Entrevista de Carlos Alexandre vai ser analisada por juízes

Conselho Superior da Magistratura. Declarações do juiz à SIC, onde disse suspeitar de ser escutado, vão ser tema de reunião dia 27

O Conselho Superior da Magistratura vai analisar a entrevista que o juiz Carlos Alexandre, deu à SIC, na passada quinta-feira, onde disse sentir-se "escutado" no seu dia a dia, salientando ainda que não era rico nem tem amigos que o sejam. A informação foi confirmada à Lusa por fonte ligada ao órgão de regulação da atividade dos juízes.

O que foi dito pelo juiz do Tribunal Central de Instrução Criminal disse à SIC, no passado dia 8, vai ser alvo de análise na próxima reunião ordinária, agendada para o dia 27 de setembro, às 10.30. Tendo em conta que o Conselho Superior da Magistratura (CSM) é o órgão superior de gestão e disciplina dos juízes dos tribunais judiciais portugueses, em causa vão estar as afirmações que foram entendidas como alusões ao ex-primeiro ministro José Sócrates, investigado no âmbito do processo Marquês - onde é suspeito de corrupção passiva, fraude fiscal, branqueamento de capitais e tráfico de influências -, que está nas mãos do juiz. As suspeitas de escutas que o próprio admitiu também devem ser analisadas.

Na quinta-feira, Carlos Alexandre afirmou não ter fortuna pessoal, nem amigos ricos ou contas bancárias em nome deles. "Os meus encargos só são sustentados com trabalho sério." Afirmações que foram entendidas como dirigidas a José Sócrates. Motivando até uma resposta (publicada no DN dois dias depois da entrevista) do ex-primeiro-ministro, em que este acusava Carlos Alexandre de falta de imparcialidade.

Por considerar que a alusão "nada vinha a propósito" e que "não pode deixar de ser entendida - como o foi por todos os que a viram - como uma cobarde e injusta insinuação baseada na imputação que o Ministério Público me fez no referido processo", o ex-primeiro-ministro pediu aos seus advogados para apresentar queixa contra a atuação do juiz.

Durante a entrevista, Carlos Alexandre disse ainda que suspeitava de estar a ser escutado. "Sinto-me escutado no meu dia-a-dia sob várias formas. (...) Por vezes há pessoas que não conseguem estabelecer contacto comigo. O telefone vai a baixo para voice mail quando estou em sítios onde há carga máxima e há comunicações. Não estou a dizer que há forças dessas... nomeadamente dos serviços de informações. Não estou a imputar", afirmou. No entanto, não apresentou queixa em relação a estas suspeitas.

Viciado em trabalho

Embora tenha evitado falar de casos concretos que tem em mãos - como o processo Marquês ou o que envolve Ricardo Salgado e a falência do BES -, Carlos Alexandre foi deixando recados. Afirmou não ter habilitações para ser juiz desembargador ("não tenho livros publicados, não vou a conferências, não tenho pós graduações, trabalho muito"), ou repetiu a ideia de não ter "dinheiro ou contas bancárias em nome de amigos". Sublinhando ainda que, entre os juízes, é muitas vezes apelidado de "saloio de Mação".

Viciado em trabalho, Carlos Alexandre contou que além das tarefas do Tribunal Central de Instrução Criminal, faz turmas de fim de semana no Tribunal de Instrução Criminal, de forma a ter rendimento que lhe permitam cumprir todos os seus compromissos. "Em 52 sábados num ano, trabalhei 48", disse, acrescentando que não tira férias no sentido clássico há dez anos. O seu dia-a-dia resume-se a "casa-trabalho-casa". Quase não frequenta restaurantes por ter "preocupações com que as pessoas nas mesas ao lado estejam a ouvir o que estou a dizer". "Sinto-me escutado no meu dia-a-dia, sob várias formas", admitiu, acrescentando ter lido o Manual de Procedimentos do Serviço de Informações e Segurança, documento que foi parcialmente analisado no chamado "caso das secretas". Nesse documento, além de escutas telefónicas, fala-se em, por exemplo, escutas ambientais.

Apesar destas suspeitas, Carlos Alexandre garantiu não ter medo. "Se tivesse, não me levantava da cama, aceito o meu futuro e o meu destino." Na magistratura há 30 anos, tornou-se "super juiz", em novembro de 2004, com a entrada para o Tribunal Central de Instrução Criminal.

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