal, uma notícia da agência Reuters citava um estudo da universidade de Oxford que veio baralhar as contas: desde a II Guerra Mundial que a esperança média de vida não registava uma queda tão abrupta.

A razão é simples. Os dados do INE - publicados pelo DN - referem-se ao triénio 2018-2020 - e não incluem a mortalidade provocada pela pandemia.

A esperança de vida à nascença em Portugal aumentou para 81,06 anos para o total da população, sendo o Norte a região com os valores mais elevados.

"A esperança de vida à nascença continua a ser superior para as mulheres, mas a diferença para os homens tem vindo a diminuir, sendo agora de 5,60 anos (6,02 em 2008-2010)", refere o INE na publicação "Tábuas de Mortalidade em Portugal - Desagregação regional (2018-2020)".

Já o estudo da universidade de Oxford aponta que, face a 2019, a esperança de vida caiu mais de seis meses no ano passado, em 22 dos 29 países analisados - Europa, Estados Unidos e Chile. Tal como acontece em Portugal, também no estudo de Oxford os resultados mostram uma maior queda na esperança média de vida dos homens em relação às mulheres, em quase todos os países, embora seja nos Estados Unidos da América que os números se mostram mais acentuados.

Em Portugal, essa é uma linha que continua a existir, embora cada vez menos vincada. Paulo Machado, presidente da Associação Portuguesa de Demografia, explica essa diferença que dá uma maior esperança de vida à nascença às mulheres com uma justificação "biosocial". É mais fácil pelo lado social: "Há um conjunto de fatores que contribui para acelerar o envelhecimento e a morte dos homens: o tabagismo, alcoolismo e outras práticas". Porém, há uma explicação "mais complexa, biogenética - "a espécie humana produz mais elementos do sexo masculino do que feminino, porque sabe que o masculino tem uma maior probabilidade de morte antes do nascimento. Ao contrário do que se diz, é o sexo mais fraco. Não é exclusivo da espécie humana, mas para nós é evidente. Isto explica as diferenças. E porque na verdade, até aos cinco anos de idade morrem mais rapazes do que raparigas", justifica Paulo Machado.

Prevenção cardiovascular vs esperança média de vida

A cardiologista Marta Afonso Nogueira considera que ainda não estamos em condições de avaliar o total impacto direto e indireto da covid-19, mas não tem dúvidas de que terá influência na esperança média de vida.

Sublinhando que "os dados estatísticos e epidemiológicos devem ser contextualizados", considera que "vai ser preciso esperar pelos dados de 2021/22. Porque o que estamos a verificar agora é uma realidade diferente daquela que aconteceu em 2020. Muitas das complicações tardias que estão agora a aparecer vão ter um impacto que não está ainda a ser avaliado".

Embora a maior parte dessa sobremortalidade esteja diretamente ligada ao diagnóstico da covid-19, sabemos que os dados não explicam a totalidade da mortalidade em excesso. Em Portugal e noutros países da Europa. Por cá, as doenças cardiovasculares continuam a ser a principal causa de mortalidade. E essa, nos doentes com covid-10 que fazem uma lesão miocárdica aguda (no coração) também é maior. "Quando falamos das mortes associadas à covid-19 as pessoas ligam diretamente à pneumonia, que é a principal complicação, mas uma parte da mortalidade também é de causa cardiovascular". E disso fala-se pouco, bem como "das consequências indiretas, daquele excesso de mortalidade que houve e que não é explicado pela covid-19", acrescenta Marta Afonso Nogueira, referindo-se, por exemplo, ao número de mortes ocorrido entre março e dezembro de 2020. A médica recorda esse período em que os doentes "com um diagnóstico de enfarte não queriam ficar internados, e por vezes até tiveram alta contra parecer médico". Passado o período crítico, acredita que o custo indireto que advirá desse tempo será bastante elevado. Até porque - recorda - já antes da pandemia, um estudo europeu referente aos anos de 2016 a 1018 apontava que em Portugal os fatores de risco como a hipertensão, o colesterol elevado, ou a diabetes não estavam bem controlados, não atingido sequer 50 por cento da população em rastreio. O que quer dizer que "o próximo registo será ainda pior". Ora, segundo as linhas da Sociedade Europeia de Cardiologia que saíram este ano, Portugal passou a fazer parte do grupo de países de risco moderado, quando anteriormente fazia parte do grupo de risco baixo cardiovascular, ao nível populacional. Espanha e França mantiveram-se no nível de risco baixo, já Itália passou também para o grupo de risco moderado.

Marta Afonso Nogueira considera que essa prevenção está intimamente ligada à esperança média de vida, e que tem de começar desde o berço, desde a promoção da alimentação, nomeadamente nas escolas. A cardiologista recorda que a Portugal tem níveis muito elevados de obesidade infantil, e que "isso é um preço a pagar: a obesidade aos 20 anos é um fator independente para o desenvolvimento da insuficiência cardíaca aos 40 anos". Em suma, "nós ainda não estamos em condições de saber qual é que será a esperança média de vida que vai resultar destes anos".

83,67

No triénio 2018-2020, a esperança de vida à nascença para Portugal foi estimada em 78,07 anos para os homens e em 83,67 anos para as mulheres, o que significa um aumento de 1,90 e de 1,48 anos, respetivamente, em relação aos valores estimados para 2008-2010.

29

Um total de 29 países participaram do estudo promovido pela Universidade de Oxford. Além da União Europeia, também o Chile e os Estados Unidos da América foram alvo de investigação. Foram os homens norte americanos quem mais viu cair a esperança média de vida, face a 2019.

Paulo Machado, presidente da Associação Portuguesa de Demografia

"Esta pandemia não afetará a esperança de vida à nascença"

Na semana passada o INE divulgou dados que apontavam para o aumento da esperança média de vida à nascença (para os 81,6 anos) até 2020. Mas logo a seguir um estudo da universidade de Oxford revelou que a covid-19 infligiu a maior queda na esperança média de vida desde a II guerra mundial. Como é que Portugal fica, no meio destes dados?

O relatório do INE reporta-se a um triénio - 2018-202020 - que é antes da pandemia. O estudo de Oxford reporta-se a dados pós pandemia. E isso justifica toda a aparente contradição.

Nós interrompemos aqui uma tendência, uma trajetória de crescimento da esperança de vida, que estará refletida nas novas tabelas que o INE vai publicar em breve.

A tabela é calculada em cascata. Se houvesse um conjunto de gerações que estivessem a ser desbaratadas, isso iria repercutir-se também nas gerações mais novas. Que é o que acontece por exemplo numa guerra, que tem um impacto objetivo em todas as idades, este[a pandemia] é uma acontecimento que apesar de tudo é mais circunstancial. Ou seja, esta pandemia em princípio não afetará a esperança de vida à nascença.

Mas sabemos que afetou a esperança média de vida...
Sabemos que a pandemia impactou (não sabemos quanto, ainda), mas eu admito que tenha impactado a níveis muito próximos àqueles a que se refere o estudo dos colegas da universidade de Oxford. O que temos que salvaguardar é essa questão do conceito - que o próprio INE usa - da esperança média de vida, que acaba por suscitar confusão nas pessoas.

Porquê?
Porque devemos falar sim em esperança de vida. Não há própriamente uma esperança média de vida, o que existe é uma esperança de vida em diferentes idades. Por exemplo, a vossa notícia da semana passada refere - e bem - a esperança de vida à nascença. Qualquer impacto seria significativo a partir do momento em que a esperança de vida baixa, mas nós vamos ter impactos muito significativos nas idades mais avançadas. Porque sabemos que morreram bastante mais idosos do que crianças, mais idosos do que pessoas em idade adulta. Ou seja, ao fazermos as contas nas tabelas do INE, onde vamos "cortar" é nos mais velhos. Vamos "cortar" muito pouco ou nada na esperança de vida dos mais novos. É claro que estamos sempre a falar de uma probabilidade. E desde a II guerra mundial, nunca mais tivemos acontecimentos que contrariassem essa tendência altamente positiva - e que será interrompida.

E há alguma forma de recuperarmos dessa inversão?
Nós estávamos a ter um crescimento na ordem de um mês de vida por cada ano. E estou absolutamente convencido que vamos voltar a ter esse crescimento. Só não sabemos quando, porque não sabemos como é que se vai comportar a morbilidade decorrente da covid. Nós neste momento estamos a suster a morte e as novas infeções, mas ainda não sabemos em toda a sua plenitude as consequências quer naqueles que estão doentes, e em ter de saúde pública também não sabemos qual é a consequência disto.

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