Do Chile à Nova Zelândia, os caminhos da vacinação

Fora da União Europeia há países que levam avanço na vacinação. Israel é o caso mais emblemático, mas também Chile, Marrocos e Emirados Árabes Unidos têm sido bem-sucedidos. Mas há quem faça pior do que a UE.

Em apenas uma semana, Portugal caiu do 21.º lugar para o 30.º, no ranking mundial de vacinação por cem habitantes, liderado por Israel. Ainda assim, continua em melhor posição do que a maioria dos congéneres da União Europeia (UE), com taxas superiores às de França, Alemanha, Bélgica, entre outros. Mas fora dos 27, se há quem faça melhor também há ritmos baixos.

Suspende, retoma, qual inspira/expira. A distância que vai entre o objetivo traçado no plano de vacinação em Portugal foi nesta semana dilatada com a polémica à volta da vacina da AstraZeneca. Cerca de 120 mil pessoas viram adiada a vacinação contra a covid-19, à conta da suspensão da administração da vacina em causa. De acordo com o vice-almirante Henrique Gouveia e Melo, coordenador da task force, o plano é retomado na segunda-feira, "acelerando e recuperando o atraso que foi feito pelo facto de termos estado estes quatro ou cinco dias parados". O responsável acredita que uma semana chega para retomar o plano e recuperar o tempo perdido, anunciando a entrega (prevista) de cerca de 4,4 milhões de vacinas do conglomerado farmacêutico anglo-sueco para o segundo trimestre do ano. Até ao final desta semana mais de metade da população com 80 anos já tinha sido vacinada. Ao todo, foram administradas em Portugal 1 235 136 vacinas (de acordo com o contador do Serviço Nacional de Saúde), o que quer dizer que a suspensão da AstraZeneca fez cair para metade os números do objetivo semanal. Apenas 3,64% da população portuguesa já recebeu a vacinação completa. Ao dia de ontem continuavam infetadas por covid-19 34 713 pessoas, estavam internadas 828 em enfermaria e 187 em cuidados intensivos.

EAU

Secundam Israel (o país que lidera com 109,66 doses administradas por cada 100 pessoas) nessa batalha da vacinação que estão a ganhar, à escala mundial. Não é à toa. Os Emirados Árabes Unidos (EAU) seguiram a mesma estratégia: contactaram precocemente com a indústria farmacêutica e jogaram simultaneamente em vários tabuleiros, desde o campo político e diplomático ao financeiro. No final desta semana, os EAU eram o segundo país mais rápido do mundo a vacinar os seus habitantes (mais de 9,8 milhões). Segundo os dados atualizados diariamente pelo portal pelo Our World in Data - da Universidade de Oxford, que está a monitorizar os dados de vacinação divulgados por cada país -, por cada 100 habitantes já tinham sido inoculadas 70 doses, pelo que 22% da população dos EAU estará nesta altura completamente vacinada.

A pandemia está ainda numa fase aguda naquela região do globo. Nesta semana continuavam a registar-se cerca de 2000 novas infeções por dia, mas ainda assim com o índice de transmissão em queda. Até agora registaram-se 434 195 infeções e 1424 mortes.

China

No país onde tudo começou, no final de 2019, o controlo da pandemia entrou numa nova fase nesta semana. A China anunciou que tem agora cinco vacinas aprovadas para uso geral ou de emergência, incluindo três que estão a ser distribuídas noutros países, quer seja através do comércio ou para ajuda internacional. E fez saber que apesar de ainda não terem sido aprovadas em muitos países do mundo, é delas que depende a entrada de estrangeiros no território: Pequim só irá abrir as portas a um número restrito de países, e apenas aos viajantes que tiverem sido imunizados com o fármaco chinês. Até agora, os dados de vacinação monitorizados pelo portal Our World in Data não são famosos, já que mostram a China em 20.º lugar no mundo, quando se mede a administração de vacinas a cada sete dias: 0,06 por 100 habitantes. Até meio de março tinham sido inoculadas mais de 64 milhões de doses de vacina, num país com mais de 1,402 biliões de habitantes. A campanha de vacinação tem sido mais lenta do que noutros países. O número de doses negociadas para outros países é quase dez vezes superior ao distribuído internamente. Há hoje 17 vacinas contra covid que aguardam autorização para realização de testes clínicos. Por outro lado, a China conseguiu estancar o avanço da pandemia de forma impressionante: dos 90 062 casos de covid-19, registaram-se 4636 mortes.

Brasil

O mais recente balanço (18 de março) aponta para 10 984 488 pessoas que já receberam a primeira dose de uma vacina. O número representa 5,19% da população brasileira, que ronda os 212 populações de habitantes. Entretanto, a segunda dose já foi aplicada em 4 027 123 pessoas (1,90% da população do país) em todos os estados.

No total, 15 011 611 doses foram aplicadas em todo o país.

Mas o retrato da pandemia no país do sol continua sombrio. Na quinta-feira registaram-se 86 982 novos casos e 2724 mortes, estando na pior fase desde que foi declarada.

Comparativamente à média últimos 14 dias, a variação foi de +48% de casos, indicando também uma tendência subida na letalidade. Nos últimos 55 dias o número de mortes tem vindo a subir, pelo que a vacinação é fulcral em todos os estados.

EUA

Um dos desígnios de Joe Biden desde que chegou à Casa Branca foi o combate à pandemia, que de resto dominou toda a campanha eleitoral nas eleições norte-americanas.

Na semana passada, o presidente revelou que todos os adultos dos EUA poderão receber a primeira dose de uma vacina contra a covid-19 a partir de maio. "Vou ser claro: vamos passar da meta de um milhão de vacinas por dia que anunciei em dezembro, para uma média de dois milhões por dia", disse Biden.

No final desta semana, a média por cada 100 habitantes era de 34.60 vacinas administradas. Estima-se que até agora cerca de 12% da população americana já tenha a vacinação completa, num universo de 330 milhões. Os EUA continuam a registar uma média diária de 54 mil novos casos por dia. Até agora registaram 29 692 901 casos de infeção por covid-19 e um total de 539 207 mortos.

Nova Zelândia

O país que foi modelo no combate à pandemia iniciou em fevereiro "o maior programa de imunização da nossa história", como lhe chamou o Ashley Bloomfield, o ministro da Saúde.

"Vamos avançar de forma ponderada nestes primeiros dias e semanas para assegurar que os nossos sistemas e processos sejam robustos", acrescentou o governante. A verdade é que, à data, o país tem uma média de 0,56 vacinas por 100 habitantes, um mês depois de iniciada a vacinação. Nas últimas semanas foram vacinados cerca de 12 mil trabalhadores fronteiriços, bem como os que se encontram em centros de quarentena, um passo importante para imunizar os seus mais de cinco milhões de habitantes no prazo de um ano.

Mas desde há algum tempo que a Nova Zelândia é um pequeno oásis no mundo, com o regresso ao "velho normal". Correram mundo as fotografias de festivais, festas e churrascos, com toda a gente a conviver sem máscara nem distanciamento social. Desde o início da pandemia o país registou apenas 2444 casos de infeção e 26 óbitos. Nos últimos sete dias foram diagnosticados apenas quatro casos.

Japão

Os números do Japão não são brilhantes no que respeita à vacinação. O país regista apenas 0.40 doses por 100 habitantes nos últimos sete dias, um mês depois de iniciado o processo de vacinação. A cinco meses do início dos Jogos Olímpicos, o país de 126 milhões de habitantes previa, na ocasião, "imunizar toda a população no prazo de um ano". As primeiras doses da vacina desenvolvida pela Pfizer - a única até agora aprovada no Japão - foram administradas no Centro Médico de Tóquio, no distrito de Meguro.

A desconfiança revelada pela maioria da população relativamente à vacina estará na origem deste atraso na vacinação. O número de casos do Japão não é tão alto quanto o dos Estados Unidos ou do Reino Unido, mas nos últimos meses o sistema de saúde tem sido sobrecarregado pela subida de casos de infeção. Até agora, o país contabilizou 452 147 casos e 8750 óbitos. Nos últimos sete dias registou uma média de 1470 novas infeções por dia.

Marrocos

Cerca de 5,7% da população de Marrocos já tem a vacinação completa, e perto de quatro milhões de pessoas já receberam pelo menos uma dose da vacina contra a covid-19, ou seja, mais de 11% da população do país. Ainda assim, mantém-se o recolher obrigatório e outras restrições. O país recorreu às vacinas da AstraZeneca e da chinesa Sinopharm, e começou cedo a campanha de vacinação. As autoridades marroquinas apontam para imunizar toda a população com mais de 18 anos, num total de 25 milhões de pessoas. De acordo com a imprensa local, decorrem atualmente contactos com a Rússia para importar a vacina Sputnik V, e ainda com a norte-americana Johnson & Johnson, que comercializa uma vacina de dose única.

O país contabilizou 490 575 casos de infeção desde o início da pandemia, e um total de 8748 mortos.

África do Sul

Foi na África do Sul que a comunidade científica identificou uma das variantes mais perigosas do SARS-CoV-2. Naquele país já se registaram 1 533 961 casos de covid-19 e 51 724 mortes. A vacinação começou há um mês, a 17 de fevereiro, quando o presidente sul-africano e alguns profissionais de saúde começaram a ser inoculados com a vacina da Johnson & Johnson, de dose única. As autoridades de saúde sul-africanas vacinaram 80 mil profissionais de saúde nas primeiras duas semanas, nas nove províncias do país. Mas o plano tem avançado a passo lento. Segundo dados da Our World in Data apenas 0,30 doses estão a ser administradas por cada 100 habitantes, num país que ultrapassa os 59 milhões.

Rússia

O primeiro país a anunciar uma vacina contra a covid-19 - a Sputnick - tem uma média de 5,45 doses administradas por cada 100 habitantes, no universo dos 145 milhões. Aqui o problema reside sobretudo na desconfiança da população. Quando as autoridades de Sputnik, (a pequena vila que dá nome à vacina) anunciaram que iriam oferecer a vacina nacional a um centro de saúde local, apenas 28 reformados se registaram para a tomar. Mas no resto do mundo o interesse pela vacina russa disparou desde que dados publicados na revista científica Lancet mostraram que é 91,6% eficaz contra o coronavírus, uma taxa semelhante à de outras vacinas, como a CoronaVac, por exemplo, que está a ser administrada no Brasil.

Chile

Enquanto a América Latina se arrasta entre planos de vacinação interrompidos ou demorados, o Chile já vacinou mais de 13% da sua população, da ordem dos 19 milhões de habitantes. Por cada 100, já foram administradas 40 doses, de acordo com os dados mais recentes. O país foi bastante afetado pela pandemia, com um total de 911 469 caos e 21 988 mortes.

Reino Unido

A vacinação foi sempre encarada como uma grande prova de fogo para os ingleses, sobretudo desde que saíram da União Europeia. Afinal, Boris Jonhson não ganhou a guerra da pandemia, mas parece estar a vencer a batalha da vacinação. Por cada 100 habitantes, 40 que já foram inoculados. O país ocupa os lugares cimeiros na administração de vacinas, com cerca de 40% da população já vacina com uma ou as duas vacinas. Uma necessidade premente, já que regista dos piores números de infeção em todo o mundo. Entre os seus 67 milhões de habitantes registaram-se 4 280 882 casos de infeção e 125 926 mortes.

México

No México, apenas três em cada 100 habitantes já receberam pelo menos uma vacina, num universo de 128 milhões. Nesta semana soube-se que os EUA planeiam emprestar quatro milhões de doses da vacina da AstraZeneca ao Canadá e ao México. Este país deverá receber 2,5 milhões de doses da vacina, enquanto o Canadá irá receber 1,5 milhões.

O México contabilizou até agora 2 182 188 de casos de covid-19 e 196 606 mortes.

Cuba

A notícia de uma vacina contra a covid-19 desenvolvida em Cuba deixa adivinhar que a fase fase final de ensaios clínicos avança ainda neste mês. O país decidiu arregaçar as mangas e produzir a sua própria vacina, mesmo numa altura em que atravessa a pior crise económica desde os anos de 1990, proporcionada pela pandemia de covid-19 e pelas sanções dos Estados Unidos.

De resto, o país já revelou que tem intenção de inocular os turistas que visitem o país, numa estratégia que poderá fazer regressar um setor determinante para a economia local.

Cuba já produz oito das 11 vacinas constantes do plano nacional de vacinação, e conta produzir, só em 2021, 100 milhões de doses da Soberana 02, que dará para inocular os 11,3 milhões de habitantes da ilha. Segundo a BioCubaFarma, a empresa estatal responsável pelo desenvolvimento das vacinas, cada cidadão ficará imunizado apenas depois de receber três doses, no período de um mês. Mas chegará para exportar (como já é hábito) para países amigos como Irão, Índia, Paquistão, Venezuela, Bolívia e Vietname, e sobrará ainda para inocular os turistas.

Cuba registou total de 64 414 casos e apenas 384 mortos, até à data. Passou o ano de 2020 com um número bastante reduzido de infeções e está de novo numa curva descendente.

dnot@dn.pt

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