E depois da covid-19, o que se segue? O 'Longo Covid'?

Foi infetado pelo SARS CoV-2 e até teve sintomatologia ligeira, mas ao fim de um tempo começou a sentir fadiga, falta de ar e dores de cabeça? Ou, então, falta de concentração, de memória e incapacidade para realizar as atividades que antes faziam a sua vida normal? Não está a alucinar. Os sintomas são reais, embora os especialistas ainda não consigam explicar o porquê, mas já há quem lhe chame 'longo covid'.

"Não sei o que tenho, parece que estou outra vez doente". O desabafo é de uma uma enfermeira jovem semanas depois de ter sido infetada pelo SARS CoV-2, de ter tido uma infeção ligeira e de ter regressado ao trabalho assim que passou o período de isolamento. A verdade é que esta enfermeira não sabia o que tinha, identificava apenas que não ter a mesma capacidade de trabalho e o mesmo nível de concentração de antes da doença, mas a tudo isto juntavam-se outros sintomas, como dores musculares e falta de ar. Recorreu aos médicos, do serviço de Infecciologia do hospital onde trabalhava para tentar perceber o que se passava.

Na altura, e como a situação ocorreu há um ano, logo a seguir aos primeiros casos da doença, nem eles próprios sabiam exatamente com o que estavam a lidar, mas o desabafo serviu de alerta para que outras situações não fossem desvalorizadas e tivessem a abordagem adequada para serem acompanhadas e tratadas. Hoje já há literatura sobre 'estes sintomas residuais' que podem persistir ou aparecer semanas depois da infeção e, em alguns casos, até com um curso flutuante, mas a história deste capítulo do 'longo covid' ainda está a ser escrita.

Ao DN a infecciologista Ana Cláudia Carvalho, a trabalhar agora no Hospital de Braga,, recordou os primeiros contactos que teve ainda no Hospital São João, no Porto, com doentes que lhe descreveram a situação. "Foi mais uma descoberta, em tempos de tanta incerteza...pessoas que tinham tido um diagnóstico de infeção, algumas até com sintomas ligeiros e sem necessidade de internamento ou de cuidados hospitalares, vinham ter connosco a dizer que não se sentiam completamente recuperadas ou que tinham melhorado, mas que depois parecia que tinham ficado outra vez doentes. Recordo bem o relato de alguns casos, em alguns jovens que nos diziam: 'Não consigo fazer o que fazia antes. Tenho um cansaço que não é habitual, subo umas escadas e falta-me o ar, tenho dores musculares que me impedem de fazer a minha atividade normal'".

Caso a caso e história a história, a descrição deste tipo de sintomas ia chegando aos médicos. Ana Cláudia Carvalho conta que no hospital onde trabalhava as situações começaram logo a ser avaliadas, tal como aconteceu em muitos outros serviços que lidaram desde o início com casos covid. A questão é que muitos destes casos tinham sido ligeiros, muitos não necessitaram sequer de passar por internamento ou cuidados intensivos, uns eram doentes novos, outros mais velhos, e a muitos tiveram de dizer, "que a avaliação feita através de exame objetivo, análises, RX, etc, não tinha encontrado qualquer alteração. Tivemos de gerir muito bem esta informação para explicar às pessoas que não encontrávamos nada que objetivasse a persistência de doença, mas que entendíamos que aqueles sintomas eram reais". Hoje sabe-se que "há casos em que alguns parâmetros inflamatórios persistem alterados, mas nem sempre é assim, frequentemente não se encontram alterações".Longo covid tanto engloba doentes que tiveram doença aguda como ligeira.

Longo covid tanto engloba doentes que tiveram infeção aguda como ligeira

A médica relembra que, na altura, entre os profissionais que precocemente começaram a lidar com os primeiros casos de infeção e a contactar com este tipo de relatos e de descrição de sintomas pós-infeção aguda, se começou a equacionar que se poderia estar a assistir a um quadro semelhante a outros já identificados para outras infeções víricas, como a Mononucleose infecciosa, a Dengue, ou até mesmo o Ébola, "em que após a fase aguda de doença podem persistir sintomas mais ou menos específicos, durante semanas a meses".

Mas há um ano a única certeza que tinham é que estavam perante uma doença nova, como diz Ana Cláudia Carvalho, "a história do SARS CoV-2 estava a ser escrita à medida que se ia vivendo e que a doença se ia revelando à nossa frente, um pouco como ainda é agora". De qualquer forma, tais relatos "não podiam ser deixados de lado e, hoje, quando falamos de 'longo covid' ainda estamos a escrever esse capítulo, porque, mesmo nesta altura, ainda é muito difícil dar respostas definitivas".

A nomenclatura sobre o longo covid ainda é um pouco confusa e controversa entre a comunidade científica. Há quem lhe chame Síndrome Pós Covid ou Covid Crónico, "o que considero que não é de todo o mais correto," defende Ana Cláudia Carvalho. "A nomenclatura ainda não é muito consensual e na literatura já existente encontramos termos muito diferentes, mas o longo covid acaba por ser a terminologia mais usada", explica.

"Uma em cada cinco pessoas que tiveram infeção aguda têm este tipo de sintomas até às cinco semanas e uma em cada dez têm-nos para além das 12 semanas"

Para já, a literatura existente engloba nesta categoria de Longo Covid doentes muito diferentes e grupos de pessoas muito heterogéneos, nomeadamente os que tiveram infeção aguda sintomática e que ao fim de quatro semanas continuam com sintomas residuais, e os que mesmo não tendo infeção aguda, têm os mesmos sintomas que, por vezes, persistem para lá das doze semanas ou mais.

"Para ter uma ideia, de acordo com dados de estudos ingleses, que são os que têm publicado mais informação sobre este assunto, estima-se que uma em cada cinco pessoas que tiveram infeção aguda têm este tipo de sintomas até às cinco semanas e uma em cada dez têm-nos para além das 12 semanas", refere Ana Cláudia Carvalho, acrescentando: "É difícil dizer qual é a verdadeira frequência deste tipo de manifestação, se é igual nas mulheres e nos homens, se atinge pessoas dos 20 aos 30 anos ou dos 40 aos 50 anos. É muito difícil definir um perfil e atribuir-lhes um risco de virem a sofrer de Covid Longo, mas não é uma raridade ou uma situação inédita".

Portanto, "ainda não estão completamente esclarecidas as causas por detrás desta condição, mas já se consegue dizer que não está diretamente relacionado com a gravidade da infeção inicial", o que, sublinha, "é uma situação para a qual é importante alertar, porque temos pessoas que tiveram uma infeção ligeira, mas que vieram a apresentar tais sintomas mais tarde, e os sintomas podem ter um curso flutuante. No entanto, Ana Cláudia Carvalho especifica ainda que "importante esclarecer que o quadro não se atribui à persistência do vírus, mas que pode ser o resultado da resposta imunológica à ação do vírus".

Os sintomas mais frequentes são fadiga, dores de cabeça, dores musculares e sensação de falta de ar, mas há mais "desde febre, manchas na pele, perda de olfato e paladar".

Até agora, e segundo o que já foi descrito, os sintomas mais frequentes são fadiga, dores de cabeça, dores musculares e sensação de falta de ar, mas há mais "desde febre, manchas na pele, perda de olfato e paladar. À medida que o tempo vai passando vamos aprendendo também", diz a médica. "Há pessoas que perderam o olfato e o paladar e levam meses a recuperá-los. Outras, com 20 ou 30 e poucos anos, que eram muito ativas, praticavam desporto, que, meses depois, ainda não se sentem com capacidade para voltar à sua vida normal". Os casos são vários, os sintomas também, às vezes, "é o cansaço que perdura, a sensação de aperto no peito de vez em quando, palpitações que deixam o coração como que a disparar, outras vezes são as perturbações do sono, da memória ou falta de concentração", explica.

Ana Cláudia Carvalho diz mesmo que a avaliação destas situações não é fácil, até porque, muitas vezes, "pode haver uma componente psicológica, relacionada com a forma como foi vivida a infeção aguda, o isolamento, o medo de morrer, de infetar os mais próximos. E isso deixa marcas também", mas, acima de tudo, "é importante que as situações sejam avaliadas, que os sintomas não sejam desvalorizados, para que se encontre a forma mais adequada de acompanhamento e de tratamento para cada um dos doentes". A quem, diz a médica, nem sempre é possível dar respostas definitivas, mas a quem é preciso dar explicações. "Muitas vezes, basta dizer-lhes que isto não lhes está a acontecer só a elas, que acontece a várias pessoas, e que a maior parte recupera com o tempo. Só isto é muito tranquilizador". Sublinhando: "Há também um lado de responsabilidade individual, que é o de tentar perceber se os sintomas persistem e interferem na qualidade de vida. E se assim for, o doente deve procurar, em primeira instância, o médico assistente, para que este possa fazer uma avaliação e se necessário encaminhá-lo".

A médica defende até que o equilíbrio entre o valorizar as queixas e tranquilizar o doente pode ser a melhor estratégia para se ultrapassar a situação. "Não conseguimos prever quais as pessoas que vão desenvolver estes sintomas, quanto tempo é que estes vão permanecer, mas é importante dizer que a grande maioria vai recuperar completamente. Aos casos mais sintomáticos, é importante dar resposta individualizada e frequentemente multidisciplinar, envolvendo Pneumologia, Psiquiatria, Medicina Física e Reabilitação".

Em Portugal, ainda não há números ou estimativas dos doentes afetados por esta fase de longo covid, o que se sabe sabe é que há cada vez mais relatos de doentes e de queixas que vão neste sentido.

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