"Deviam existir mais políticas sociais, no SNS e na proteção às famílias"

Padre Constantino Alves reclama "a aposta em políticos que restrinjam o travão da imigração, que promovam a solidariedade entre gerações e que valorizem o trabalho e o não trabalho (pessoas que se dedicam à família ou voluntariado"

Os dias do "medo permanente" - como os apelida o padre Constantino Alves referindo-se ao período em que Portugal esteve sob intervenção da troika - foram-se esbatendo. "Não há uma diferença da noite para o dia, como já por aí li, mas as coisas melhoraram", regozija-se o pároco da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, em Setúbal, que presta apoio a mais de 400 carenciados da zona do bairro da Bela Vista.

"Sobretudo a nível psicológico houve evoluções. Acabou o medo de se ficar sem emprego, das pensões baixarem, de haver cortes nos salários. Há uma descompressão que elevou os níveis de confiança no povo", afirma, admitindo que o novo "clima" potenciou o relançamento da economia. Mesmo na paróquia houve quem tivesse reencontrado o mercado de trabalho ao fim de vários anos desocupado e sem ter o que levar à mesa para alimentar os filhos. "Há menos desemprego, originando mais poder de compra. Isto tem impacto na população e notam-se já sinais de uma vida melhor em vários segmentos da sociedade", atesta.

Há 12 anos que o padre Constantino Alves lançou mão a um projeto ambicioso destinado a ajudar as famílias pobres na zona do bairro da Bela Vista. Começou por mobilizar os desempregados para programas de apoio social, andou pelos restaurantes a recolher alimentos para distribuir pelos mais carenciados, mas seria em 2011, em plena crise, que nascia a sua principal obra. Era inaugurado um restaurante social com resposta direta aos mais necessitados. Reuniu 90 voluntários para levar comida a mais de cem famílias e até à data já foram servidas 300 mil refeições. Em 2015 concretizou outro sonho com a abertura da clínica social dentária, que já soma 3 mil consultas grátis.

Não admira que o combate à pobreza surja com natural prioridade no discurso do padre da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição, de 69 anos - com o título de mestre em Serviço Social - que cita a importância da "motivação" como um dos principais ganchos para ajudar a rebocar o desenvolvimento do país num período que considera ser de "recuperação" no pós-austeridade. "Para a construção de uma sociedade desenvolvida é necessário atrair as pessoas, nesta fase, e não tentar atrair apenas o capital e o investimento", sustenta. Diz que chegou a hora de se "valorizar os cidadãos no trabalho, garantindo-lhes todos os direitos sociais e laborais, com salários dignos", mas vai avisando que isso requer medidas rápidas.

Reclama a "aposta em políticos que restrinjam o travão da imigração, que promovam a solidariedade entre gerações e que valorizem o trabalho e não trabalho". O "não trabalho" de que fala surge associado ao novo conceito sobre aquele tempo que as pessoas "dedicam à família, cultura ou voluntariado", esclarece o padre, para quem o apoio aos mais carenciados se traduz numa espécie de barómetro das economias mundiais. "Percebe-se que um país está melhor ou pior conforme os mais pobres estão no centro das prioridades das políticas", justifica, tendo para si que Portugal dispõe de argumentos para melhorar de vez o estado das coisas. "Somos um país com uma plataforma continental pequena, mas somos ricos em recursos marítimos, temos potencial na agricultura, na investigação, no ensino, na formação", diz, alertando que "é preciso combater a ideia do miserabilismo e de que somos um país pequeno e pobre."

É capaz de admitir que Portugal "não é um jardim à beira-mar plantado", mas também "não é um país de desgraças", insiste, reiterando a necessidade de "haver estratégia e capacidade política", mas sem perder de vista a urgência de se corrigirem as assimetrias "crónicas e históricas" em que o país mergulhou.

E aqui volta a erguer a bandeira em torno da implementação das "políticas sociais adequadas", onde inscreve a letras garrafais o Serviço Nacional de Saúde, a proteção às famílias, a par do combate à corrupção e economia paralela. "Mas este combate deve ser feito com a mesma firmeza e rapidez como quando os pobres cometem pequenos delitos", ressalva.

Este padre mostra-se implacável perante as promessas dos candidatos a cargos políticos que ficam esquecidas nas gavetas após as respetivas eleições. "O país deverá começar a julgar os políticos que, sem razões justificadas, não cumpram o que prometem", propõe, sugerindo que fiquem impedidos de exercer as funções políticas durante algum tempo.

Constantino Alves pega ainda no percurso histórico do país para abordar a "forte identidade" portuguesa como uma das mais-valias em tempos de globalização, fazendo votos para que as fronteiras estejam abertas aos refugiados que fogem da guerra.

Socorre-se mesmo de uma passagem bíblica, segundo a qual até em Israel, há 3 mil anos, era concedido aos estrangeiros o direito de permanecerem no país e de participarem nas colheitas. "Acolher refugiados implica uma atitude interior. Só corações empedernidos ficam insensíveis aos dramas de quem tenta escapar à morte", reforça, acrescentando que "acolher implica também criar condições para que os refugiados possam conviver".

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