Especialista diz que variante britânica pode tornar-se dominante no mundo e teme pela eficácia das vacinas

Variante britânica foi já detetada em mais de 50 países, depois de ter sido identificada pela primeira em setembro de 2020 no sudeste de Inglaterra.

A variante britânica do coronavírus, designada localmente como variante de Kent, pode tornar-se dominante no mundo, previu a chefe do programa de vigilância genética do Reino Unido.

Sharon Peacock disse ao podcast da BBC que a variante "varreu o país [Reino Unido]" e "vai varrer o mundo, com toda a probabilidade".

A variante britânica foi já detetada em mais de 50 países, depois de ter sido identificada pela primeira em setembro de 2020 no sudeste de Inglaterra. A sua rápida disseminação nos meses seguintes foi descrita como a principal razão para a introdução de novas regras de confinamento em todo o Reino Unido e também um dos grandes motivos para o exponencial aumento de casos em Portugal a partir do Natal.

A variante do coronavírus que causa a covid-19 encontrada pela primeira vez em Inglaterra vai adquirir mutações que poderão reduzir a eficácia das vacinas atuais, disse ainda a líder do programa de vigilância genética do Reino Unido.

"É inevitável que o vírus continue a sofrer mutações porque é a natureza, é a evolução. O que é preocupante é que a (B)117, a variante que temos em circulação há semanas ou meses, está a começar a adquirir novas mutações, o que pode afetar a forma como abordamos o vírus em termos de imunidade e a eficácia das vacinas", disse a diretora do Consórcio Covid-19 Genomics UK (COG-UK), Sharon Peacock, à BBC.

Esta rede de laboratórios públicos e independentes faz a sequenciação do genoma do vírus em milhares de testes por dia para identificar mutações e potenciais novas variantes.

A variante B117 foi primeiro identificada na região de Kent, no sul de Inglaterra, em setembro do ano passado e é considerada responsável pela vaga de milhares de casos de covid-19 no final de 2020 e início de 2021.

Nas últimas semanas, as autoridades de saúde britânicas identificaram dezenas de casos em Bristol, no sul de Inglaterra, e em Liverpool, no Norte, com mutações diferentes que são motivo de preocupação e estão a ser investigadas.

A análise de testes a pessoas infetadas em Bristol encontrou uma mutação tipo E484K, que afeta a forma como o vírus adere às células das pessoas, também encontrada na variante B1351, detetada na África do Sul, e variante B1128, detetada no Brasil. Esta mutação permite ao coronavírus escapar aos anticorpos desenvolvidos, seja pelas vacinas ou por infeção anterior.

O grupo de cientistas da Universidade de Oxford que desenvolveu uma vacina contra a covid-19 com a farmacêutica AstraZeneca afirmou na semana passada que a vacina é eficaz contra a variante B117, do Reino Unido, mas é menos eficaz contra a variante B1351, da África do Sul.

Peacock, professora de Microbiologia e Saúde Pública na Universidade de Cambridge disse que "é preocupante que a (B)117, que é mais transmissível e se espalhou pelo país, esteja agora a sofrer mutações e a desenvolver esta nova mutação que pode ameaçar a vacinação". A cientista admite que, por ser mais contagiosa, a variante B117 "espalhou-se pelo país e provavelmente vai espalhar-se pelo mundo", mas disse que ainda está por provar se é mais mortífera ou se o aumento do número de mortes se deve à sua maior transmissibilidade.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) tem recomendado o uso da vacina Oxford/AstraZeneca mesmo em países que enfrentam novas variantes da covid-19, mas a sua eficácia em idosos e contra as novas variantes tem gerado polémica, devido à falta de dados. Isto apesar de a OMS ter revelado na quarta-feira que a vacina é eficaz mesmo em pessoas com mais de 65 anos.

O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, admitiu esta quarta-feira que poderá ser necessário uma vacina anual contra a covid-19 para imunizar as pessoas mais vulneráveis contra novas variantes.

"Penso que temos de nos preparar para um mundo em que teremos vacinas de reforço contra novas variantes no outono", disse numa conferência de imprensa o PM britânico, comparando com as vacinas contra a gripe, que são administradas a pessoas vulneráveis e idosas todos os anos.

Johnson vincou que o plano do Reino Unido continua a ser acelerar a vacinação das pessoas com mais de 70 anos até ao final de abril.

"Não vemos nesta altura provas de que as vacinas não têm um efeito benéfico sobre todas as variantes. É provável que todas as vacinas tenham algum efeito benéfico sobre todas as variantes", vincou.

Porém, acrescentou que, "à medida que novas variantes aparecerem, será mais útil do que nunca ter vacinas que consigam combater todas as variantes", e mostrou-se confiante de que as vacinas vão poder ser melhoradas.

O Governo britânico anunciou recentemente uma parceria com a empresa de biotecnologia alemã CureVac para desenvolver rapidamente novas vacinas de resposta a novas variantes da covid-19, aproveitando a capacidade do Reino Unido em genómica e sequenciação.

Nesse sentido, fez um pedido inicial de 50 milhões de doses para serem entregues ainda este ano, se for necessário, juntando-se às 407 milhões de doses encomendadas a diferentes companhias com vacinas concluídas ou em desenvolvimento.

Nos últimos dias, as autoridades de saúde britânicas intensificaram testes em algumas áreas onde foram encontrados casos da variante B1351, detetada na África do Sul, e declararam "preocupante" uma nova variante da já variante B117, detetada em Inglaterra, na qual recentemente foram encontradas mutações de tipo E484K.

Esta mutação na proteína do espigão [spike] também foi encontrada nas variantes B1351 e B1128, detetada no Brasil, o que torna o vírus mais infeccioso e potencialmente mais resistente às vacinas existentes.

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