"Escolas deviam ter respeito pela natureza e pelo vegetarianismo"

Ana Sílvia Agostinho é ilustradora, designer e vegetariana

Eva Luna, como no romance de Isabel Allende, espalha os seus dois anos radiosos a correr atrás dos pombos no parque infantil da Quinta das Conchas, no Lumiar, em Lisboa. "Ela gosta de correr pela relva, de sujar as mãos de terra, de brincar com os insetos. E eu gosto que ela cresça assim", conta a mãe de Eva, a ilustradora, designer de joias, yogini e vegetariana Ana Sílvia Agostinho, 37 anos.

Autora do livro ilustrado Mamã Cartoon, lançado em fevereiro, Ana Sílvia narrou através do desenho e do humor a sua experiência com a gravidez, dos enjoos ao apetite voraz, dos problemas com o corpo ao cansaço crónico, indo ao encontro de milhares de mulheres que partilham essa realidade. Defensora de um estilo de vida holístico, em comunhão com a natureza, e vegetariana desde os 14 anos, Ana Sílvia Agostinho tem uma ideia para o país: "Que as escolas passem a ter respeito pela natureza, pelas crianças e pelo vegetarianismo." No geral, Ana Sílvia considera que o país "melhorou em termos económicos depois de a troika sair" mas gostava de ver mais atitude positiva: "Devíamos acreditar ainda mais em nós e agir ainda mais como um todo."

A ilustradora não imagina Portugal fora da União Europeia mas acha que o país pode ter mais capacidade negocial: "Temos de querer mais de nós e para nós." Viajante incansável, tendo já passado três meses na Índia, Ana Sílvia Agostinho espera que o país continue a receber refugiados. "Somos um país que sabe o que significa ter de abandonar tudo para sobreviver e somos um povo que está sempre de braços abertos, e assim os devemos manter."

Além dos bons indicadores económicos, Ana Sílvia acredita muito "na capacidade que temos de nos recriar".

A pensar no futuro da sua filha e no de todas as crianças portuguesas, a ilustradora defende um modelo de educação baseado no conceito britânico da Forest School. "É o sistema que eu amo de paixão. As crianças aprendem na floresta, com as ferramentas que a floresta lhes dá. É quase como ser escuteiro mas melhor", diz, soltando uma gargalhada, enquanto está atenta às correrias de Eva pelo parque. "Na Forest School a criatividade vem desse contacto com a natureza. É isso que faz pegar no pauzinho, meter uma corda e criar uma espada ou outra coisa qualquer. E trepar às árvores e imaginar."

Em Portugal também já há alguns colégios com essa filosofia. "Existem as escolas com pedagogia Waldorf, com um sistema de ensino desse género. Ainda andei a ver na zona de Lisboa mas não tinha nenhuma perto de casa."

A filha foi educada a estar em comunhão com a natureza, a ser vegetariana e a praticar meditação. "Ela sobe às árvores, anda sempre toda arranhada e suja mas é feliz. A Eva só esteve doente uma vez, no primeiro ano de vida."

Ana Sílvia acredita que era possível o Estado, através do Ministério da Educação, repensar modelos de ensino às crianças. "Para mim, a natureza é o todo. Eu implantava uma série de princípios na Educação pelos quais sempre me guiei, até no desenho de joalharia que é inspirado em plantas e formas orgânicas. Se estivermos bem connosco e encontramos o equilíbrio, vamos fazer toda a gente à volta feliz."

Em setembro, a Eva vai para uma creche em Lisboa, na zona da Baixa, que respeita o vegetarianismo e "em que as educadoras falam com as crianças olhos nos olhos e que as ouvem e as tratam como seres inteligentes e não de uma forma infantilizada". "Mas a maioria das escolinhas que procurei em Lisboa não são assim."

Ana Sílvia já desenvolveu o seu próprio modelo de educar e criar a filha. "Quando fiz o meu horário, todas as manhãs são preenchidas com o parque. Temos de estar sempre três a quatro horas na natureza para ela subir às árvores e rebolar na lama. Às vezes é difícil porque ela mete os bonecos nas mãos das pessoas e diz: "Pronto", agora vamos brincar", conta entre risos, enquanto assistia às tropelias da filha no jardim.

Ana Sílvia Agostinho prevê lançar, a 21 de setembro, o livro infantil Onde está a proteína?, em coautoria com Bárbara Magalhães. "O livro é ilustrado por mim e estamos a tentar financiá-lo através de crowdfunding. O projeto é da Bárbara Magalhães, a vegan mais completa que conheço. A minha personagem também está grávida, tem um filho e conhece um companheiro vegetariano. E narra a aventura deles e como se cruzam com as pessoas que não os compreendem e lhes perguntam coisas como: "És vegetariana? Podes comer peixe, não é?"

Confessa estar viciada no processo de conceção de livros, no que é um admirável mundo novo. "O meu ganha-pão é os cartoons que faço para as famílias a ilustrar situações ou aventuras que me contam. Depois faço um comic strip, uma sequência de desenhos a contar a história. Tenho um que fiz agora que é um casal que se conheceu no Vietname, casam-se na Bélgica e depois termina com os dois despenteados e já com uma criança ao colo", conta, entre risos.

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