Enfrentando a raça, a religião e o seu próprio coração

Antes dele, eu tinha namorado apenas com mulheres, assim voltei ao ponto de partida, mas evitando conscientemente qualquer coisa inter-racial. Perguntei-me o que me teria feito pensar que poderia estar com um homem, sobretudo com um homem branco

Mesmo antes de ele falar, eu já sabia o que iria dizer. Uma mulher que eu viria a conhecer anos mais tarde descreveu a sensação como "sentir na pele". Senti as palavras que ele estava prestes a dizer na minha pele.

Quando ele disse: "Eu não posso continuar com isto", ouvi o que ele estava realmente a dizer. Um sinal vermelho brilhou à frente dos meus olhos. Eu tremia enquanto segurava o telefone encostado ao ouvido. Gritava, mas estava incapaz de falar.

Pensei que talvez o pior tivesse passado, mas ele continuou a falar para declarar o óbvio - que eu era negra e não era judia. Explicou que não estava pronto para lidar com as complexidades de uma relação inter-racial num país como este, como se estivéssemos na década de 1960 e fossemos Richard e Mildred Loving. Ou como se eu o tivesse enganado mudando de raça e de religião a meio da nossa relação.

Senti a garganta a fechar, o peito apertado e os olhos a picarem. Ouvi-me a chamá-lo fanático, um termo suave quando o que eu queira chamar-lhe realmente era racista.

A resposta dele foi: "Sinto muito que penses assim."

Tínhamos namorado a sério, tentando perceber o que poderia vir a ser o nosso futuro. Eu estava na casa dos 20 e ele na dos 30. Ele não praticava os encontros casuais, disse-me. Na sua idade, considerava sempre o potencial a longo prazo.

Odiei-me por deixá-lo escapar-se tão facilmente. Pareceu-me uma montanha demasiado alta para escalar. Sendo uma mulher negra na América, eu subia aquela montanha todos os dias. Ter de a escalar novamente por causa dele era demais para mim.

Em vez disso, passei os dias após o nosso rompimento a repetir as palavras dele na minha cabeça. Ensaiei um retomar da nossa conversa. Nessa conversa imaginária, eu era corajosa e forte. Falava com firmeza e clareza. Fazia que ele visse o seu preconceito ao espelho para que não pudesse evitar ver-se como era e ouvir as suas palavras pelo que representavam.

Os meus sentimentos eram confusos, mas eu não tinha tempo para os clarificar. Tentei escrever, mas tudo saía sentimentalista. Eu sentia a falta dele, mas resistia ao desejo de lhe ligar. Recordava-me que era negra e não era judia.

Com o passar do tempo, os detalhes ficaram nebulosos até que ele passou a ser apenas uma pequena mancha no meu quadro de relações, uma história que eu contava aos meus amigos. O meu não judaísmo negro deixou de ser um problema meu e passou a ser só dele.

Comecei a namorar novamente. Antes dele, eu tinha namorado apenas com mulheres, assim voltei ao ponto de partida, mas evitando conscientemente qualquer coisa inter-racial. Perguntei-me o que me teria feito pensar que poderia estar com um homem, sobretudo com um homem branco. Em retrospetiva, vi todos os sinais que me deveriam ter alertado, o largar a minha mão quando via os amigos dele, por exemplo. E com a benevolência que vem do perdão ou da amnésia não guardei ressentimento.

Quando os nossos caminhos se cruzaram um ano e meio depois, as arestas mais aguçadas tinham desaparecido, deixando apenas a substância da história partilhada. O café tornou-se almoço, o almoço tornou-se jantar, o jantar tornou-se sexo.

Alguma coisa em mim levantou uma mão para objetar, mas eu ignorei. Eu sabia o que estava a fazer, ou pensei que sabia. Eu queria provar algo: que ainda era desejável, que não me importava. Era apenas o meu corpo, disse a mim mesma. O meu corpo negro e não judeu.

Para ele, imagino que as complexidades do sexo casual inter-racial na América exigiam um tipo diferente de lógica, um tipo diferente de fanatismo.

Durante um momento de inspiração dei comigo a transferir a nossa relação para o papel. O que saiu foi inesperado, fresco. A dor parecia ter desaparecido, as nossas conversas pareciam agora cómicas. Eu amassei a nossa história como pão, e ela fermentou. Em breve me senti pronta para a partilhar com alguém, e estava ciente de que a ira enviar para ele, mesmo antes de ter realmente decidido.

Ele respondeu imediatamente ao e-mail com o rascunho, e a afetuosidade da sua saudação espantou-me.

Dizia que o meu texto era "bom" e "humano" e "cheio de conflitos", como se estivesse a criticar a história de outro casal, mas depois admitiu que estava envergonhado com a narrativa.

Eu vi novamente aquele flash vermelho que tinha visto anos antes, mas tentei manter a minha objetividade. "Obrigada pela resposta", comecei. "Levantas algumas questões positivas." No entanto, tinha-se desencadeado alguma coisa em mim, e eu sabia que, desta vez, não poderia recuar e afastar--me da montanha.

Mandei um novo e-mail e, desta vez, não me contive. Pôr tudo cá fora tinha tanto de assustador como de libertador. Estava preocupada por ir reabrir uma ferida que eu não tinha resiliência para curar. Fiquei a pensar se ele iria responder, mas sempre focada em como me sentia bem por dizer finalmente tudo o que tinha arrastado comigo por tanto tempo. Percebi então o quanto eu me tinha editado a mim própria durante a nossa relação, com medo de o afugentar.

Dois meses depois, o nome dele apareceu na minha caixa de entrada. Hesitei, cautelosa, mas curiosa.

A sua resposta era longa, mas concisa, deliberada e ponderada. Li-a duas vezes, sem saber do que estava à procura. Talvez eu tivesse simplesmente esperado que terminasse com a minha carta, sendo minha a última palavra.

Passaram-se meses e eu vi-o em todas as estações. Na primavera, a atravessar a rua. No verão, caminhando pelo parque. No outono, no corredor dos congelados de uma loja de alimentos orgânicos. Ele tinha uma aparência desalinhada e pareceu aturdido ao ver--me, o que o levou a preencher o silêncio com uma conversa nervosa: ele tinha um filho agora. Naquele dia era a sua circuncisão.

Obrigada a uma resposta, eu partilhei que o meu empréstimo do carro já estava pago.

Ao tomar café com uma amiga, o nome dele apareceu na conversa. "O que aconteceu com vocês os dois, afinal?", perguntou ela, e, de repente, palavras que não reconheci como minhas saíram da minha boca. Falei-lhe sobre o peso que sentia e que não conseguia identificar. Sentia falta dele às vezes, sim. Ainda me sentia enganada, sim. Que ele me tinha ficado a dever, sim. Mas havia outra coisa que eu lutava para conseguir articular enquanto ela me observava paciente, aberta, a ouvir-me.

Analisar emoções que existiam apenas como massas no meu peito era como tentar reprimir um reflexo de vómito com uma boca cheia de berlindes. Durante todo esse tempo, tinha sido mais fácil ficar zangada com ele, culpá-lo. Os seus erros eram óbvios e fáceis de rotular. O nome vernáculo para ele e aqueles como ele já existia; não era nada de novo. Mas no final eram os meus próprios sentimentos de vergonha que eram mais difíceis de despejar.

A hipocrisia não era, de facto, dele. O tempo todo, ele tinha sido exatamente quem era e o que era. Fui eu que me encolhi. Tentei limpar a minha negritude, polir-me com um brilho incolor, preparei-me para a sua inspeção, procurando a melhor luz para me colocar de modo a fazê-lo esquecer. Eu tinha querido desesperadamente que ele me achasse digna dele. Ter falhado nisso à custa da minha integridade envergonhou-me mais do que qualquer rejeição do meu eu negro e não judeu alguma vez conseguiria.

A minha amiga escutava como se estivesse a ouvir um segredo de que há muito suspeitava, mas nunca mencionara, e eu amei-a por isso. Ela acariciou-me o ombro enquanto eu chorava, fez as perguntas certas, escutou todas as minhas respostas. Quando ela me disse: "Tu não fizeste mais nada além de amar, querida", as suas palavras preencheram o vazio em mim.

Aparentemente, como todos os livros de autoajuda proclamam, o amor começa realmente connosco próprios. E ao longo dos dois anos que se seguiram regressei ao básico. Não foi suave, e houve inúmeras falsas partidas, mas com cada uma eu aprendi novas lições, mantendo esse mantra sempre presente. Senti-me como uma criança a aprender a andar: primeiro sentar, em seguida, gatinhar, depois ficar de pé e cair. Ficar de pé e cair. Parecia ser simultaneamente a coisa mais fácil e mais difícil, e a gratidão começou a substituir o peso que me tinha puxado para baixo.

Quando conheci uma mulher que parecia ser a resposta para tudo o que eu estava pronta para dar e receber, eu estava ansiosa por testar o meu amor-próprio e tudo pareceu cor-de-rosa durante uns tempos. No entanto, percebi rapidamente que ela era mais um teste do que uma resposta, e o facto de eu ver isso tão claramente parecia mais uma prova do meu crescimento.

Separámo-nos como amigas e eu continuei a aprender, a ficar de pé e a cair.

À espera para atravessar numa passadeira, numa primavera, vi-o num carro parado no semáforo. Ele estava no lugar do passageiro e havia uma mulher ao volante. Os anos não o tinham mudado e eu reconheci-o antes que ele me visse. Quando os nossos olhos se encontraram, fixámo-nos e eu ouvi no seu olhar todas as palavras que tinha desejado ouvir quando acabámos: desculpa. Tu estavas certa. Quem me dera. Se pudesse...

Não sei o que os meus olhos lhe estavam a dizer a ele, mas enquanto as duas crianças inquietas no banco de trás saltavam para cima e para baixo nas suas cadeirinhas e a mãe delas se mantinha inconsciente da distração do seu marido, eu senti-me mais leve.

As crianças acenaram e eu sorri-lhes de volta. Em algum lugar sobre os meus ombros, o último peso de qualquer coisa que eu não tinha identificado levantou voo suavemente e afastou-se de mim.

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