Diário de uma viagem. Finalmente Glasgow. Em busca dos bravehearts do clima

Chega ao fim a viagem das três equipas que participam no desafio Climes to Go e o DN acompanhou aqui as aventuras que enfrentou a equipa Energia na viagem até Glasgow, onde de 31 de outubro a 12 de novembro se desenrola a Cimeira do Clima. Neste diário conta-se a chegada a Glasgow e os contactos feitos no evento.

Glasgow, aqui estamos. Demorou, mas valeu a demora. 12 paraquedistas de terra pousam com as suas mochilas nesta cidade escocesa. Damos nas vistas pela boa disposição que desperta a atenção a outro mochileiro, mais velho e com mais quilómetros nas pernas. Chamava-se Gustaf e veio da Suécia a pé, demorou mais de 100 dias a chegar. Pelo caminho foi fazendo várias ações também com colegas alemães da geht doch. São peregrinos de grande fundo, ao pé deles somos uns meninos.

Nós tivemos uma viagem tranquila até aqui, onde seríamos recebidos pelo primeiro-ministro, mas não há Orçamento para vir à Escócia. Vamos então para o nosso alojamento, já é noite de Halloween e não há tempo para fantasias. A nossa casa fica fora da cidade, no meio do campo, com dimensão e escuridão suficiente para esta efemeridade.

Voltamos a encontrar a organização tantos dias depois, é bom voltar a vê-los. Sentimos uma dívida de gratidão enorme por nos terem proporcionado esta experiência. Todos juntos à mesa ouvimos as histórias de anteriores COPs por quem as viveu intensamente. Desde os primórdios de Berlim, ao insucesso de Copenhaga, do luxo de Bali ao milagre de Paris.

Quem já trabalhava estes assuntos antes de estarem na moda observa uma grande evolução, porém ainda escassa. Não estamos mais nos tempos em que por engano alguns latinos vendiam carvão na Carbon Expo, mas ainda se enfrentam entraves à sustentabilidade por razões económicas e eleitorais de curto prazo e também por falta de literacia.

Nós temos uma mensagem que queremos passar sem prepotência ou algum sentimento de superioridade. Somos cidadãos ordinários, queremos aprender e partilhar. Passamos um dia a trabalhar num pequeno vídeo que relate a nossa experiência e que rebente algumas bolhas entre passivos e histéricos. Depois de unirmos esforços e talentos, alcançamos um bom resultado apresentado num evento no Pavilhão da União Europeia no dia seguinte.

É realmente um privilégio falarmos no mesmo palco em que antes tinha falado Bill Gates e a Presidente da Comissão Europeia. Não os vimos a combinar como se insere o chip nas vacinas. Quem vimos foi também mais um conjunto de personalidades da cena internacional, o Presidente dos Estados Unidos, o primeiro-ministro do Reino Unido, o neto da Rainha, o Secretário-Geral da Nato, o primeiro-ministro do Canadá e muitos mais.

Mais que estes encontros engraçados, conhecemos pessoas verdadeiramente inspiradoras. Um dos primeiros foi o Mamoudou, vindo do Burkina Faso. Trabalha numa ONG, chamada Association for Education and Environment, que apoia várias pessoas neste país em que 80% da população vive da agricultura e que é dos mais afetados pelas alterações climáticas, sobretudo pela pouca bonança do seu Norte. A isto junta-se o terrorismo que provoca a deslocação das pessoas que vivem em condições nada dignas. A fome e o abandono escolar preenchem o futuro deste Estado.

Conhecemos várias perspetivas na Blue zone, em que só entra pessoal acreditado, e na Green Zone em que ficam as ONGs que acreditam que podemos fazer muito melhor. As causas não são todas iguais, pois a sustentabilidade envolve muitos campos e florestas, onde até o Jaguar está em risco de desaparecer como me explica a Maria Ruiz da Colômbia, com a Greta a poucos metros.

Perto também estava um segurança português, contratado pelas Nações Unidas especialmente para este evento. Trabalhava em Londres, mas deixou o seu trabalho para vir viver esta experiência única. Estamos no centro de decisão, no local onde tudo pode acontecer. Para qualquer lugar que olhemos vemos a diversidade da raça humana.

Infelizmente não podemos ficar o evento todo, porém deu para perceber a dinâmica, sem certezas de que o dinamismo nos trará metas mais ambiciosas. Mas isto também não depende de nós, certo? Errado, menosprezamos muitas vezes o papel da Sociedade civil. Vivemos em Democracia e não podemos esquecer a importância da responsabilidade cívica. Não falo só de reciclar e lavar os dentes com bambu, são os cidadãos que escolhem quem os representa e que impulsionam movimento. A consciencialização, escrutínio, literacia e proatividade valem mais que o discurso fácil.

Com maior conhecimento não passou só a interessar a natureza e a biodiversidade, as pessoas importam. Criar relações, ter uma carga emocional e racional doseada, ter empatia e sentido de compromisso não compromete o nosso planeta. No final resume-se tudo aos valores que temos e que promovemos, seja o 1,5 no papel ou a integridade cá dentro.

Nós conhecemo-nos enquanto grupo e conhecemos pessoas incríveis de todo o mundo que nos inspiram. A Inspiração também inspira ação, por isso sinto que andaremos por aí. Como escrevia o Ary dos Santos pegaremos este mundo pelos cornos da sua desgraça, talvez ligando pessoas que fazem da tristeza graça.

Não são só os vírus que contagiam, a pujança e a paixão também se entranham. São precisos bravehearts que nos façam apostar no desenvolvimento, por muitos monstros de lagos e oceanos que nos inundem de tormentas, haja a verde esperança de tornar uma verdade inconveniente numa solução consistente.

Equipa da Energia (em representação das 3 equipas no Climes to Go)

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