'Despacito' abre nova era de fenómenos virais

A música conseguiu em seis meses o que outros levaram anos a atingir, mostrando que há uma nova fase de fenómenos virais

O vídeo da música que tomou de assalto as ondas sonoras em 2017, "Despacito" de Luis Fonsi com Daddy Yankee, está prestes a tornar-se o mais visualizado da história do YouTube.

Nos últimos cinco anos, a liderança pertenceu a "Gangnam Style", do sul-coreano Psy, que foi o primeiro vídeo a ultrapassar a barreira das mil milhões de visualizações obrigando o YouTube a fazer ajustes no mecanismo de contabilização. Mas a música que introduziu a K-Pop ao mundo ocidental não foi destronada por "Despacito", por incrível que pareça. Foi a "See You Again", de Wiz Khalifa com Charlie Puth, que faz parte da banda sonora do filme "Velocidade Furiosa 7", o último com o ator Paul Walker.

Ao contrário de "Gangnam Style", nem o vídeo nem a música "See You Again" trouxeram algo de novo. A produção de Wiz Khalifa ultrapassou o fenómeno sul-coreano - que pôs toda a gente a fazer a mesma coreografia e a tentar cantar numa língua desconhecida - no início de julho, dois anos depois de ser lançada. Agora, há um novo concorrente a escalar o pódio, com esta diferença: "Despacito" demorou seis meses a ultrapassar os 2,8 mil milhões de visualizações. Algo que "Gangnam Style" levou cinco anos a conseguir e "See You Again" atingiu em dois. Além disso, a música de Luis Fonsi está a acumular visualizações a um ritmo muito mais rápido que as duas concorrentes no topo, à escala de milhões por hora. Foi a primeira deste ano a entrar no top 25, que é composto por vídeos de anos anteriores. O que é explica isto?

São vários fatores. "Despacito" é bem capaz de ser a "Macarena" dos tempos modernos, desta vez com o poder multiplicador das redes sociais, a ubiquidade dos smartphones e a força da plataforma promocional Vevo.

Desde que foi lançada, em janeiro de 2017, a música já bateu um recorde impressionante nos serviços de streaming como o Spotify - é a música mais tocada de sempre, 4,6 mil milhões de vezes, de acordo com dados da editora Universal Music Latin Entertainment. Destronou "Sorry", de Justin Bieber, que acumula 4,38 mil milhões de streams - e demorou dois anos para lá chegar.

Este indicador mostra bem o ponto de inflexão na indústria. Não só por ser apenas a terceira música não cantada em inglês a chegar ao topo das tabelas nos Estados Unidos, depois de "Macarena" em 1995 e "La bamba" em 1987, mas por tê-lo feito em tempo recorde. E sobretudo num momento em que há tantas discussões em torno da identidade no país, com o ambiente político e social crispado. O facto de uma música em espanhol ter quebrado todas as barreiras do streaming e do YouTube contribuiu para essa discussão.

Velocidade furiosa

Em outubro de 2015, "See you Again" tornou-se apenas o décimo vídeo a ultrapassar mil milhões de visualizações no YouTube. Na altura, o portal que pertence à Google disse que notava uma aceleração dos vídeos virais. Todos eram de música, desde o então líder "Gangnam Style" a "Blank Space" de Taylor Swift, "Dark Horse" de Katy Perry ou "Uptown Funk" de Mark Ronson com Bruno Mars.

Menos de dois anos depois, uma destas três - "See you Again", "Gangnam Style" ou "Despacito" será a primeira música a chegar a três mil visualizações no YouTube. É uma fasquia que até há bem pouco tempo seria impensável.

"Despacito" quer dizer "lentamente", mas o seu percurso tem sido o oposto. O fenómeno é tal que até o DJ Angemi passou "Despacito" no seu set no festival de música eletrónica Tomorrowland, com uma reação histérica da audiência apesar de esta ser uma música que não encaixa naquele estilo. Um dos elementos que ajudou a tornar a música neste sucesso foi a série de vídeos cómicos publicados na página do grupo The Jackal, no Facebook. Mostra três italianos dentro de um carro a reagirem com desgosto quando a "Despacito" surge na rádio, dizendo que é horrível e está por todo o lado. No entanto, todos cantam em uníssono ao mesmo tempo que criticam a música. O vídeo original tem quase 18 milhões de visualizações naquela rede social.

Há ainda que notar a influência da plataforma Vevo, uma joint venture entre a Universal Music, Sony Music, Google e Abu Dhabi Media. A Vevo distribui os vídeos não só no seu portal mas também noutros sites, partilhando as receitas com a Google, e esse empurrão promocional permite que os vídeos avancem mais rapidamente que outros conteúdos no YouTube.

"Penso que isto significa que toda a gente está mais hiper-conectada que nunca, por isso mais pessoas partilham mais coisas muito mais rapidamente que antes", explica ao DN Gerd Leonhard, um futurista e analista de música que tem feito previsões radicais.

Esta visão alinha-se com os dados que o YouTube vem publicando. No mês passado, a CEO da empresa, Susan Wojcicki, revelou durante a conferência VidCon que os utilizadores do portal passam agora uma hora por dia a verem vídeos nos smartphones. Esta é uma componente fundamental: a utilização dos dispositivos móveis para consumir vídeo disparou, o que faz com que haja mais visualizações em qualquer lado, a qualquer hora.

Outra explicação para a aceleração dos fenómenos virais é a função "autoplay" do YouTube, que automaticamente passa para o vídeo seguinte se o utilizador não fechar a janela ou carregar na pausa. Como o portal tem agora 1,5 mil milhões de utilizadores mensais ativos, o autoplay tem um efeito multiplicador.

"O vídeo e o móvel irão representar 80% de todo o tráfego de internet dentro de cinco anos", sublinha Gerd Leonhard, antevendo uma explosão que tornará todos estes números irrisórios. Por isso mesmo, o YouTube fez grandes modificações à sua app para telemóveis no último ano e na VidCon anunciou mais um redesenho, que agora ajusta automaticamente o vídeo não importa de que forma ele foi carregado. O resultado, espera Wojcicki, é uma experiência mais agradável que retenha os utilizadores durante mais tempo. "O YouTube vai competir a uma escala muito mais gigantesca que a da música", diz Leonhard, referindo que a inteligência artificial será fundamental no futuro.

"Dentro de sete anos, cinco mil milhões de pessoas estarão conectadas constantemente, por isso vamos provavelmente ter três mil milhões de visualizações num único dia - e esquecidos no dia seguinte."

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